Por volta de 1909, o meu bisavô materno foi para o Brasil e nunca mais voltou, nem deu notícias.
O meu bisavô não era um desgraçado, nem um "parasita".
Era um próspero marceneiro estabelecido na Rua do Loureiro, no Porto; era, suponho, o que hoje se chama um pequeno empresário bem sucedido.
Pois bem, fez-se brasileiro.
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Ora, porque os portugueses acham que uma artista que tem há vinte anos um contrato com a Deutsche Grammophone, investe na educação e na cultura e pretende apostar num projecto pedagógico inovador no interior desertificado só pode ser uma “parasita”. Porque sim. Além disso, todos os artistas são uns chulos e uns subsídiodependentes.
Embora haja excepções. Há artistas que os portugueses consideram.
Sentem-se representados por eles. Encarnam verdadeiramente a “alma lusa”.
Por exemplo,
Joana Vasconcelos. Esta artista contemporânea, tão apreciada pelos
media, e até pelos ingleses, ao contrário de Maria João Pires, essa elitista, consegue fazer arte que os portugueses compreendem. Com o recurso a efeitos kitsch, faz paráfrases monumentais de conhecidas obras anti-arte (como a da imagem a
esta, de Joseph Beuys ou
esta a
esta, de Marcel Duchamp) que, segundo os críticos, são verdadeiros “comentários” à “portugalidade” e à “contemporaneidade”. Os portugueses, mesmo aqueles que não percebem nada de arte, são notoriamente sensíveis ao imaginário
pimba, salivam com a sua
imaginação e criatividade e, não só entendem a vácua profundidade dos acima citados
comentários, como até os acham “giros”.
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-À medida que fui crescendo fui-me deparando com certas perplexidades que me vão fazendo entender melhor as atitudes da notável pianista e do meu bisavô António.
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-O que faz a pianista Maria João Pires num país de pianos como este?
-O que faz uma artista como Maria João Pires no país do Quim Barreiros, do Filipe la Féria, do Miguel Sousa Tavares, do Tony Carreira, do Cristiano Ronaldo e do José Rodrigues dos Santos?
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-O que fazemos (pelo menos alguns de nós) no país do Manuel Pinho, do Vilarinho, do Dias Loureiro do BPN, do Jardim Gonçalves, do BCP, do BPP, da Casa Pia, do Jorge Coelho, do Valentim, da Fátima Felgueiras, do Jardim, do Berardo, do Freeport, da TVI, da PT e do José Sócrates?
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-O que faria o meu bisavô num país que elegeu consecutivamente um imbecil que recentemente condecorou a título póstumo um homem decente a quem, em vida, recusou uma pensão de subsistência?
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-O que faço eu num país que pondera renovar a maioria absoluta a um “engenheiro” que se licenciou a um domingo e que passa a vida a perorar pela “qualificação” dos seus concidadãos mas que acha que investir na cultura e na educação além de “despesismo”, é “alimentar parasitas”?
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Um dia, quando for grande como Maria João Pires ou como o meu bisavô António, eu também quero ser brasileiro.
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-Juro.
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