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sexta-feira, 29 de maio de 2009

Don't blame me

De todos os músicos de jazz, Thelonius Monk é aquele que mais parece desenhar quando improvisa sobre as suas composições. Monk toca como quem desenha. Quando delineia as suas desconcertantes composições ele, como um desenhador, hesita, reflecte, calcula. Contudo, mesmo quando recria os standards (como o artista com o seu modelo) o seu desenho não é nunca atormentado com qualquer prurido de verosimilhança e o resultado final é sempre de uma fidelidade rejuvenescida e estimulante.
Trata-se de um desenho aparentemente simples embora nunca óbvio, misteriosamente calculado, como a mais deslumbrante matemática.
Ora, os desenhos sobre o jazz dificilmente não ficam contaminados por essa espécie de descontracção, característica de quem lida com o improviso.
Este retrato de Thelonius padece disso mesmo e talvez ainda de outra característica da sua música, que o tornam (talvez) pouco acessível: uma composição de ornamentos espartanos, quase abstracta - o que, no entanto, reforça o seu carácter reflexivo.
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Para ver (e ouvir) o sr. Monk, tenham a bondade de desligar o som ao sr. Shepp.


sexta-feira, 22 de maio de 2009

o nau-au do professor e as laranjas do Algarve



Que bem! As mulheres social-democratas do Algarve estão motivadas para a vida pública e política.
Mas é bom saber que um ilustre figueirense não se importa de partilhar com elas “o seu know-how em matéria de Protocolo Autárquico e Organização de Eventos".

quarta-feira, 20 de maio de 2009

o colhão do generalíssimo


Desenhar é uma maneira de compreender o mundo. Os velhos mestres orientais advogavam que o exercício do desenho das coisas simples e das suas formas potencia um entendimento mais profundo da sua verdadeira natureza. Eu penso que deve ser isso a Arte.
Esta revelação fez-me lembrar Picasso e o seu sueño y mentira de Franco.
Em Janeiro de 1937 (o ano de Guernica), Picasso criou uma série de 18 gravuras destinadas a serem impressas em forma de cartão postal e vendidas a favor dos soldados da república espanhola. Nesses desenhos, concebidos quase como uma “estória de quadrinhos”, está já a génese gráfica do que viria a ser Guernica. Neles, Franco é escarnecido e caricaturado de várias formas. Contudo, o segundo desenho é o que me trouxe à memória este sueño y mentira de Franco.
O caudilho é aqui retratado como um estranho tubérculo que, com uma espada numa mão e uma espécie de cometa ou nuvem (uma versão derisória do espírito santo?) na outra, transporta na ponta do seu descomunal membro viril um pendão religioso (o generalíssimo via-se como alguém que chefiava uma cruzada, guiado pelo espírito santo). Segundo Josep Palau y Fabre (um dos mais conhecidos conoiseurs de Picasso), a dimensão exagerada do membro e dos testículos era o mais difícil de interpretar nesta gravura. Todavia é sabido que em Espanha a masculinidade (a hombridade) era, e ainda é, valorizada muito acima de outros atributos. Era mesmo a única “virtude” que nunca tinha sido regateada a Franco.
Mas Picasso era um demiurgo, alguém capaz de revelar a verdade mais intrínseca através do exagero e da desmesura de um simples desenho satírico. Não foi aliás ele mesmo que disse que “a arte é uma mentira que serve para mostrar a verdade”?
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segunda-feira, 18 de maio de 2009

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Nelson Fernandes


Agora que os partidos se mobilizam para as eleições locais que se avizinham, eis mais um cromo para actualizar o meu Álbum de notáveis figueirenses.
Este é o “retrato” de Nelson Fernandes, de novo o cabeça-de-lista da CDU à Assembleia Municipal da Figueira da Foz.
É lamentável que as reuniões deste importante órgão do poder local sejam olimpicamente ignoradas pela imprensa; de outro modo todos poderíamos aquilatar o gabarito dos eleitos do povo. Nessas reuniões, e embora integre um dos grupos parlamentares menos representados, Nelson Fernandes parece ser sempre quem mais se diverte (como o anfitrião de um jantar de palermas).
Pessoa de espírito, senhor de um humor fino, clínico e incisivo, destaca as suas intervenções pela consistência, coerência e justeza dos argumentos.
Trata-se do único político a quem concedo o trato por tu.
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sexta-feira, 8 de maio de 2009

o robô-poeta



Portugal tem, como nenhum outro país, a capacidade constante de se suplantar pela parvoíce.
É uma coisa incrível. Trata-se de uma verdadeira patologia nacional, tal como a obsessão pelo Guiness, o livro dos recordes.
Apesar de a zombaria com a política e até com a religião, serem mais ou menos unanimemente aceites e razoavelmente praticadas (embora em pequenos círculos) os tugas, tal como outros ignorantes, têm um respeito reverencial pela Ciência e um sincero terror ao ridículo; o que faz que quando a mais óbvia palermice é anunciada como científica, seja desde logo aceite com respeito circunspecto senão com verdadeiro entusiasmo.
É o caso de Leonel Moura, o artista do século vinte e um. Depois de inventar o robô-pintor (já aqui lhe dediquei uma posta), ei-lo de volta, desta vez com o robô-poeta. Chama-se ISU e “escreve poemas sem sentido(!).
Digam-me lá em que outro país seria possível tão ampla cobertura mediática de uma cabotinice “sem sentido”, sem a mais leve sombra de uma crítica, um remoque, um sorriso (quanto mais de uma gargalhada)?

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Até aos ossos

A entranhada crise mundial e a recente febre da gripe mexicana, com a sua vertigem de morte têm precipitado um pouco por todo o lado uma espiral de humor negro.
Acontece que humor negro é o “middle name” desse grande país que é o México (é um dos principais traços do seu carácter, está-lhe entranhado na massa do sangue, até aos ossos). E a calavera Catrina, de José Guadalupe Posada, é o seu emblemático retrato oficial.




Este filme notável, de René Castillo, que descobri por acaso, recria e actualiza a genial e (perdoe-se-me o paradoxo) imortal criatura de Posada. Castillo deu-lhe cor e movimento e Eugénia León, voz. Foi neste filme que um dos produtos mais sofisticados do mainstream hollywoodiano, o “genial” e aclamado Tim Burton, encontrou (em A Noiva Cadáver) a originalidade tão apreciada pelos imbecis. Sim, os mesmos que agora, na hora da morte de Vasco Granja, tanto censuram e ridicularizam a paixão deste por filmes experimentais, oriundos de países esquisitos.



domingo, 3 de maio de 2009


Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei.
Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão pela minha cabeça é tudo tão verdade!

Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro, 1921.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

J.S. Bach




O Bandeira tem razão. O macaco do Bornéu nunca chegará aos calcanhares do macaco de Darwin.
A música de J. S. Bach foi “iluminada” por aquela estranha geometria cujos sons “despertam no espírito uma sensação de exactidão e de evidência absoluta".
Deve ser isso que nos reconcilia com a condição de humanos.

sábado, 25 de abril de 2009

O velho abutre

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Nadir Afonso ou a compreensão intuitiva dos mecanismos internos das formas



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.O homem volta-se para a geometria como as plantas para o sol: é a mesma necessidade de clareza e todas as culturas foram iluminadas pela geometria, cujas formas despertam no espírito um sentimento de exactidão e de evidência absoluta Nadir Afonso
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Num país em que a norma nas artes (como em tudo) é a adesão acéfala à vaga internacional do momento, são poucos os artistas que aliam à sua prática de atelier uma profunda reflexão teórica. Nadir Afonso é um desses casos raros.
É natural que num país assim um artista destes não faça escola e seja visto como um pobre lunático. Ao contrário de outros pensadores mais badalados, Nadir não se preocupa com a “identidade”, ou a “contemporaneidade”, ou qualquer outra bizantina “temática da problemática” tão do agrado dos meios académicos. O fulcro da sua reflexão é a busca (coerente com a sua obra plástica) de uma compreensão intuitiva dos mecanismos internos das formas, a estética, o sentido da arte - o que faz dele um português universal.
“Uma das principais ideias que sempre defendeu é a de que uma obra de arte se caracteriza pelas leis que a regem: leis matemáticas, geométricas e espaciais universais, numa situação de harmonia que a torna eterna e imutável, independente das condições socioculturais. Essas leis são distintas das que caracterizam outros objectos (não artísticos), como as da originalidade, da evocação e da perfeição (…)”
“Para Nadir Afonso, o fosso entre as faculdades de raciocínio e as de percepção é enorme, mas é nas segundas que reside a capacidade inconsciente e inata de entendimento das leis naturais. É necessário ir contra a ilusão do saber racional e científico, mesmo o dos geómetras, contra a ilusão da imanência dos objectos e contra as tendências mística e psicologicizante de interpretação. O primado da relação entre as coisas, e entre elas e o sujeito, é fundamental na crítica que faz do materialismo e do idealismo, propondo a alternativa individual, baseada na exactidão “moral” de uma lógica matemática. Segundo Nadir, “a estética não poderá constituir-se senão através de uma fenomenologia da geometria perceptiva”.
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Aqui podeis ver o Mestre e, se conguirdes alhear-vos da colecção de banalidades que "emolduram" a reportagem, ouvi-lo, de viva voz.
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quarta-feira, 22 de abril de 2009

Outros sítios


Hoje apeteceu-me deambular.
Descobri um magnífico blog sobre Chaves, a mui nobre e sempre leal cidade do Tâmega e dos meus graves anos adolescentes. Pela imagem, talvez se compreenda porque o menino Nadir Afonso, nado e criado aqui, haveria de ficar para sempre cativo da “estranha matemática das coisas” e do fascínio pela geometria da natureza.