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sexta-feira, 8 de maio de 2009

o robô-poeta



Portugal tem, como nenhum outro país, a capacidade constante de se suplantar pela parvoíce.
É uma coisa incrível. Trata-se de uma verdadeira patologia nacional, tal como a obsessão pelo Guiness, o livro dos recordes.
Apesar de a zombaria com a política e até com a religião, serem mais ou menos unanimemente aceites e razoavelmente praticadas (embora em pequenos círculos) os tugas, tal como outros ignorantes, têm um respeito reverencial pela Ciência e um sincero terror ao ridículo; o que faz que quando a mais óbvia palermice é anunciada como científica, seja desde logo aceite com respeito circunspecto senão com verdadeiro entusiasmo.
É o caso de Leonel Moura, o artista do século vinte e um. Depois de inventar o robô-pintor (já aqui lhe dediquei uma posta), ei-lo de volta, desta vez com o robô-poeta. Chama-se ISU e “escreve poemas sem sentido(!).
Digam-me lá em que outro país seria possível tão ampla cobertura mediática de uma cabotinice “sem sentido”, sem a mais leve sombra de uma crítica, um remoque, um sorriso (quanto mais de uma gargalhada)?

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Até aos ossos

A entranhada crise mundial e a recente febre da gripe mexicana, com a sua vertigem de morte têm precipitado um pouco por todo o lado uma espiral de humor negro.
Acontece que humor negro é o “middle name” desse grande país que é o México (é um dos principais traços do seu carácter, está-lhe entranhado na massa do sangue, até aos ossos). E a calavera Catrina, de José Guadalupe Posada, é o seu emblemático retrato oficial.




Este filme notável, de René Castillo, que descobri por acaso, recria e actualiza a genial e (perdoe-se-me o paradoxo) imortal criatura de Posada. Castillo deu-lhe cor e movimento e Eugénia León, voz. Foi neste filme que um dos produtos mais sofisticados do mainstream hollywoodiano, o “genial” e aclamado Tim Burton, encontrou (em A Noiva Cadáver) a originalidade tão apreciada pelos imbecis. Sim, os mesmos que agora, na hora da morte de Vasco Granja, tanto censuram e ridicularizam a paixão deste por filmes experimentais, oriundos de países esquisitos.



domingo, 3 de maio de 2009


Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei.
Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão pela minha cabeça é tudo tão verdade!

Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro, 1921.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

J.S. Bach




O Bandeira tem razão. O macaco do Bornéu nunca chegará aos calcanhares do macaco de Darwin.
A música de J. S. Bach foi “iluminada” por aquela estranha geometria cujos sons “despertam no espírito uma sensação de exactidão e de evidência absoluta".
Deve ser isso que nos reconcilia com a condição de humanos.

sábado, 25 de abril de 2009

O velho abutre

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Nadir Afonso ou a compreensão intuitiva dos mecanismos internos das formas



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.O homem volta-se para a geometria como as plantas para o sol: é a mesma necessidade de clareza e todas as culturas foram iluminadas pela geometria, cujas formas despertam no espírito um sentimento de exactidão e de evidência absoluta Nadir Afonso
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Num país em que a norma nas artes (como em tudo) é a adesão acéfala à vaga internacional do momento, são poucos os artistas que aliam à sua prática de atelier uma profunda reflexão teórica. Nadir Afonso é um desses casos raros.
É natural que num país assim um artista destes não faça escola e seja visto como um pobre lunático. Ao contrário de outros pensadores mais badalados, Nadir não se preocupa com a “identidade”, ou a “contemporaneidade”, ou qualquer outra bizantina “temática da problemática” tão do agrado dos meios académicos. O fulcro da sua reflexão é a busca (coerente com a sua obra plástica) de uma compreensão intuitiva dos mecanismos internos das formas, a estética, o sentido da arte - o que faz dele um português universal.
“Uma das principais ideias que sempre defendeu é a de que uma obra de arte se caracteriza pelas leis que a regem: leis matemáticas, geométricas e espaciais universais, numa situação de harmonia que a torna eterna e imutável, independente das condições socioculturais. Essas leis são distintas das que caracterizam outros objectos (não artísticos), como as da originalidade, da evocação e da perfeição (…)”
“Para Nadir Afonso, o fosso entre as faculdades de raciocínio e as de percepção é enorme, mas é nas segundas que reside a capacidade inconsciente e inata de entendimento das leis naturais. É necessário ir contra a ilusão do saber racional e científico, mesmo o dos geómetras, contra a ilusão da imanência dos objectos e contra as tendências mística e psicologicizante de interpretação. O primado da relação entre as coisas, e entre elas e o sujeito, é fundamental na crítica que faz do materialismo e do idealismo, propondo a alternativa individual, baseada na exactidão “moral” de uma lógica matemática. Segundo Nadir, “a estética não poderá constituir-se senão através de uma fenomenologia da geometria perceptiva”.
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Aqui podeis ver o Mestre e, se conguirdes alhear-vos da colecção de banalidades que "emolduram" a reportagem, ouvi-lo, de viva voz.
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quarta-feira, 22 de abril de 2009

Outros sítios


Hoje apeteceu-me deambular.
Descobri um magnífico blog sobre Chaves, a mui nobre e sempre leal cidade do Tâmega e dos meus graves anos adolescentes. Pela imagem, talvez se compreenda porque o menino Nadir Afonso, nado e criado aqui, haveria de ficar para sempre cativo da “estranha matemática das coisas” e do fascínio pela geometria da natureza.

domingo, 19 de abril de 2009

Oração


“Todo o universo poderia ser conduzido por uma única lei,
se essa lei fosse boa.”
Marquês de Sade

Agora que, como nunca, paira sobre a justiça a sombra dúbia da iniquidade, receio que, depois do riso, só nos reste a oração.
Lembrei-me desta, que consta de um pequeno livro que comprei há muitos anos e reúne os “argumentos ateístas” do Marquês de Sade.
O divino marquês, sem nunca ter sido julgado, foi prisioneiro de dois séculos e de três regimes: a Monarquia, a Revolução e o Império. Esteve cativo um total de vinte e sete anos. O pobre marquês, muito dado aos ímpetos libidinais, foi sobretudo vítima dos seus ímpetos panfletários. Enfim, teve as suas contas com a justiça. Consta que chegou mesmo a ir preso por dívidas. Morreu internado num hospício. Não, não era louco, embora também não fosse santo; mas se o fosse receio que seria contestável.
Santificado foi Nun’Álvares, mas não consta que tenha rezado assim.
Rezemos pois a oração que o divino marquês nos ensinou:


Oração


“Ó meu deus, tenho um único favor a pedir-te e não mo queres conceder por mais insistentes que sejam as minhas súplicas; esse favor, essa graça insigne, seria ó meu deus, que não escolhesses para meus correctores homens ainda piores do que eu, que não me abandonasses, a mim, que sou culpado apenas de vulgaríssimas e pequeníssimas faltas, nas mãos de tratantes calejados no crime, para quem infringir as tuas leis não passa de uma brincadeira a que se entregam a todo o momento. Põe o meu destino, ó meu deus, nas mãos da virtude, que é a tua imagem neste mundo, porque só os que a respeitam podem reformar o vício; não escolhas para meus regentes, ó melhor dos seres, um monopolizador, um ladrão de pobres, um bancarroteiro – um sodomita – um flibusteiro, um aguazil da inquisição de Madrid, um jesuíta despadrado e uma alcoviteira; já que tenho de ser sacrificado, ó meu deus, já que está escrito no teu grande livro que me fizeste nascer para servir de pasto a porcos, e visto que sabeis melhor do que ninguém que o único fruto que posso recolher daí é o de tornar-me ainda pior do que já sou, devido ao suplemento de ódio que serei obrigado a sentir pelos meus irmãos, faz pelo menos com que o meu exemplo possa servir, pelo teu santo poder, aos meus compatriotas e que os vis tratantes que acabo de nomear, constatando, pela ineficácia dos seus tratamentos na minha pessoa, a impossibilidade de ocultar doravante os seus horrores sob a máscara de uma tão quimérica igualdade, imaginem finalmente outros meios para escravizar os seus semelhantes aos prodigiosos desregramentos da sua vingança e da sua cupidez. Amen. Fructus belli.”-------------------------------------------------------------------------------------------------
Esta Oração foi escrita em 1782 e publicada pela primeira vez em 1949.
O desenho ao alto foi inspirado no retrato imaginário do Marquês de Sade, de Man Ray.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Juan gris e o “sarcasmo extremo” do humor gráfico



Picasso e Braque já tinham reduzido a “velha ordem” (a perspectiva) a cinzas quando Juan Gris se lhes juntou para dar cor aos destroços.
Mas antes disso, José Victoriano Gonzalez Perez, o cubista”intelectual”, o Saint-Just da revolução cubista, tinha começado a ganhar a vida aos dezassete anos trabalhando para a imprensa ilustrada de Madrid.
Esta exposição, de que tive conhecimento através do blog de Kap, mostra os oito anos em que Juan gris colaborou com a imprensa satírica de Espanha e de França (onde se tinha refugiado para fugir ao serviço militar e para cumprir os seus anseios artísticos) e revela o seu humor incorrecto e corrosivo assim como a evolução gráfica desde os desenhos iniciais até encontrar o estilo pessoal em que ”mediante la vía sintética explora las elipsis y sinopsis gráficas que le conducirán al cubismo.”
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Ao alto, bodegón com persiana, Juan Gris

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O director-geral

o povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo 
todas as qualidades e todos os defeitos.
Coragem, Portugueses, só vos faltam as qualidades

Almada Negreiros


Para além de uma bovina e mórbida perversidade auto-punitiva, uma outra razão para o proverbial atraso civilizacional de Portugal é a capacidade que os portugueses têm de se deixarem governar por elites labregas, obtusas e pretensiosas.
Os portugueses apreciam lideranças fortes, seguras e autoritárias, ainda que de cóleras aflautadas (veja-se o caso paradigmático de Salazar e do actual primeiro-ministro, cuja moralidade duvidosa e duvidoso currículo académico comprovado lhe permitem perorar impunemente sobre a ética na política e a qualificação académica dos seus semelhantes). Esta característica tonitruante e estridente garante-lhes uma popularidade que lhes legitima toda a cadeia hierárquica de chefias nomeadas à sua imagem. De ministros a secretários de estado e a directores gerais.
O director geral de saúde Francisco George, por exemplo, acha que a "desmaterialização dos certificados de óbito" é um "grande projecto" para a saúde pública em Portugal, o "mais significativo e seguramente o mais importante". Nem mais. Quais fim das listas de espera para cirurgias! Quais introdução da estomatologia no SNS! – A certidão de óbito digital é que é!
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Mas não tenhais medo.
Já vem aí a nova fornada de ministros e directores gerais. E para aferir da sofisticação de uma elite, nada como apreciar como se diverte. Os estudantes de Coimbra meu deus, fartos da diversão pimba de lineu das suas habituais libações, descobriram o pimba alternativo (!).
Descansai, portugueses, o futuro das vossas elites está à altura obtusa do seu passado labrego. Só que desta vez sem pretensões.
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domingo, 12 de abril de 2009

Primeiro estranha-se, depois entranha-se



A seu respeito, falam da “potência e simplicidade” de Aretha Franklin, da “sinceridade “ de Rocío Jurado ou da “expressividade” e “sensibilidade” de Billie Holliday ou de Chavela Vargas, mas receio que o fenómeno, ainda que igualmente intangível é exponencialmente “entrañable”.
É Concha Buika.
Como alguém disse: ”é glorioso descobrir uma jóia como esta no meio de tanto lixo que a industria discográfica produz hoje em dia”.

sábado, 11 de abril de 2009

O comissário maravilhas



Se o português é depressivo e neurasténico, este é um português fora de série.
Ele é o senhor feliz e o senhor contente num só.
Em tempo de crise o homem irradia felicidade e auto estima. E tem motivos para isso. Não há festa nem festança onde não vá a constança.
Entre outras façanhas menos conhecidas, factura cinco (5) mil euros por reunião na Brisa; tem um one man show (com partnaire) na TV onde, todas as segundas-feiras demonstra socraticamente, em notas filosoficamente soltas, como o país é bem governado, e foi nomeado “comissário” das, como diz o Pedro Penilo, no seu blogue, “7 maravilhas que certos e determinados portugueses mandaram fazer aos outros”.
Do ponto de vista do desenho, as formas rubicundas e as linhas curvas adaptam-se como luvas à auto-satisfação que caracteriza o personagem.
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sábado, 4 de abril de 2009

Descartes



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O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: todos pensamos tê-lo em tal medida que até os mais difíceis de se contentar nas outras coisas não costumam desejar mais bom senso do que têm René Descartes
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Se René Descartes pudesse viver este nosso tempo, em que a palermice e o fanatismo estão tão na ordem do dia como no seu, "a economia" é uma nova espécie de religião e os economistas uma espécie endeusada de demiurgos troca-tintas - o pai do racionalismo e do “penso , logo existo” talvez também cogitasse sobre como existir pode ser uma looonga paciência.
Esta é uma caricatura executada a partir do célebre retrato que dele fez o grande Frans Hals.
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