.

sábado, 14 de março de 2009

A arte para totós


.
NÃO, não se trata se trata de maliciosos e subtis divertimentos em trompe l’oeil. Ou de ousadas e ilusionistas manipulações da imagem. Ou de radicais e virulentos atropelos da perspectiva. Não, agora atingiu-se um outro patamar filosófico: A ARTE INVISÍVEL. Esta corrente artística “eleva o nada ao estatuto de obra-prima!” Nem mais.
Apontem aí nos vossos caderninhos: No ano da graça de 2009 os seis “comissários” desta exposição no Centro Georges Pompidou, Paris, descobriram por fim a arte que não ofende, não choca, não sugere, não significa, não representa, não adianta, nem atrasa - a arte Ómega! (embora haja pessoas que, tendo pago dez euros (10) para ver a exposição, ainda estejam perplexos e desconfiados de uma fraude. Francamente!)
No Centro Pompidou podem à noite deixar as portas abertas: esta exposição, de certeza que não ofende o Islão (ou outra qualquer religião cujos clérigos sejam susceptíveis aos, até aqui, sempre dúbios sentidos da arte).
A arte, meus amigos, atingiu o Nirvana.
----------------------------------------------------------------------------------------------
Ao alto, Cornelius Norbertus Gijsbrechts, Reverso de um quadro, 1670 (óleo s/tela 66,6x86,5cm)
.
.

quarta-feira, 11 de março de 2009

O cão de Vargas

Guillermo Habacuc Vargas é um artista costa-riquenho que se tornou conhecido planetariamente por, supostamente, ter sacrificado um cão no altar da sua “arte” - o que provocou uma histeria globalizada entre as almas sensíveis dos amiguinhos dos animais. O mundo afinal não passa de uma pequena aldeia que precisa do seu “louco” para catalizar os males.
“Guillermo Habacuc Vargas. Escrevam este nome no Google e obterão 143 mil resultados. ‘Animal’ é o que de mais gentil se poderá encontrar em termos de referências ao rapaz, mas ‘filho da puta’, escrito já em várias línguas, começa a ser a expressão mais habitual.Um filho da puta tão óbvio? Fiquei curioso e googlei a história.”
Foi o que me aconteceu a mim quando recebi por e-mail uma exortação a assinar uma petição on-line para boicotar a presença do artista na Bienal Centro-Americana de Arte de 2009. E encontrei este texto que explica que a história não foi bem assim. E que toda a histeria indignada e a “comoção justiceira” que grassa na blogosfera contra o pobre artista só lhe dá razão e prova afinal que “tu és aquilo que lês”.
-------------------------------------------------------------------------------------------------
Ao alto, cabeça de cão, desenho.
.

domingo, 8 de março de 2009

Uma santa besta


.
Carííííssimos,
Neste dia internacional da Mulher, em verdade vos digo: um asno com uma mitra entre as orelhas é uma santa besta.” (Camilo Castelo Branco aos portugueses).
.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Paulo Diogo


.
Após alguns anos de abandono da pintura (que trocou pelo ensino), o meu amigo Paulo Diogo regressou à paixão dos seus verdes anos e no espaço de seis meses já vai na sua terceira exposição consecutiva. Inaugurou no dia 24 de Fevereiro uma exposição no CAE, Figueira da Foz. Até 15 de Março.
Esta sua mostra, muito maior do que a que realizou em Setembro na sala da Magenta (em que partilhou o espaço com mais duas artistas) permite uma muito mais abrangente apreciação da qualidade e validade do seu trabalho. Este, bastante diferente do meu (os nossos universos são substantivamente distintos embora tenhamos partilhado o percurso) é igualmente povoado de citações, alusões, ironias e sarcasmos subliminares.
A pintura de Paulo Diogo, desde os guaches iniciais influenciada pelo imaginário surrealista, é agora pontuada por um colorido pop que acentua e sublinha o seu caprichoso humor non-chalant por vezes cruel e imprevisto. O seu trabalho, pontuado por referências “cultas”, imaginoso e experimentalista (veja-se as suas pinturas em volume ou o curioso e ousado jogo intelectual com o conceito de “moldura”) está em plena maturidade.
Contudo, decerto por (de)formação profissional, Paulo não resistiu a “explicar” o seu trabalho. Prodigalizou ao público uma espécie de “catálogo-glossário” onde “explica” os seus quadros, um por um. Perfeitamente dispensável. Eu julgo que os bons quadros têm vida própria, não precisam de “advogado”. Os mesmo bons vivem mais do que os seus autores (que não estarão cá sempre para os defender). Esta exposição tem um bom punhado deles.
-------------------------------------------------------------------------------------------------
Ao alto, Eu, Paulo Diogo, óleo s/tela -100x100
.

terça-feira, 3 de março de 2009

O triunfo da Primavera




Não, não é o Japão.
Trata-se da Primavera no meu jardim.
A minha velha ameixieira, em todo o seu esplendor (embora as geadas da invernia tenham deixado os seus destroços. As vítimas do costume foram as minhas pobres tentativas de abacateiros).
.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Charles Baudelaire e o spleen de Braga




Os recentes episódios caricatos que envolveram “a origem do mundo”, de Courbet e o “intendente” da polícia de Braga, (que prontamente reagiu a uma denúncia popular para preservar a ordem pública, a moral e os bons costumes) lembraram-me um episódio recente, também em Braga, onde um emigrante português terá chamado a polícia para expulsar de um parque público uma criança negra “porque os parques públicos portugueses não deviam ser para estrangeiros”.
Isto tudo mais a anedota do carnaval de Torres Vedras e outros episódios cada vez mais habituais, revela um triste caldo de cultura e corrobora uma tese que venho acalentando segundo a qual não há nada mais reaccionário do que “o povo”. Esta tese pode ser ilustrada à saciedade pelas suas antigas e recentes opções políticas e culturais.
.
O Povo”, essa vaga entidade adulada pelos políticos, apenas preza a “segurança”, a “estabilidade” e o “emprego” ou os seus alter-egos eufemísticos: a ordem pública, a moral e os bons costumes. As coisas do espírito são-lhe completamente estranhas, assim como conceitos como liberdade, igualdade ou fraternidade, devaneios de artistas e desocupados, certamente.
.
O “povo” acredita piamente que o mundo foi criado há precisamente seis mil anos em seis dias. Por isso ficou chocado com “A origem do mundo”. Esta gente, quando nasceu, não se lembrou de olhar para trás. Se o tivesse feito saberia ao que Courbet aludia quando baptizou o quadro, criado de encomenda para um diplomata otomano (ao contrário do que as doutas ignorâncias escrevem nos jornais, esta pintura nunca fez escândalo no seu tempo simplesmente porque nunca foi exibido em público, até há cerca de vinte anos, quando deu entrada no museu d’Orsay, vindo directamente do consultório do psicanalista Jacques Lacan onde estava escondido por detrás de um outro, pintado pelo surrealista André Masson, cunhado do bom doutor - a história toda aqui.)
Sempre que os seus “valores” estão em crise, os recursos do “povo” parecem ser invariavelmente a inveja e a sua irmã predilecta, a denúncia. Quase todos os crimes do século vinte (do holocausto ao gulag, da revolução cultural a Pol Pot) foram possíveis graças a estas virtudes populares: a inveja e a denúncia. As maiores atrocidades do século passado foram cometidas em épocas de “crise de valores” e sempre em nome do "povo", com a sua anuência, aprovação, participação activa ou omissão.
O libertário Gustave Courbet era amigo do anarquista Pierre-Joseph Proudhon, que achava que “ a propriedade é um roubo” (uma heresia que decerto horrorizaria o bom povo de Braga) e do dandy licencioso Charles Baudelaire, poeta que escreveu “As flores do mal”, “os paraísos artificiais” e imenso sobre arte; descobriu e traduziu para francês, a língua “culta” de então, Edgar Alan Poe e amou demais uma mulata, Jeanne Duval, de quem Edouard Manet (outro escandaloso) haveria de fazer um retrato magistral. Esta paixão foi um escândalo na sua época. Suponho que ainda hoje o bom povo de Braga, ou d’ailleurs, ache o amor inter-racial uma espécie de perversão zoófila, ou assim.
.
Não me admiraria que, se estes cinco estarolas hipoteticamente passeassem hoje pela idolátrica o seu esplendor (no caso de Baudelaire e Poe, o seu spleen) fossem irremediávelmente linchados pelo povo ou, no mínimo, que este os denunciaria ao “intendente”.
Os tempos que aí vêm parecem-me aziagos para os espíritos livres.
.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

o meu desenho de Pomar




"Ninguém acredita que não sei desenhar, mas é verdade. Para mim, desenhar é uma coisa que estou sempre a fazer pela primeira vez. O desenho é como escrever, é uma forma de pensar o mundo e o mundo nunca fica pensado. Quando desenho, é sempre uma nova aventura". Júlio Pomar
.
Júlio Pomar é um mestre da cor e do gesto impressivo. Mas também do desenho.
Todos os seus desenhos possuem aquilo que Matisse chamava “o arabesco”. Neles, as partes brancas têm tanta importância como as partes pretas. A parte do papel deixada em branco vive sempre em perfeita harmonia com as partes visitadas pelo seu gesto criador. O seu traço vivo e ágil, aparentemente hesitante ou improvisador é sempre preciso, quase cirúrgico como a verdadeira poesia. Para Júlio Pomar desenhar não é um mero exercício académico em que se repetem fórmulas aprendidas – mas sim uma atitude de deslumbramento e de descoberta que partilha com os antigos mestres orientais ou com Matisse. Para eles o desenho é uma maneira de pensar o mundo, refazendo-o. Sempre com emoção. Sempre uma nova aventura.
Júlio Pomar inaugurou na passada Sexta-Feira em Serralves uma exposição da sua obra. Chama-se "Cadeia da relação".
Até ao dia 20 de Abril.
.
.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A raiva



Angola é um dos países do mundo com maior taxa de crescimento económico. É uma “potência regional”. Dizem que até já substituiu Portugal como “motor” dos PALOP. A sua nova elite endinheirada investe nos mais variados mercados globais. O novo-riquismo destas fortunas abruptas e misteriosas ofusca. Não há dia que a imprensa portuguesa não faça eco de mais uma “fusão”, uma “participação”, uma “operação” em que estão envolvidos capitais angolanos.
Mas Angola permanece um dos países do mundo com maior taxa de mortalidade infantil. Recentemente um surto de raiva assolou a região luandense. O Hospital pediátrico de Luanda registou já 69 óbitos. Desconhecem-se dados sobre o resto do país.
Em Portugal, onde a raiva está erradicada e de onde partem todos os meses milhares de pessoas em busca do novo “el dorado”, não há vacinas contra a raiva. Esgotaram os “stocks”. É necessário importá-las da Alemanha, país onde, pelos vistos, ainda não está erradicada. Deve ser por isso que os seus laboratórios continuam a fabricá-la.
A raiva mata. Há anos que eu agonizo (ao alto, um desenho de juventude, 14-1-1981).
.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Retrato de um poeta


Para Miguel Ângelo (sim, esse) um desenho não tinha que se parecer com a “cousa desenhada”. Apenas com a ideia que dela fazemos.
Este desenho é (ai de mim) a ideia que eu fiz do poeta Daniel Abrunheiro a partir de uma foto furtiva que ele descuidadamente colocou no seu blogue.
Para fazerdes, caros leitores, a vossa própria ideia longe do meu traço certamente redutor e algo constrangido (pela admiração e pela inveja), visitai o blogue do Daniel Abrunheiro, onde a Língua Portuguesa é uma cousa sempre magnífica. Vede como ela brota límpida e corre, livre e caudalosa como uma das vossas ideias mais generosas. Aqui.
.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O general no seu labirinto


Portugal é assim. Tem lampejos. Foi assim em 1383-85, em 1820-22, em 1910 e em 1974-75. Mas depois volta tudo à normalidade.
O cabecilha (ou testa-de-ferro) daquela espécie de golpe palaciano, ou revoluçãozinha de veludo (a 25 de Novembro de 1975) que pôs em marcha esta espécie de restauração do ancien regime em que vivemos – o regresso à normalidade - caiu na real. Bravo!!
Não imagino por onde o homem terá andado perdido desde que pendurou o sabre, o pinguelim e as botas. Mas pelos vistos, está de regresso, cônscio da nossa normalidade.
Bem-vindo pois ao país real, habitado (ou assombrado) entranhadamente pelos mais variados medos quotidianos.
Este é o país cuja apagada e vil tristeza torna possíveis todas as iniquidades.
Bem-vindo à ditosa pátria amada.
.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

convite



Hoje os meus amigos Fernanda Soares, Manuela Matos e Filinto Viana inauguram uma exposição de pintura.
Na Galeria da Associação de Artistas p'la arte Magenta, por baixo da esplanada Silva Guimarães, na Figueira da Foz. Às 16 horas.
------------------------------------------------------------------------------------------------------
Na imagem ao alto, desenho a pincel (tinta da China sobre cartão) de Filinto Viana. Da minha Pinacoteca.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O gato e as máscaras sarcásticas


“Tenho horror às pessoas que falam do “belo”. O que é o belo?
Na pintura deve falar-se de problemas. Quadros não são mais que pesquisa e experimentação. Nunca pinto um quadro como obra de arte. Todos são pesquisas. Pesquiso incessantemente e em toda esta procura contínua está um desenvolvimento lógico. Por isso numero e dato os quadros. Talvez alguém um dia se sinta grato por isso. Pintar é uma questão de inteligência.”
Pablo Picasso

Este quadro é um “desenvolvimento lógico” de uma série de pinturas em que trabalhei entre 2004 e 2006 (esta é uma delas, sigam os links).
Esteve virado contra a parede do meu atelier, desde então por concluir. As soluções que eu ia achando pareciam-me sempre insatisfatórias para os problemas que a sua concepção havia suscitado. - Até que, na semana passada, “o resolvi” (como diz o meu amigo Filinto Viana).
A composição representa um gato sobre uma manta, entre dois grupos de máscaras.
O motivo geométrico da manta escocesa é representado linearmente (a duas dimensões) e é, voluntária e maliciosamente, uma reminiscência do padrão das composições de Mondrian, mas em negativo; Isto é, a manta não é aqui seguramente um refúgio de conforto e de harmonia para o desconcerto do mundo.
O padrão assim “invertido”, desenhado numa ligeira diagonal, instila na composição um desequilíbrio, uma falha que potencia uma pulsão inquietante e contamina todo o conjunto: - os dois grupos de máscaras, (vagamente ameaçadores ou trocistas, numa amálgama indistinta de brancos, cinzas e azuis quase neutros); o fundo (premonitório, na sua gradação de azuis violáceos) e a mancha vermelha (violenta e afirmativa, que desenha o gato como um grito).
O contraste entre a pintura plana (da reprodução da manta) e resto da composição, ilustra o meu conceito da pintura como um lugar onde a imaginação sublima os fantasmas da realidade.
Penso que esta pequena tela testemunha também - com alguma (auto) ironia, três ou quatro tons surdos e um acorde estridente - duas das minhas afinidades com o artista belga James Ensor: o mesmo fascínio pelas máscaras e um (no meu caso, crescente) horror às multidões.
------------------------------------------------------------------------------------------
Ao alto, O gato e as máscaras sarcásticas, acrílico s/ tela, 60x60 - 2004-2009
.