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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Charles Baudelaire e o spleen de Braga




Os recentes episódios caricatos que envolveram “a origem do mundo”, de Courbet e o “intendente” da polícia de Braga, (que prontamente reagiu a uma denúncia popular para preservar a ordem pública, a moral e os bons costumes) lembraram-me um episódio recente, também em Braga, onde um emigrante português terá chamado a polícia para expulsar de um parque público uma criança negra “porque os parques públicos portugueses não deviam ser para estrangeiros”.
Isto tudo mais a anedota do carnaval de Torres Vedras e outros episódios cada vez mais habituais, revela um triste caldo de cultura e corrobora uma tese que venho acalentando segundo a qual não há nada mais reaccionário do que “o povo”. Esta tese pode ser ilustrada à saciedade pelas suas antigas e recentes opções políticas e culturais.
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O Povo”, essa vaga entidade adulada pelos políticos, apenas preza a “segurança”, a “estabilidade” e o “emprego” ou os seus alter-egos eufemísticos: a ordem pública, a moral e os bons costumes. As coisas do espírito são-lhe completamente estranhas, assim como conceitos como liberdade, igualdade ou fraternidade, devaneios de artistas e desocupados, certamente.
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O “povo” acredita piamente que o mundo foi criado há precisamente seis mil anos em seis dias. Por isso ficou chocado com “A origem do mundo”. Esta gente, quando nasceu, não se lembrou de olhar para trás. Se o tivesse feito saberia ao que Courbet aludia quando baptizou o quadro, criado de encomenda para um diplomata otomano (ao contrário do que as doutas ignorâncias escrevem nos jornais, esta pintura nunca fez escândalo no seu tempo simplesmente porque nunca foi exibido em público, até há cerca de vinte anos, quando deu entrada no museu d’Orsay, vindo directamente do consultório do psicanalista Jacques Lacan onde estava escondido por detrás de um outro, pintado pelo surrealista André Masson, cunhado do bom doutor - a história toda aqui.)
Sempre que os seus “valores” estão em crise, os recursos do “povo” parecem ser invariavelmente a inveja e a sua irmã predilecta, a denúncia. Quase todos os crimes do século vinte (do holocausto ao gulag, da revolução cultural a Pol Pot) foram possíveis graças a estas virtudes populares: a inveja e a denúncia. As maiores atrocidades do século passado foram cometidas em épocas de “crise de valores” e sempre em nome do "povo", com a sua anuência, aprovação, participação activa ou omissão.
O libertário Gustave Courbet era amigo do anarquista Pierre-Joseph Proudhon, que achava que “ a propriedade é um roubo” (uma heresia que decerto horrorizaria o bom povo de Braga) e do dandy licencioso Charles Baudelaire, poeta que escreveu “As flores do mal”, “os paraísos artificiais” e imenso sobre arte; descobriu e traduziu para francês, a língua “culta” de então, Edgar Alan Poe e amou demais uma mulata, Jeanne Duval, de quem Edouard Manet (outro escandaloso) haveria de fazer um retrato magistral. Esta paixão foi um escândalo na sua época. Suponho que ainda hoje o bom povo de Braga, ou d’ailleurs, ache o amor inter-racial uma espécie de perversão zoófila, ou assim.
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Não me admiraria que, se estes cinco estarolas hipoteticamente passeassem hoje pela idolátrica o seu esplendor (no caso de Baudelaire e Poe, o seu spleen) fossem irremediávelmente linchados pelo povo ou, no mínimo, que este os denunciaria ao “intendente”.
Os tempos que aí vêm parecem-me aziagos para os espíritos livres.
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

o meu desenho de Pomar




"Ninguém acredita que não sei desenhar, mas é verdade. Para mim, desenhar é uma coisa que estou sempre a fazer pela primeira vez. O desenho é como escrever, é uma forma de pensar o mundo e o mundo nunca fica pensado. Quando desenho, é sempre uma nova aventura". Júlio Pomar
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Júlio Pomar é um mestre da cor e do gesto impressivo. Mas também do desenho.
Todos os seus desenhos possuem aquilo que Matisse chamava “o arabesco”. Neles, as partes brancas têm tanta importância como as partes pretas. A parte do papel deixada em branco vive sempre em perfeita harmonia com as partes visitadas pelo seu gesto criador. O seu traço vivo e ágil, aparentemente hesitante ou improvisador é sempre preciso, quase cirúrgico como a verdadeira poesia. Para Júlio Pomar desenhar não é um mero exercício académico em que se repetem fórmulas aprendidas – mas sim uma atitude de deslumbramento e de descoberta que partilha com os antigos mestres orientais ou com Matisse. Para eles o desenho é uma maneira de pensar o mundo, refazendo-o. Sempre com emoção. Sempre uma nova aventura.
Júlio Pomar inaugurou na passada Sexta-Feira em Serralves uma exposição da sua obra. Chama-se "Cadeia da relação".
Até ao dia 20 de Abril.
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A raiva



Angola é um dos países do mundo com maior taxa de crescimento económico. É uma “potência regional”. Dizem que até já substituiu Portugal como “motor” dos PALOP. A sua nova elite endinheirada investe nos mais variados mercados globais. O novo-riquismo destas fortunas abruptas e misteriosas ofusca. Não há dia que a imprensa portuguesa não faça eco de mais uma “fusão”, uma “participação”, uma “operação” em que estão envolvidos capitais angolanos.
Mas Angola permanece um dos países do mundo com maior taxa de mortalidade infantil. Recentemente um surto de raiva assolou a região luandense. O Hospital pediátrico de Luanda registou já 69 óbitos. Desconhecem-se dados sobre o resto do país.
Em Portugal, onde a raiva está erradicada e de onde partem todos os meses milhares de pessoas em busca do novo “el dorado”, não há vacinas contra a raiva. Esgotaram os “stocks”. É necessário importá-las da Alemanha, país onde, pelos vistos, ainda não está erradicada. Deve ser por isso que os seus laboratórios continuam a fabricá-la.
A raiva mata. Há anos que eu agonizo (ao alto, um desenho de juventude, 14-1-1981).
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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Retrato de um poeta


Para Miguel Ângelo (sim, esse) um desenho não tinha que se parecer com a “cousa desenhada”. Apenas com a ideia que dela fazemos.
Este desenho é (ai de mim) a ideia que eu fiz do poeta Daniel Abrunheiro a partir de uma foto furtiva que ele descuidadamente colocou no seu blogue.
Para fazerdes, caros leitores, a vossa própria ideia longe do meu traço certamente redutor e algo constrangido (pela admiração e pela inveja), visitai o blogue do Daniel Abrunheiro, onde a Língua Portuguesa é uma cousa sempre magnífica. Vede como ela brota límpida e corre, livre e caudalosa como uma das vossas ideias mais generosas. Aqui.
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O general no seu labirinto


Portugal é assim. Tem lampejos. Foi assim em 1383-85, em 1820-22, em 1910 e em 1974-75. Mas depois volta tudo à normalidade.
O cabecilha (ou testa-de-ferro) daquela espécie de golpe palaciano, ou revoluçãozinha de veludo (a 25 de Novembro de 1975) que pôs em marcha esta espécie de restauração do ancien regime em que vivemos – o regresso à normalidade - caiu na real. Bravo!!
Não imagino por onde o homem terá andado perdido desde que pendurou o sabre, o pinguelim e as botas. Mas pelos vistos, está de regresso, cônscio da nossa normalidade.
Bem-vindo pois ao país real, habitado (ou assombrado) entranhadamente pelos mais variados medos quotidianos.
Este é o país cuja apagada e vil tristeza torna possíveis todas as iniquidades.
Bem-vindo à ditosa pátria amada.
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sábado, 7 de fevereiro de 2009

convite



Hoje os meus amigos Fernanda Soares, Manuela Matos e Filinto Viana inauguram uma exposição de pintura.
Na Galeria da Associação de Artistas p'la arte Magenta, por baixo da esplanada Silva Guimarães, na Figueira da Foz. Às 16 horas.
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Na imagem ao alto, desenho a pincel (tinta da China sobre cartão) de Filinto Viana. Da minha Pinacoteca.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O gato e as máscaras sarcásticas


“Tenho horror às pessoas que falam do “belo”. O que é o belo?
Na pintura deve falar-se de problemas. Quadros não são mais que pesquisa e experimentação. Nunca pinto um quadro como obra de arte. Todos são pesquisas. Pesquiso incessantemente e em toda esta procura contínua está um desenvolvimento lógico. Por isso numero e dato os quadros. Talvez alguém um dia se sinta grato por isso. Pintar é uma questão de inteligência.”
Pablo Picasso

Este quadro é um “desenvolvimento lógico” de uma série de pinturas em que trabalhei entre 2004 e 2006 (esta é uma delas, sigam os links).
Esteve virado contra a parede do meu atelier, desde então por concluir. As soluções que eu ia achando pareciam-me sempre insatisfatórias para os problemas que a sua concepção havia suscitado. - Até que, na semana passada, “o resolvi” (como diz o meu amigo Filinto Viana).
A composição representa um gato sobre uma manta, entre dois grupos de máscaras.
O motivo geométrico da manta escocesa é representado linearmente (a duas dimensões) e é, voluntária e maliciosamente, uma reminiscência do padrão das composições de Mondrian, mas em negativo; Isto é, a manta não é aqui seguramente um refúgio de conforto e de harmonia para o desconcerto do mundo.
O padrão assim “invertido”, desenhado numa ligeira diagonal, instila na composição um desequilíbrio, uma falha que potencia uma pulsão inquietante e contamina todo o conjunto: - os dois grupos de máscaras, (vagamente ameaçadores ou trocistas, numa amálgama indistinta de brancos, cinzas e azuis quase neutros); o fundo (premonitório, na sua gradação de azuis violáceos) e a mancha vermelha (violenta e afirmativa, que desenha o gato como um grito).
O contraste entre a pintura plana (da reprodução da manta) e resto da composição, ilustra o meu conceito da pintura como um lugar onde a imaginação sublima os fantasmas da realidade.
Penso que esta pequena tela testemunha também - com alguma (auto) ironia, três ou quatro tons surdos e um acorde estridente - duas das minhas afinidades com o artista belga James Ensor: o mesmo fascínio pelas máscaras e um (no meu caso, crescente) horror às multidões.
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Ao alto, O gato e as máscaras sarcásticas, acrílico s/ tela, 60x60 - 2004-2009
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Eça e a “cunha”


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Eça de Queiroz bateu-se como poucos contra esse endémico mal tão naturalmente aceite entre nós: a corrupção. As suas páginas estão cheias de finas ironias e pesados sarcasmos acerca desse estranho consenso nacional, a cunha. Ele próprio foi vítima da cunha. Os últimos acontecimentos políticos em Portugal vieram chamar de novo a atenção para esse quotidiano venal normalizado.
Os ingleses têm dos povos do sul da Europa a ideia, já antiga, de uma gente atavicamente predisposta à venalidade. Os recentes acontecimentos em Portugal parecem ilustrar com cores luxuosas esse velho preconceito britânico: nem de propósito, parece que a coisa além de cunhas também meteu libras esterlinas.
Não sei o que se passa convosco, leitores deste blogue, mas eu sinto-me mais do que envergonhado, vexado.
E não há Eça que nos redima. Até porque o pobre José Maria foi um “vencido da vida”.
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O sonho americano


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É verdade. A América continua ser a terra dos sonhos. Lá na América actores sem talento, idiotas chapados e até mesmo pretos podem ser presidentes (privilégio que por cá está consagrado apenas aos idiotas). Mas também se pode ter sérios problemas com o desenho e com o álcool e mesmo assim atingir o firmamento das artes (pensando bem, por cá também).
Hoje, o Google relembra o aniversário de Jackson Pollock e a perenidade do sonho americano (no seu sentido lato, globalizado).
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Este conceito, “american dream”, é o principal contributo da América para a filosofia ocidental. Trata-se de um conceito segundo o qual qualquer idiota pode ser qualquer coisa. Basta querer muito. Estar no lugar certo à hora certa. Fazer figas e pôr-se a jeito.
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O que é a arte?




“Nada pode ser criado sem a solidão.
Criei em meu redor uma solidão que ninguém calcula.
É muito difícil hoje em dia estar-se sozinho, pois existem relógios.
Já alguma vez viu um santo com relógio?
Não consegui encontrar nenhum, mesmo entre os santos
que são considerados os santos padroeiros dos relojoeiros.”
Pablo Picasso

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Tomei recentemente conhecimento através do varal de idéias, de Eduardo Lunardeli (link aqui ao lado) de um curioso manifesto artístico que desconhecia por completo.
O Hartismo (suponho que fartismo, em português), é um movimento que começou na Galiza e agora, graças à internet, já ganhou outras paragens. Depois dos manifestos das vanguardas do início do século vinte, este é um manifesto de artistas que estão fartos (hartos) da arte oficial, da tutela dos galeristas, críticos, comissários e curadores que sazonalmente prescrevem o que vai ser a arte aceitável. Estão fartos da tirania do conceito sobre o saber oficinal.
Li o manifesto com atenção e estou de acordo com quase tudo. Mas, embora também esteja farto de Duchamp e da imensa blague em que se tornou a arte actual (veja-se os mais recentes premiados com o Turner e a última cegada de David Cerny), receio não poder ser um fartista.
Porque este movimento me parece muito mais corporativo do que artístico. O seu manifesto parece-me uma proposta de movimento pró-guilda. Acho muito redutor conceber a arte de hoje como um exclusivo das técnicas tradicionais (pintura, desenho, gravura, etc); acho redutor e uma nova espécie de academicismo, conceber o artista de hoje unicamente como alguém cujo trabalho se enquadra dentro destes moldes tradicionais de criação. Por estes critérios, artistas refractários às técnicas convencionadas, como Van Gogh ou Cézanne ou Picasso ou Giacometti, dificilmente seriam considerados dignos desse estatuto.
Creio que deve ser sempre o público a conceder a um artista o estatuto. Isso requer liberdade. Convenhamos no entanto que o público de um artista não é sempre, necessariamente, o do seu tempo físico.
Veja-se o caso de Gustave Courbet. No seu tempo, a pintura aceite eram alegorias vaporosas de anjinhos e baboseiras. Ele era um artista tão auto confiante nas suas capacidades técnicas que dizia que apenas pintava o que via. “Mostrem-me um anjo, que eu pinto-o”.
Em 1846, não tendo sido aceite no Salão (que era onde expunham à época os artistas recomendáveis), Courbet construiu um pavilhão onde cobrou entrada a quem quis ver as suas obras. Foi a primeira exposição individual da história da arte.
Passados 159 anos disto e cem dos manifestos vanguardistas do início do século vinte, eu continuo sem saber (ninguém sabe) o que é a arte, mas creio que deve ser algo que tem que ver com liberdade. E receio que também com solidão.
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Ao alto, “a origem do mundo”, de Gustave Courbet.
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Ir para fora cá dentro



Agora é possivel. Yes we can. Em megaaltaresolução.
Graças ao Google earth, agora é possível ir ao Prado sem sair de casa.
Através de uma parceria do Google com o Museu do Prado, “El proyecto convierte al Prado en el primer gran museo internacional que facilita el acceso a sus tesoros en megaaltarresolución a través de Internet”.
14 das principais obras presentes no popular museu de Madrid podem ser vistas com uma resolução 1400 vezes superior às convencionais fotografias de 10 megapíxels.
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Convém ter a última versão do Google Earth (disponível aqui) e, no menu “layers”, activar a opção “três dimensões”.

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