“Nada pode ser criado sem a solidão.
Criei em meu redor uma solidão que ninguém calcula.
É muito difícil hoje em dia estar-se sozinho, pois existem relógios.
Já alguma vez viu um santo com relógio?
Não consegui encontrar nenhum, mesmo entre os santos
que são considerados os santos padroeiros dos relojoeiros.”
Pablo Picasso
.
Tomei recentemente conhecimento através do
varal de idéias, de Eduardo Lunardeli (link aqui ao lado) de um curioso manifesto artístico que desconhecia por completo.
O
Hartismo (suponho que
fartismo, em português), é um movimento que começou na Galiza e agora, graças à internet, já ganhou outras paragens. Depois dos manifestos das vanguardas do início do século vinte, este é um manifesto de artistas que estão fartos (hartos) da arte oficial, da tutela dos galeristas, críticos, comissários e curadores que sazonalmente prescrevem o que vai ser a arte
aceitável. Estão fartos da tirania do
conceito sobre o
saber oficinal.
Li o
manifesto com atenção e estou de acordo com quase tudo. Mas, embora também esteja farto de Duchamp e da imensa
blague em que se tornou a arte actual (veja-se os mais recentes premiados com o
Turner e a última cegada de
David Cerny), receio não poder ser um
fartista.
Porque este movimento me parece muito mais
corporativo do que
artístico. O seu manifesto parece-me uma proposta de movimento pró-guilda. Acho muito redutor conceber a arte de hoje como um exclusivo das técnicas tradicionais (pintura, desenho, gravura, etc); acho redutor e uma nova espécie de academicismo, conceber o artista de hoje unicamente como alguém cujo trabalho se enquadra dentro destes moldes tradicionais de criação. Por estes critérios, artistas refractários às técnicas convencionadas, como Van Gogh ou Cézanne ou Picasso ou Giacometti, dificilmente seriam considerados dignos desse estatuto.
Creio que deve ser sempre o público a conceder a um artista o estatuto. Isso requer liberdade. Convenhamos no entanto que o público de um artista não é sempre, necessariamente, o do seu tempo
físico.
Veja-se o caso de
Gustave Courbet. No seu tempo, a pintura aceite eram alegorias vaporosas de anjinhos e baboseiras. Ele era um artista tão auto confiante nas suas capacidades técnicas que dizia que apenas pintava o que via. “
Mostrem-me um anjo, que eu pinto-o”.
Em 1846, não tendo sido aceite no
Salão (que era onde expunham à época os artistas
recomendáveis), Courbet construiu um pavilhão onde cobrou entrada a quem quis ver as suas obras. Foi a primeira exposição individual da história da arte.
Passados 159 anos disto e cem dos manifestos vanguardistas do início do século vinte, eu continuo sem saber (ninguém sabe) o que é a arte, mas creio que deve ser algo que tem que ver com liberdade. E receio que também com solidão.
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Ao alto, “a origem do mundo”, de Gustave Courbet.
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