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sábado, 7 de fevereiro de 2009

convite



Hoje os meus amigos Fernanda Soares, Manuela Matos e Filinto Viana inauguram uma exposição de pintura.
Na Galeria da Associação de Artistas p'la arte Magenta, por baixo da esplanada Silva Guimarães, na Figueira da Foz. Às 16 horas.
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Na imagem ao alto, desenho a pincel (tinta da China sobre cartão) de Filinto Viana. Da minha Pinacoteca.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O gato e as máscaras sarcásticas


“Tenho horror às pessoas que falam do “belo”. O que é o belo?
Na pintura deve falar-se de problemas. Quadros não são mais que pesquisa e experimentação. Nunca pinto um quadro como obra de arte. Todos são pesquisas. Pesquiso incessantemente e em toda esta procura contínua está um desenvolvimento lógico. Por isso numero e dato os quadros. Talvez alguém um dia se sinta grato por isso. Pintar é uma questão de inteligência.”
Pablo Picasso

Este quadro é um “desenvolvimento lógico” de uma série de pinturas em que trabalhei entre 2004 e 2006 (esta é uma delas, sigam os links).
Esteve virado contra a parede do meu atelier, desde então por concluir. As soluções que eu ia achando pareciam-me sempre insatisfatórias para os problemas que a sua concepção havia suscitado. - Até que, na semana passada, “o resolvi” (como diz o meu amigo Filinto Viana).
A composição representa um gato sobre uma manta, entre dois grupos de máscaras.
O motivo geométrico da manta escocesa é representado linearmente (a duas dimensões) e é, voluntária e maliciosamente, uma reminiscência do padrão das composições de Mondrian, mas em negativo; Isto é, a manta não é aqui seguramente um refúgio de conforto e de harmonia para o desconcerto do mundo.
O padrão assim “invertido”, desenhado numa ligeira diagonal, instila na composição um desequilíbrio, uma falha que potencia uma pulsão inquietante e contamina todo o conjunto: - os dois grupos de máscaras, (vagamente ameaçadores ou trocistas, numa amálgama indistinta de brancos, cinzas e azuis quase neutros); o fundo (premonitório, na sua gradação de azuis violáceos) e a mancha vermelha (violenta e afirmativa, que desenha o gato como um grito).
O contraste entre a pintura plana (da reprodução da manta) e resto da composição, ilustra o meu conceito da pintura como um lugar onde a imaginação sublima os fantasmas da realidade.
Penso que esta pequena tela testemunha também - com alguma (auto) ironia, três ou quatro tons surdos e um acorde estridente - duas das minhas afinidades com o artista belga James Ensor: o mesmo fascínio pelas máscaras e um (no meu caso, crescente) horror às multidões.
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Ao alto, O gato e as máscaras sarcásticas, acrílico s/ tela, 60x60 - 2004-2009
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Eça e a “cunha”


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Eça de Queiroz bateu-se como poucos contra esse endémico mal tão naturalmente aceite entre nós: a corrupção. As suas páginas estão cheias de finas ironias e pesados sarcasmos acerca desse estranho consenso nacional, a cunha. Ele próprio foi vítima da cunha. Os últimos acontecimentos políticos em Portugal vieram chamar de novo a atenção para esse quotidiano venal normalizado.
Os ingleses têm dos povos do sul da Europa a ideia, já antiga, de uma gente atavicamente predisposta à venalidade. Os recentes acontecimentos em Portugal parecem ilustrar com cores luxuosas esse velho preconceito britânico: nem de propósito, parece que a coisa além de cunhas também meteu libras esterlinas.
Não sei o que se passa convosco, leitores deste blogue, mas eu sinto-me mais do que envergonhado, vexado.
E não há Eça que nos redima. Até porque o pobre José Maria foi um “vencido da vida”.
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O sonho americano


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É verdade. A América continua ser a terra dos sonhos. Lá na América actores sem talento, idiotas chapados e até mesmo pretos podem ser presidentes (privilégio que por cá está consagrado apenas aos idiotas). Mas também se pode ter sérios problemas com o desenho e com o álcool e mesmo assim atingir o firmamento das artes (pensando bem, por cá também).
Hoje, o Google relembra o aniversário de Jackson Pollock e a perenidade do sonho americano (no seu sentido lato, globalizado).
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Este conceito, “american dream”, é o principal contributo da América para a filosofia ocidental. Trata-se de um conceito segundo o qual qualquer idiota pode ser qualquer coisa. Basta querer muito. Estar no lugar certo à hora certa. Fazer figas e pôr-se a jeito.
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O que é a arte?




“Nada pode ser criado sem a solidão.
Criei em meu redor uma solidão que ninguém calcula.
É muito difícil hoje em dia estar-se sozinho, pois existem relógios.
Já alguma vez viu um santo com relógio?
Não consegui encontrar nenhum, mesmo entre os santos
que são considerados os santos padroeiros dos relojoeiros.”
Pablo Picasso

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Tomei recentemente conhecimento através do varal de idéias, de Eduardo Lunardeli (link aqui ao lado) de um curioso manifesto artístico que desconhecia por completo.
O Hartismo (suponho que fartismo, em português), é um movimento que começou na Galiza e agora, graças à internet, já ganhou outras paragens. Depois dos manifestos das vanguardas do início do século vinte, este é um manifesto de artistas que estão fartos (hartos) da arte oficial, da tutela dos galeristas, críticos, comissários e curadores que sazonalmente prescrevem o que vai ser a arte aceitável. Estão fartos da tirania do conceito sobre o saber oficinal.
Li o manifesto com atenção e estou de acordo com quase tudo. Mas, embora também esteja farto de Duchamp e da imensa blague em que se tornou a arte actual (veja-se os mais recentes premiados com o Turner e a última cegada de David Cerny), receio não poder ser um fartista.
Porque este movimento me parece muito mais corporativo do que artístico. O seu manifesto parece-me uma proposta de movimento pró-guilda. Acho muito redutor conceber a arte de hoje como um exclusivo das técnicas tradicionais (pintura, desenho, gravura, etc); acho redutor e uma nova espécie de academicismo, conceber o artista de hoje unicamente como alguém cujo trabalho se enquadra dentro destes moldes tradicionais de criação. Por estes critérios, artistas refractários às técnicas convencionadas, como Van Gogh ou Cézanne ou Picasso ou Giacometti, dificilmente seriam considerados dignos desse estatuto.
Creio que deve ser sempre o público a conceder a um artista o estatuto. Isso requer liberdade. Convenhamos no entanto que o público de um artista não é sempre, necessariamente, o do seu tempo físico.
Veja-se o caso de Gustave Courbet. No seu tempo, a pintura aceite eram alegorias vaporosas de anjinhos e baboseiras. Ele era um artista tão auto confiante nas suas capacidades técnicas que dizia que apenas pintava o que via. “Mostrem-me um anjo, que eu pinto-o”.
Em 1846, não tendo sido aceite no Salão (que era onde expunham à época os artistas recomendáveis), Courbet construiu um pavilhão onde cobrou entrada a quem quis ver as suas obras. Foi a primeira exposição individual da história da arte.
Passados 159 anos disto e cem dos manifestos vanguardistas do início do século vinte, eu continuo sem saber (ninguém sabe) o que é a arte, mas creio que deve ser algo que tem que ver com liberdade. E receio que também com solidão.
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Ao alto, “a origem do mundo”, de Gustave Courbet.
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Ir para fora cá dentro



Agora é possivel. Yes we can. Em megaaltaresolução.
Graças ao Google earth, agora é possível ir ao Prado sem sair de casa.
Através de uma parceria do Google com o Museu do Prado, “El proyecto convierte al Prado en el primer gran museo internacional que facilita el acceso a sus tesoros en megaaltarresolución a través de Internet”.
14 das principais obras presentes no popular museu de Madrid podem ser vistas com uma resolução 1400 vezes superior às convencionais fotografias de 10 megapíxels.
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Convém ter a última versão do Google Earth (disponível aqui) e, no menu “layers”, activar a opção “três dimensões”.

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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Sem palavras




…ou com as suficientes.
Daqui e daqui.
Com a devida vénia ao jornalista e cartunista brasileiro Gilberto Maringoni.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

dada vive


Os tempos estão maus, propícios à depressão.
A classe média morreu e eu não me tenho sentido muito bem. Não pinto uma tela vai para dois anos. Tenho-me dedicado à derisão (a caricatura e o humor gráfico) e à junk-art. Desopila mas não compensa.
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Mas há países irredutíveis onde um artista pode divertir-se e ainda assim ser razoavelmente bem pago. David Cerny mostra que ainda é possível épater les bourgeois e ser remunerado por isso.
Na Républica Checa, dada está vivo e recomenda-se.
Vejam aqui a prenda que a presidência Checa da EU ofereceu aos europeus.
Há artistas (e países) felizes.
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Ao alto um trabalho (Kit 3) de David Cerny
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sábado, 10 de janeiro de 2009

comunicado

Pronto! Tinha que acontecer.
Durante anos, as paredes e o interior das portas dos sanitários públicos deste país foram o suporte por excelência para a coragem cívica da maioria silenciosa.
Era aí, na pestilência enclausurada de um anonimato silencioso, que esta maioria "valerosa", ousava os mais críticos sarcasmos, as mais corajosas denúncias e as obscenidades mais explícitas.
De há uns anos para cá, a maioria silenciosa começou a utilizar a internet e o suporte para as suas corajosas mensagens ao país passou a ser a caixa de comentários dos blogues (o que talvez explique o asseio que agora ostentam os mictórios públicos).
Contudo, este blogue, que fará em breve dois anos, sabe deus como, sempre conseguiu passar incólume à sanha chocarreira do comentário anónimo. Talvez pela sua audiência residual.
Até ontem.
Claro que os apaguei. Embora seja um apreciador do vernáculo e da ousadia, desprezo a covardia. Terei todo o gosto em publicar insultos desde que devidamente assinados e assumidos (eu acho que o insulto é uma forma legítima de expressão).
Este blogue é um “diário de um artista atento ao rumor do mundo”.
Não é a casa da Joana. Nem um fórum de despeitados.
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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

José Mário Branco

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Portugal é um país triste, povoado de contentinhos conformados.
Neste país, os melhores são (e serão sempre) “vencidos da vida”. A maioria silenciosa não lhes perdoa. E não esquece. O prémio que lhes reserva pelo talento e pela ousadia da inquietação é quase sempre o escárnio, ou pior ainda, a indiferença.
Neste país onde tonis (com epsilone) fazem carreira e fortuna, enchem pavilhões atlânticos e ganham platinas e ouropeis, José Mário Branco não consegue arranjar financiamento para levar um espectáculo a Lisboa.
Mas o Casino da Figueira vai comemorar a Revolução dos Cravos!
E com um ciclo denominado “venham + 5”, que começa com José Mário Branco(!!).
O trovador do descontentamento e da inquietação estará hoje no Casino da Figueira.
Hoje, dia 9 de Janeiro pelas 23 horas no salão Café. Entre a palestra dos senhores da má-língua e a conferência do Cardeal de Lisboa. Mais ou menos como Marco Paulo no circo, entre a mulher barbuda e o anão careca.
Para os velhacos deste país rancoroso e obtuso a suprema vitória é a vingançazinha medíocre e fria do costume: neste país, a revolta dos “vencidos da vida” nunca passará de um número de casino. De província.
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Vital Moreira

Sempre gostei de desenhos rápidos. Como os esboços dos arquitectos ou os bosquejos dos paisagistas, deixam sempre uma impressão de sinceridade que é diluída nos desenhos mais elaborados ou reflectidos.
Este é um apontamento rápido para um retrato caricatural de Vital Moreira. Trata-se de uma espécie de “parecer” impressionista sobre o eminente jurisconsulto coimbrão; alguém que desde há trinta anos tem defendido tudo e o seu contrário com o mesmo "saber", “rigor científico” e “brilho académico” que fazem dele, hoje, a eminência parda mais ou menos notória do Socratismo. Se alguém duvida, ele próprio o sublinha, como aqui e aqui (nem sempre muito elegantemente), o que faz dele uma espécie de génio caolho do regime.
O Príncipe dos engenheiros achou por fim um Maquiavel à sua altura.
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