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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

José Mário Branco

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Portugal é um país triste, povoado de contentinhos conformados.
Neste país, os melhores são (e serão sempre) “vencidos da vida”. A maioria silenciosa não lhes perdoa. E não esquece. O prémio que lhes reserva pelo talento e pela ousadia da inquietação é quase sempre o escárnio, ou pior ainda, a indiferença.
Neste país onde tonis (com epsilone) fazem carreira e fortuna, enchem pavilhões atlânticos e ganham platinas e ouropeis, José Mário Branco não consegue arranjar financiamento para levar um espectáculo a Lisboa.
Mas o Casino da Figueira vai comemorar a Revolução dos Cravos!
E com um ciclo denominado “venham + 5”, que começa com José Mário Branco(!!).
O trovador do descontentamento e da inquietação estará hoje no Casino da Figueira.
Hoje, dia 9 de Janeiro pelas 23 horas no salão Café. Entre a palestra dos senhores da má-língua e a conferência do Cardeal de Lisboa. Mais ou menos como Marco Paulo no circo, entre a mulher barbuda e o anão careca.
Para os velhacos deste país rancoroso e obtuso a suprema vitória é a vingançazinha medíocre e fria do costume: neste país, a revolta dos “vencidos da vida” nunca passará de um número de casino. De província.
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Vital Moreira

Sempre gostei de desenhos rápidos. Como os esboços dos arquitectos ou os bosquejos dos paisagistas, deixam sempre uma impressão de sinceridade que é diluída nos desenhos mais elaborados ou reflectidos.
Este é um apontamento rápido para um retrato caricatural de Vital Moreira. Trata-se de uma espécie de “parecer” impressionista sobre o eminente jurisconsulto coimbrão; alguém que desde há trinta anos tem defendido tudo e o seu contrário com o mesmo "saber", “rigor científico” e “brilho académico” que fazem dele, hoje, a eminência parda mais ou menos notória do Socratismo. Se alguém duvida, ele próprio o sublinha, como aqui e aqui (nem sempre muito elegantemente), o que faz dele uma espécie de génio caolho do regime.
O Príncipe dos engenheiros achou por fim um Maquiavel à sua altura.
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quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

A silly season


No dia de Natal, no Congo, cem pessoas foram massacradas dentro de uma igreja.
Na faixa de Gaza também continua o natal dos hospitais.
Um pouco por todo o lado também continuam as fraudes em pirâmide, os leilões de arte e até, claro, os jantares de caridade.
Não sei explicar porquê, nesta época do ano acontece também, quase fatalmente, o desaparecimento de um qualquer vulto do Jazz. No ano passado foi Oscar Peterson. Este ano, Freddie Hubbard.
Eu também não me sinto lá muito bem.
Por todo o mundo, as pessoas preparam, efusivas, o “reveillon”. Eu não consigo compreender esta estranha e globalizada “alegria”.
Bom Ano Novo.
Todos sabemos que para o ano há mais.
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Ao alto, pormenor do desenho nº VIII de O Festim do Fauno.
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segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

porquê?


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Faço minhas estas pertinentes interrogações de Daniel Oliveira, do blogue Arrastão:

“Em que momento da história um povo confinado a uma pequena parcela do território que legalmente lhe estava destinado foi considerado um agressor?
Em que momento da história um povo que, mesmo quase sem terra, teve de ver o que lhe restava ocupado por colonos foi considerado um agressor?
Em que momento da história um povo cercado por um muro de betão foi considerado um agressor?
Em que momento da história um povo controlado, nos mais pequenos pormenores do seu quotidiano, por um dos mais poderosos exércitos do Mundo foi considerado um agressor?
Em que momento da história um povo que não tem direito a ter forças armadas, que não pode recolher os seus próprios impostos, que está proibido de ter porto e aeroporto, que está isolado de todo o Mundo e que depende a da boa-vontade do vizinho foi considerado um agressor?
Em que momento da história um povo que depende da ajuda internacional e que tem pedir autorização ao vizinho para exportar e importar seja o que for, para receber medicamentos e para levar os seus velhos ao hospital e as suas crianças à escola foi considerado um agressor?
Em que momento da história um povo que morre às centenas como resposta a cada morte do outro lado (ou quando há campanha eleitoral) foi considerado um agressor?
Em que momento da história um povo que perdeu as casas para elas serem entregues a recém-chegados, graças a um qualquer direito divino, que perdeu as suas terras, que foi roubado em tudo o que tinha, dos recursos naturais à sua própria identidade, e que depende da esmola para sobrevier foi considerado um agressor?

Até onde terá de ir a humilhação dos palestinianos para que o Mundo olhe para ele vendo o que ele é: um prisioneiro na sua própria terra?
O que faz com que o Estado de Israel possa fazer tudo o que não é permitido a mais estado nenhum no Mundo?
O que faz com que o povo da Palestina não possa resistir, como faria qualquer povo no Mundo?”
A ilustração é do cartunista brasileiro Carlos Latuff.
E não, não sou anti-semita.
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sábado, 27 de dezembro de 2008

Rafael Bordalo Pinheiro

Os portugueses não apreciam o talento, o esforço e a imaginação.
Preparam-se para assistir, de braços cruzados (uma das poses em que Rafael Bordalo Pinheiro os imortalizou, como Zé povinho) ao encerramento da Fábrica de Faianças Bordallo Pinheiro, cem anos após a morte do seu fundador.
Rafael Bordalo Pinheiro é um dos maiores artistas portugueses de todos os tempos. Levou a Arte e o humor para os jornais e criou, no 5º número da revista A Lanterna Mágica, de 12 de Junho de 1875, o Zé Povinho, mas também, em 1884, a Fábrica de Faianças artísticas Bordallo Pinheiro.

Por qualquer um destes feitos mereceria um lugar de destaque na história da arte portuguesa.
Mas o Zé Povinho está bem e recomenda-se. É cada vez mais igual a si próprio, esperto e matreiro, sem moral nenhuma; se pudesse trepava para as costas dos que o cavalam a ele. Não gosta de trabalhar (tem cólicas às segundas feiras) e prefere resignar-se do que combater. O manguito é o seu gesto filosófico perante os desacertos do mundo.

O país também. Tem ministros que “se empenham pessoalmente” em salvar bancos privados; indemniza copiosamente reconhecidos pedófilos; enche as cadeias de pilha-galinhas e até tem escroques encartados como conselheiros de Estado; os seus governantes, à míngua de “sentido de estado”, têm, em abundância, um inigualável “sentido de mercado”: vejam isto!

Já a imprensa está muito diferente do seu tempo. Os jornais pertencem todos (ou estão “associados”, mesmo os regionais) a 2, 3 ou 4 magnates; a língua portuguesa é neles avacalhada diariamente até á humilhação; o desenho gráfico, a sátira e a mais leve mordacidade consequente foram praticamente banidos das suas páginas.
Muita gente decente se entristece e indigna com isto.
A FECO (Associação de cartoonistas Portugueses) propõe-se mesmo fazer algo.
O que se justifica, pela memória viva do Mestre de todos nós.
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Nunca foi fácil a vida desta Fábrica. Vejam aqui a história da Fábrica da Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro.
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Natal


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Este dia é, desde há doze anos, o meu Natal.
A menina dos meus olhos faz hoje doze anos.
Ela gosta de música e de gatos e de Boticelli e de estrelas e de Saint-Saëns e de pedras e de desenhos e de flores e de firmamentos longínquos.
Também não sei o que o futuro lhe reserva.
Mas não quero assombrar este dia com os meus receios.
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Ao alto, um estudo para a Alegoria da Abundância, de Sandro Boticelli.
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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Desenho nº 34, Abril 1982


Este desenho, feito nas costas de um outro, do qual transparecem superfícies pintadas, é de 7 de Abril de 1982. Trata-se de um apontamento de um devaneio sensual. Talvez em busca de petites sensations simultâneas.
Eu tinha vinte anos, era ingénuo mas, por vezes, feliz. Sempre apreciei um lápis macio e uma linha curva; suavemente acidentada.

sábado, 13 de dezembro de 2008

O poeta alegre


Mania das Grandezas

Pois bem, confesso:
fui eu quem destruiu as Babilónias
e descobriu a pólvora...
Acredite, a estrela Sírius,
de primeira grandeza,
(única no mercado)
deixou-me meu tio-avô em testamento.
No meu bolso esconde-se
o segredo das alquimias
e a metafísica das religiões
— Tudo por inspiração!
Que querem?
Sou poeta e tenho a mania das grandezas...
Talvez ainda venha a ser Presidente da República...

Joaquim Namorado

Conheci fugazmente (por volta de 1985) o poeta Joaquim Namorado, que viria a falecer um ano mais tarde. A impressão que dele me ficou foi a de um homem duro, com um temperamento e um carácter algo rígidos, explicados por uma forte convicção comunista e talvez também por uma sólida formação em ciências matemáticas. As suas impressões eram exactas, precisas – matemáticas. Achava que 2+2 são 4, aqui e nos mares do sul; sobre estes chegou mesmo a escrever uma fulgurante e certeira elegia de um só verso: “Eu não fui lá...”.
O poeta não apreciava a estética de plástico e ainda menos a ética de elástico. Abominava o lirismo canalha e o pragmatismo sacana. Desprezava os frouxos, os velhacos e os videirinhos (tudo qualidades que, infelizmente, é frequente encontrar na mesma pessoa).
Há dias, em conversa com alguém que com ele privou, fiquei a saber que o poeta do “Aviso à navegação” não suportava Manuel Alegre (não, não era de uma questão de estética da poética, mas simplesmente de ética, a higiene moral da puta da vidinha).
Acontece que eu também não.
Mas eu cheguei lá por intuição. Não fui agraciado por qualquer espécie de fé ou convicção (não acredito na ponta de um corno) e os meus conhecimentos de matemática são assaz penibles… Embora este episódio - que faria espumar o velho resistente - possa explicar a minha embirração.
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

improviso nº20 – Presépio


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“O Natal é bestial para se perceber a casa pia que Portugal é:
um menino nu entre um burro e uma vaca à espera que o crucifiquem não tarda nada.” Daniel Abrunheiro, aqui.
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domingo, 7 de dezembro de 2008

Mafalda (inédita)


Eis uma boa notícia para quem aprecia a derisão pela diversão: o grande desmistificador de psicofodas, o argentino Joaquín Lavado (Quino) anda pelo México a promover o lançamento de um livro com tiras inéditas da Mafalda. Quino explicou que não voltou a desenhar mais de uma tira com um personagem específico: “El riesgo en esos casos está en repetirse, lo percibió con “Charlie Brown y Snoopy”, de Charles Schulz, e incluso con los motivos de las pinturas de Fernando Botero, “me tiene harto de sus gorditos”. E que por isso prefere Picasso.
Segundo o Humorgrafe, o livro já está editado em Portugal.
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Este retrato do grande criador e da sua criatura é do colombiano Túrcios, um grande mestre da caricatura, com um link aqui ao lado.
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