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segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

porquê?


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Faço minhas estas pertinentes interrogações de Daniel Oliveira, do blogue Arrastão:

“Em que momento da história um povo confinado a uma pequena parcela do território que legalmente lhe estava destinado foi considerado um agressor?
Em que momento da história um povo que, mesmo quase sem terra, teve de ver o que lhe restava ocupado por colonos foi considerado um agressor?
Em que momento da história um povo cercado por um muro de betão foi considerado um agressor?
Em que momento da história um povo controlado, nos mais pequenos pormenores do seu quotidiano, por um dos mais poderosos exércitos do Mundo foi considerado um agressor?
Em que momento da história um povo que não tem direito a ter forças armadas, que não pode recolher os seus próprios impostos, que está proibido de ter porto e aeroporto, que está isolado de todo o Mundo e que depende a da boa-vontade do vizinho foi considerado um agressor?
Em que momento da história um povo que depende da ajuda internacional e que tem pedir autorização ao vizinho para exportar e importar seja o que for, para receber medicamentos e para levar os seus velhos ao hospital e as suas crianças à escola foi considerado um agressor?
Em que momento da história um povo que morre às centenas como resposta a cada morte do outro lado (ou quando há campanha eleitoral) foi considerado um agressor?
Em que momento da história um povo que perdeu as casas para elas serem entregues a recém-chegados, graças a um qualquer direito divino, que perdeu as suas terras, que foi roubado em tudo o que tinha, dos recursos naturais à sua própria identidade, e que depende da esmola para sobrevier foi considerado um agressor?

Até onde terá de ir a humilhação dos palestinianos para que o Mundo olhe para ele vendo o que ele é: um prisioneiro na sua própria terra?
O que faz com que o Estado de Israel possa fazer tudo o que não é permitido a mais estado nenhum no Mundo?
O que faz com que o povo da Palestina não possa resistir, como faria qualquer povo no Mundo?”
A ilustração é do cartunista brasileiro Carlos Latuff.
E não, não sou anti-semita.
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sábado, 27 de dezembro de 2008

Rafael Bordalo Pinheiro

Os portugueses não apreciam o talento, o esforço e a imaginação.
Preparam-se para assistir, de braços cruzados (uma das poses em que Rafael Bordalo Pinheiro os imortalizou, como Zé povinho) ao encerramento da Fábrica de Faianças Bordallo Pinheiro, cem anos após a morte do seu fundador.
Rafael Bordalo Pinheiro é um dos maiores artistas portugueses de todos os tempos. Levou a Arte e o humor para os jornais e criou, no 5º número da revista A Lanterna Mágica, de 12 de Junho de 1875, o Zé Povinho, mas também, em 1884, a Fábrica de Faianças artísticas Bordallo Pinheiro.

Por qualquer um destes feitos mereceria um lugar de destaque na história da arte portuguesa.
Mas o Zé Povinho está bem e recomenda-se. É cada vez mais igual a si próprio, esperto e matreiro, sem moral nenhuma; se pudesse trepava para as costas dos que o cavalam a ele. Não gosta de trabalhar (tem cólicas às segundas feiras) e prefere resignar-se do que combater. O manguito é o seu gesto filosófico perante os desacertos do mundo.

O país também. Tem ministros que “se empenham pessoalmente” em salvar bancos privados; indemniza copiosamente reconhecidos pedófilos; enche as cadeias de pilha-galinhas e até tem escroques encartados como conselheiros de Estado; os seus governantes, à míngua de “sentido de estado”, têm, em abundância, um inigualável “sentido de mercado”: vejam isto!

Já a imprensa está muito diferente do seu tempo. Os jornais pertencem todos (ou estão “associados”, mesmo os regionais) a 2, 3 ou 4 magnates; a língua portuguesa é neles avacalhada diariamente até á humilhação; o desenho gráfico, a sátira e a mais leve mordacidade consequente foram praticamente banidos das suas páginas.
Muita gente decente se entristece e indigna com isto.
A FECO (Associação de cartoonistas Portugueses) propõe-se mesmo fazer algo.
O que se justifica, pela memória viva do Mestre de todos nós.
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Nunca foi fácil a vida desta Fábrica. Vejam aqui a história da Fábrica da Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro.
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Natal


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Este dia é, desde há doze anos, o meu Natal.
A menina dos meus olhos faz hoje doze anos.
Ela gosta de música e de gatos e de Boticelli e de estrelas e de Saint-Saëns e de pedras e de desenhos e de flores e de firmamentos longínquos.
Também não sei o que o futuro lhe reserva.
Mas não quero assombrar este dia com os meus receios.
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Ao alto, um estudo para a Alegoria da Abundância, de Sandro Boticelli.
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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Desenho nº 34, Abril 1982


Este desenho, feito nas costas de um outro, do qual transparecem superfícies pintadas, é de 7 de Abril de 1982. Trata-se de um apontamento de um devaneio sensual. Talvez em busca de petites sensations simultâneas.
Eu tinha vinte anos, era ingénuo mas, por vezes, feliz. Sempre apreciei um lápis macio e uma linha curva; suavemente acidentada.

sábado, 13 de dezembro de 2008

O poeta alegre


Mania das Grandezas

Pois bem, confesso:
fui eu quem destruiu as Babilónias
e descobriu a pólvora...
Acredite, a estrela Sírius,
de primeira grandeza,
(única no mercado)
deixou-me meu tio-avô em testamento.
No meu bolso esconde-se
o segredo das alquimias
e a metafísica das religiões
— Tudo por inspiração!
Que querem?
Sou poeta e tenho a mania das grandezas...
Talvez ainda venha a ser Presidente da República...

Joaquim Namorado

Conheci fugazmente (por volta de 1985) o poeta Joaquim Namorado, que viria a falecer um ano mais tarde. A impressão que dele me ficou foi a de um homem duro, com um temperamento e um carácter algo rígidos, explicados por uma forte convicção comunista e talvez também por uma sólida formação em ciências matemáticas. As suas impressões eram exactas, precisas – matemáticas. Achava que 2+2 são 4, aqui e nos mares do sul; sobre estes chegou mesmo a escrever uma fulgurante e certeira elegia de um só verso: “Eu não fui lá...”.
O poeta não apreciava a estética de plástico e ainda menos a ética de elástico. Abominava o lirismo canalha e o pragmatismo sacana. Desprezava os frouxos, os velhacos e os videirinhos (tudo qualidades que, infelizmente, é frequente encontrar na mesma pessoa).
Há dias, em conversa com alguém que com ele privou, fiquei a saber que o poeta do “Aviso à navegação” não suportava Manuel Alegre (não, não era de uma questão de estética da poética, mas simplesmente de ética, a higiene moral da puta da vidinha).
Acontece que eu também não.
Mas eu cheguei lá por intuição. Não fui agraciado por qualquer espécie de fé ou convicção (não acredito na ponta de um corno) e os meus conhecimentos de matemática são assaz penibles… Embora este episódio - que faria espumar o velho resistente - possa explicar a minha embirração.
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

improviso nº20 – Presépio


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“O Natal é bestial para se perceber a casa pia que Portugal é:
um menino nu entre um burro e uma vaca à espera que o crucifiquem não tarda nada.” Daniel Abrunheiro, aqui.
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domingo, 7 de dezembro de 2008

Mafalda (inédita)


Eis uma boa notícia para quem aprecia a derisão pela diversão: o grande desmistificador de psicofodas, o argentino Joaquín Lavado (Quino) anda pelo México a promover o lançamento de um livro com tiras inéditas da Mafalda. Quino explicou que não voltou a desenhar mais de uma tira com um personagem específico: “El riesgo en esos casos está en repetirse, lo percibió con “Charlie Brown y Snoopy”, de Charles Schulz, e incluso con los motivos de las pinturas de Fernando Botero, “me tiene harto de sus gorditos”. E que por isso prefere Picasso.
Segundo o Humorgrafe, o livro já está editado em Portugal.
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Este retrato do grande criador e da sua criatura é do colombiano Túrcios, um grande mestre da caricatura, com um link aqui ao lado.
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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Gárgula


Gárgula, 2006
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Os dias são curtos, húmidos e soturnos. O frio entra pelas frinchas, até aos ossos.
Os reflexos sombrios desta luz grisalha e gelada são propícios à introspecção e à melancolia; mas também, aqui e um pouco por toda a parte, ao crime e a toda a espécie de atentados.
Foi num dia destes, a olhar para dentro, que eu fiz esta espécie de gárgula. Com areia, cimento e algumas pedras.
Agora está lá fora, no meu jardim. A ver passar dias assim.
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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Ao vereador do Partido Socialista que se dignou visitar este pobre sítio e esclarecer-me alguns pontos sobre a questão do Plano de Urbanização da Figueira da Foz, também eu devo algumas explicações.

Caro João Miguel Vaz

Como deve depreender, sou um espírito simples para quem o que parece é.
E o que me parece, e não só a mim, é que o que está em causa é a aprovação de um “atentado à ordenação do território”.
No meu entendimento, certamente algo beócio, não consigo compreender como alguém pode ter a pretensão de, negociando com terroristas a redução das cargas explosivas, consegue atenuar os estragos e, com isso, a absolvição do carácter monstruoso e terrorista do atentado.
É um pouco, e salvaguarde-se o possível exagero, como se alguém pensasse que, se os nazis tivessem prodigalizado um tratamento de hotel de cinco estrelas aos detidos em Auchwitz-Birkenau (em lugar de os amolecerem previamente com fome e com porrada), a enormidade revoltante do extermínio da solução final até teria sido uma opção humanista!
Não sei se me entende. Eu não compreendo como se pode querer amenizar atentados, isto é, negociar com terroristas.
O Direito rege-se por Princípios. Ao contrário do Crime. Não imagino o que podem negociar. Concedo que a política se faz de compromissos. Mas também e sobretudo de rupturas. Como a vida.
Como deve imaginar, nunca votei no seu partido, que considero co-responsável (com o seu irmão gémeo, o PSD) por todas as assimetrias regionais e concomitantes crimes urbanísticos e ambientais nos últimos trinta anos. Mas se me “afirma e reafirma” a sua oposição a este Plano, não sou ninguém para duvidar da sua probidade e na dos seus colegas. Por isso, estarei atento ao sentido do V. voto e a que espécie de PU será aprovado. Ressalvo-lhe que considero que o recurso à já habitual abstenção, para quem tem tão firmes opiniões sobre o que está em causa - não passará de uma forma óbvia de cumplicidade.
Mas se, de facto, ousarem a ruptura, ficarão, com certeza, na história do vosso partido (fazendo uma linda excepção no seu bem negro palmarés) e, pelo ineditismo da coisa, na de Portugal.
E o senhor, para além da minha admiração pessoal, ganhará também o meu voto.
Permita-me no entanto duvidar que o seu partido lhe reserve algum lugar elegível.
Cumprimentos
Fernando Campos
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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

“O homem betoneira”

aqui lhe dediquei um postal.
É dele de quem verdadeiramente se fala quando se fala de Plano de Urbanização da Figueira da Foz. Eu deduzo mesmo que PU é o seu middle name.
E tem-se falado e discutido, imenso, o PU.
Sobretudo agora que a oposição socialista propôs umas sugestões de alteração “negociáveis” para a aprovação de, segundo alguns, “mais um atentado ao ordenamento do território”.
Pode ser que, se a Câmara do eng. Silva aceitar negociar as sugestões socialistas, o “atentado” se transforme em “fogo amigo”… Pode ser.
Acho que já vi esse filme.
Este* é que nunca tinha visto! É pura poesia. Quem terá escrito aquilo? É liiindo. E o que será “edificabilidade”? – É que eu sei o que é “edificante” mas suspeito que não tem nada a ver.
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*Via 5 dias, tal como o título deste postal.
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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Luandino Vieira


Tal como Luís Buñuel, eu acredito no acaso. E no mistério. E desconfio da ciência - “parece-me pretensiosa, analítica e superficial. Ela ignora o sonho, o acaso, o riso, o sentimento e a contradição, tudo coisas que me são vitais.”*
Quando comecei o esboço deste desenho, propunha-me fazer o retrato (ou caricatura) do Padre António Vieira. Não sei por que acaso, lapso freudiano ou acto falhado, surgiram-me, pouco a pouco, traços que sugerem um outro Vieira: Luandino.
Para alguns puristas e literatos da lusitânia, pode parecer inusitada, abusiva e descabelada esta minha involuntária associação. Serão decerto os mesmos que se arrepiam com a parcimónia de Saramago com as vírgulas; ou que acham que Camilo, Aquilino ou Guimarães Rosa são escritores menores, ou regionais. Estes senhoritos acreditam que a língua é algo que serve unicamente para lamber cus e a literatura uma disciplina que deve ilustrar esta prática (com o auxílio exclusivo do restrito vocabulário em uso nos meios lisboetas onde se pratica este jogo de salão).
Mas, como Buñuel, tenho uma secreta confiança na justeza das minhas percepções, mesmo as involuntárias.
Vejamos: o Padre Vieira também sonhava (ele acreditava nos seus sonhos, como eu e Buñuel). Foi um sonho de Vieira que revelou a Fernando Pessoa a dimensão da sua verdadeira pátria. O Padre Vieira teve a percepção, no século XVII, de que a língua portuguesa era muito mais, muito maior do que o, já então, insignificante Portugal. Foi o entendimento desta percepção (ou a interpretação deste sonho) que fez Pessoa, já no seculo XX, entronizar Vieira como imperador da Língua e declarar esta a sua pátria.
Luandino sabe (Vieira e Pessoa também sabiam) que uma língua serve para exprimir e interpretar o mundo, por isso deve ser aberta aos povos que a habitam. Luandino ama a língua Portuguesa e a sua língua é dúctil, rica, ágil, vária, mestiça e imprevista, como os sonhos. Luandino enriqueceu-a com a frescura de novos vocábulos, sentidos e conceitos. Ao contrário do Padre, cuja erudição lhe impunha esparsas e lapidares latinadas, em Luandino a erudição manifesta-se numa consaguínea mestiçagem de referências bíblicas e Shakespeareanas com vastas, literais e aliteradas quimbundagens.
É certo que para os puristas não passa de pretoguês. Embora todos saibamos que o português é uma língua mestiça (pelo menos desde o século XVI), estes sábios desejam a literatura expurgada de toda a cor - lívida, pura e alva – deslavada como uma estátua de cemitério.
Mas claro que o entendimento que estes senhoritos fazem do uso da língua resume-se ao mútuo, alternadeiro, redundante e sempiterno joguinho de salão, tão em voga ainda, nos salões literários da capital do antigo império.
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*In “o meu último suspiro” autobiografia, Luís Buñuel
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