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domingo, 23 de novembro de 2008

Policarpo e a radicalidade



No sec. XVII, o Padre António Vieira, neto de uma africana, descobriu (era muito viajado) que os pretos, os índios, e até os judeus, tinham alma. Ele desconfiava mesmo que as mulheres também, mas nunca ousou dizê-lo. Mesmo assim, viu-se aflito com a santíssima inquisição. Só escapou ao churrasco porque era muito dotado e – convenhamos, como sempre em Portugal – porque, apesar de tudo, tinha muitos conhecimentos

Quatro séculos depois, o comandante em chefe da Igreja portuguesa, o Cardeal Policarpo, acha que o Padre Vieira é “um exemplo a seguir, na radicalidade e na acutilância das suas propostas”.
Bravo!
Presumo que isto possa configurar uma espécie de perestroika, mas em púrpura.
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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Luís Buñuel


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Ontem vi a Deneuve. Nas notícias da TV. Estava a inaugurar uma exposição de fotografias de Luís Buñuel, no Casino do Estoril. Pobrezinha, já está longe da imagem de Tristana que fazia suspirar (ou salivar) e talvez sonhar Hitchcock. Foi então que me lembrei de Luís Buñuel. O tempo, esse não passa sobre os seus filmes, que continuam como sempre: inconformistas, imprevistos e corrosivos. Delirantes de humor, absurdo e inteligência “em torno de alguns motivos centrais - a crítica da religião e da hipocrisia burguesa, os paradoxos da sexualidade, a força do desejo, os automatismos mentais, que obedecem, ao mesmo tempo em que escapam, às determinações sociais e históricas.”
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"quando o filme está curto, acrescento-lhe um sonho"
Vejam este filme. Aqui e agora.
Produzido em 1929, 'Un Chien Andalou' é considerado o filme emblemático do movimento surrealista, tornando-se uma marca registada na história do cinema. Baseado numa mescla de sonhos de Dali e de Buñuel, este conto de desejos reprimidos, abre inocentemente com as palavras 'Era uma vez', segue com a cena mais célebre e chocante do cinema - uma navalha que corta o olho de uma mulher em close-up/detalhe. Um filme desesperado, uma atracção apaixonada e assassina. “ao escrever o roteiro, os (então) amigos Buñuel e Dalí descartavam tudo aquilo que pudesse fazer sentido imediato. Nessa recusa do significado linear e fixo, pululam imagens inéditas e inesquecíveis - o olho cortado pela navalha, as formigas que saem das mãos, o burro morto sobre um piano de cauda, os esqueletos vestidos com trajes papais. E, claro, como era da própria intenção dos criadores, desse aparente nonsense brotavam significados aos borbotões - dependentes da imaginação de quem assistia ao filme.”
Este filme é um triunfo da arte, é um histérico e delirante passeio de uma alegria obscura, cujo poder de enfrentar o espectador não ficou diminuído depois de mais de três quartos de século. A arte na sua essência primitiva.
Se não gostarem à primeira, revejam outra vez. Primeiro estranha-se, depois…
Para visionar o filme, apaguem as luzes e acendam os charutos… e desliguem por favor, A Java des bombes atomiques. Serão apenas quinze minutos.

Un chien andalou - Luis Buñuel y Salvador Dalí

“É um grande cinema, anarquista e libertário, que continua atual e pulsante, mesmo em tempo tão conformista como o nosso.”
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A caricatura, desenhei-a a partir desta foto, do também surrealista Man Ray, mais ou menos da época do seu primeiro filme - Le chien andalou.
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sábado, 15 de novembro de 2008

Gil Vicente e a cagamerdeira da língua


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ou a psicofoda da “cultura portuguesa”
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Porque a iconografia de mestre Gil é escassa, permiti-me algumas liberdades “gráficas”. Sem os constrangimentos da verosimilhança, este meu Gil Vicente, embora vagamente quinhentista, é estilizado e expressionista.
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Tem um remoto ar de quixote embora mais histriónico e linguarudo, como convém a uma figura de “teatro” - o que acaba por configurar um retrato mais inteiramente realista: o mestre ourives não tinha papas na língua. Passar-se-ia dos carretos se tivesse que morigerar a linguagem, utilizar o flip6 e toda a parafernália cagamerdeira do politica e linguisticamente correcto.
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quinta-feira, 13 de novembro de 2008

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Miriam Makeba

Deve ser isto, envelhecer: ir sobrevivendo às referências da nossa vida.
Mama Africa, após toda uma vida a cantar contra o racismo, a intolerância e o apartheid, morreu ontem em Itália, de ataque cardíaco, num concerto de solidariedade com um jornalista perseguido pela máfia, que é uma das muitas outras forma da estupidez.
O desenho é do artista Sul-Africano Nils Burwitz.


sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Ornette Coleman

Na época das lutas pelos direitos civis, os músicos de Jazz norte-americanos quiseram escamotear da sua música, aquilo que dela já era “aceitável” pelos brancos: a sua característica de entretenimento, a qualidade “dançável”. Quiseram dar à grande música negra uma vertente mais reflexiva ou intelectual. Ao fragmentarem a melodia e basearem as suas composições radicalmente na improvisação simultânea, estes músicos fizeram com o jazz o que os cubistas fizeram com a arte no início do século vinte: estilhaçaram as formas de ouvir, como estes tinham feito com as formas de ver.
Deram um passo em frente, abrindo novos caminhos, mas o seu trabalho tornou-se demasiado hermético para o seu próprio público, os negros (sabemos como os pobres gostam de dançar), tanto que actualmente entre os afro-americanos, a aceitação do jazz é confirmadamente residual.

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Helas, o jazz perdeu a América negra mas ganhou a branca sofisticada e até a Europa e o mundo, onde grande parte dos seus músicos ganhou fama e alguns, fortuna.
Esta música – o Free Jazz – que inspirou muitos caminhos das lutas de emancipação política e social do seu tempo e produziu enormes músicos como Coltrane, Ayler, Shepp, – está hoje algo datada.
A sua atitude radical, muitas vezes não era muito mais do que isso: uma atitude - que se estiolou em fundamentalismos programáticos e dogmas repetitivos vazios de sentido, como nas artes plásticas um certo cubismo que desembocou na aridez da ideia da abstracção pura. É claro que qualquer regra tem excepções que a confirmam, como Coltrane ou Ayler, improvisadores poderosos de imaginação.
Eu gostaria que também fosse esse o caso do seu pai fundador, Ornette Coleman. Este compositor de improvisações ininterruptas estará hoje à noite no Coliseu do Porto, com o seu quarteto. Eu gostaria, mas infelizmente não posso ir “ouvêr” para confirmar. Ou não.
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segunda-feira, 3 de novembro de 2008

o (outro) prodígio de Baltimore

Amanhã, na grande América digladiam-se dois projectos políticos supostamente antagónicos. Ambos os protagonistas se apresentam como modelos de virtudes cívicas e até domésticas. Um é um “herói de guerra” e o outro até “telefona todos os dias aos filhos”. Nunca nenhum deles jamais mijou num lavatório. Nem cuspiu na sopa. Nem pulou a cerca. E se por acaso alguma vez fumaram, de certeza que nunca inalaram. Pois.
No meio desta espécie de jogos florais de meninos de coro e deste festival feérico de hipocrisia, cinismo e idiotia crédula, ocorre-me um americano, de Baltimore, que morreu antes de concretizar o seu projecto de candidatura à presidência do seu país.
Frank Zappa nunca condescendeu com o politicamente correcto. Toda a sua carreira de músico foi um incessante e inteligente combate contra a palermice convencionada e conveniente. A sua arma era o talento. As munições: a música e o humor. O seu combate às ideias feitas começou na sua área, a música. A sua imaginação inconformista alargou-o à política e à vida - que foi interrompida por um vil atentado: um filho da puta de um cancro na próstata.
Se eu acreditasse em teorias da conspiração….



O tio Frank achava que todo o mundo devia poder votar na eleição americana porque a América se mete na vida de todo o mundo. Parece-me um tanto arriscado, mas bastante óbvio.
Eu votaria nele. De peito aberto e olhos fechados.
Parece-me sensato um tipo que diz que “without deviation from the norm, progress is not possible”.
É todo um programa.
Viva Zappa.

sábado, 1 de novembro de 2008

Dois fenómenos ( retrato e arte final)


Eis, agora que os seus dias estão contados, a terceira (e definitiva) versão do retrato que fiz de Condoleeza Rice. Creio mesmo que é o mais conseguido. Os outros dois estão aqui e aqui.

Esta sim, é (ou já foi) a primeira participação de um african- american (e ainda por cima female) nas altas esferas da administração norte-americana. Com os resultados que se conhecem.

Chamem-me cínico, mas sou incapaz de acreditar que estas coisas sejam uma questão de cor de pele - ao contrário do que faz crer um bizarro entusiasmo, estranhamente globalizado (ou nem tanto), com a chegada para breve do novo messias que ninguém sabe o que pensa, mas cujo critério de escolha de assessores (change, change, change) parece baseado na máxima de Lampedusa: “é preciso que algo mude para que tudo fique igual”.
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O "fenómeno" que está ao lado é, na opinião de alguns especialistas, o pior destes todos.
(O retrato pretende dar-lhe um destaque equivalente ao que o sujeitinho conseguiu no citado ranking).
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sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Et pur si muove






Ainda dizem que a santa madre igreja não muda.
Muda sim senhor.
Por exemplo, hoje em dia já não manda ninguém para o inferno.
Agora vão para o olho da rua. Vejam aqui.

Ou, como diria uma certa eminência parda: “Quem che mete cunnosco, leba!”.
Mainada.
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quinta-feira, 30 de outubro de 2008

as fitas da planície






Foto de Sónia Silva, daqui
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“É uma bela cidade, recheada de belos edifícios e uma Catedral impressionante. O casario situado no interior das muralhas, todo ele é considerado um museu e por isso a UNESCO declarou-a como Património da Humanidade.
Durante a ocupação romana chamava-se Liberalitas Julia, como demonstram as ruínas de um templo clássico e os vestígios de uma cerca de muralhas.
Aparece como cabeça de Diocese no séc.IV. Durante as primeiras dinastias serviu, por longos períodos de capital do Reino. Durante o período de 1282 a 1535 reuniram-se aqui as cortes 12 vezes.”

Isto é o que diz o cartaz turístico.
Receio que, de há alguns anos para cá, a coisa tenha vindo a degradar-se…
Algo se passa com a cultura, na planície…
Fiquei a saber, através de uma amiga, que a bela Évora está em risco de, a partir de Fevereiro poder vir a ficar sem uma única sala de cinema.
Até já há uma petição on line.
Leiam. Assinem. Divulguem.
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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

a qualificação de Lídio



Era uma vez um prometedor político local que estudava os dossiês, tinha uma apreciável experiência e era mesmo um dos raros vereadores que tinha mais do que uma vaga ideia do que falava quando falava do que quer que fosse.
Ultimamente falava-se mesmo nele como o muito possível candidato do seu partido à Câmara Municipal da Figueira da Foz.
Talvez por isso tenha decidido adquirir a qualificação que, aos olhos dos potenciais eleitores, lhe faltava: o grau académico.
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Sim, porque os portugueses apreciam muito a qualificação. Sempre apreciaram. Pensam que lhes proporciona, enfim, uma certa nobreza. Enfim, um vago pedigree. Talvez mesmo um je ne sais quoi ou assim. Deduzem que uma qualificação reconhecida lhes traz mais distinção do que um verdadeiro conhecimento adquirido. Antigamente adquiriam-na (a qualificação) comprando títulos a viscondes ou marqueses arruinados. Agora adquirem-na fazendo favores a universidades desqualificadas.
Podem fazê-lo ao Domingo por via telefónica, como o nosso primeiro-ministro, ou, como parece ser o caso de Lídio Lopes, por correspondência e via conjugal. Numa universidade independente ou numa internacional.

É claro que não sou ingénuo para não ter noção das implicações políticas da oportunidade da denúncia, da pertinência da abertura do inquérito e do timing da publicação da “notícia”.
Porque não são despiciendos, no desenrolar desta estória, o papel de certa imprensa cujo critério de publicação de notícias não tem necessariamente que ver com a verdade, antes com uma certa liberdade de informação(!); e o papel da polícia, que continua (na senda da mui vetusta tradição da santíssima inquisição) abrindo inquéritos ao ritmo da entrada de denúncias anónimas.
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Mas também é claro que esta estória tem todos os ingredientes e condimentos que fazem o caldo de cultura em que marina o nosso atraso: uma pretensão saloia ou uma arrogante ingenuidade polvilhada por uma cobardia cívica q. b. que se manifesta copiosamente nos mentideros e na blogosfera anónima, com os seus esconsos ajustes de contas vingativos, invejosos ou despeitados. O que resulta numa cidadania de opereta.
Quanto a mim, reservo-me o modesto papel do desenhador que ilustra uma simples crónica de costumes.
Claro que assinando em baixo, como de costume.
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domingo, 26 de outubro de 2008

A verdade da mentira

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(Orson Welles, em "F is for Fake")
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O pintor francês Jean-Gabriel Domergue (1889-1962) disse uma vez que a arte “não teria falsários se não tivesse falsos apreciadores”.
A nossa boa PJ projecta mesmo um núcleo museológico para tornar perene esta edificante pedagogia.
O problema é que segundo a própria notícia, continua a haver mercado para aquilo - as obras estão à venda (e não tão baratas quanto isso!). Parafraseando o comissário Maigret, depois de deslindar o “caso Picpus”: “Esta gente é realmente muito parva!... De resto, se não fossem parvos, a polícia não era precisa para nada!”
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sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Greenspan





Afinal, o capitalismo é um produto com defeito.
Quem o descobriu foi Alan Greenspan, ex-presidente da Reserva Federal Americana.
Depois de testar todos os produtos do mercado, o velhote pensava que o capitalismo desregulado era o melhor para a tosse. Mas agora descobriu que afinal o produto tinha defeito. A coisa descambou. Diarreias, vómitos, náuseas, vertigens e delírios. E parece que é geral. Uma pandemia.
O Nobel da Economia está garantido: ex-aequo com o nosso presidente da República que recentemente descobriu que “dificilmente Portugal escapará à crise dos mercados financeiros internacionais.
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