.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Et pur si muove






Ainda dizem que a santa madre igreja não muda.
Muda sim senhor.
Por exemplo, hoje em dia já não manda ninguém para o inferno.
Agora vão para o olho da rua. Vejam aqui.

Ou, como diria uma certa eminência parda: “Quem che mete cunnosco, leba!”.
Mainada.
.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

as fitas da planície






Foto de Sónia Silva, daqui
.
“É uma bela cidade, recheada de belos edifícios e uma Catedral impressionante. O casario situado no interior das muralhas, todo ele é considerado um museu e por isso a UNESCO declarou-a como Património da Humanidade.
Durante a ocupação romana chamava-se Liberalitas Julia, como demonstram as ruínas de um templo clássico e os vestígios de uma cerca de muralhas.
Aparece como cabeça de Diocese no séc.IV. Durante as primeiras dinastias serviu, por longos períodos de capital do Reino. Durante o período de 1282 a 1535 reuniram-se aqui as cortes 12 vezes.”

Isto é o que diz o cartaz turístico.
Receio que, de há alguns anos para cá, a coisa tenha vindo a degradar-se…
Algo se passa com a cultura, na planície…
Fiquei a saber, através de uma amiga, que a bela Évora está em risco de, a partir de Fevereiro poder vir a ficar sem uma única sala de cinema.
Até já há uma petição on line.
Leiam. Assinem. Divulguem.
.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

a qualificação de Lídio



Era uma vez um prometedor político local que estudava os dossiês, tinha uma apreciável experiência e era mesmo um dos raros vereadores que tinha mais do que uma vaga ideia do que falava quando falava do que quer que fosse.
Ultimamente falava-se mesmo nele como o muito possível candidato do seu partido à Câmara Municipal da Figueira da Foz.
Talvez por isso tenha decidido adquirir a qualificação que, aos olhos dos potenciais eleitores, lhe faltava: o grau académico.
.
Sim, porque os portugueses apreciam muito a qualificação. Sempre apreciaram. Pensam que lhes proporciona, enfim, uma certa nobreza. Enfim, um vago pedigree. Talvez mesmo um je ne sais quoi ou assim. Deduzem que uma qualificação reconhecida lhes traz mais distinção do que um verdadeiro conhecimento adquirido. Antigamente adquiriam-na (a qualificação) comprando títulos a viscondes ou marqueses arruinados. Agora adquirem-na fazendo favores a universidades desqualificadas.
Podem fazê-lo ao Domingo por via telefónica, como o nosso primeiro-ministro, ou, como parece ser o caso de Lídio Lopes, por correspondência e via conjugal. Numa universidade independente ou numa internacional.

É claro que não sou ingénuo para não ter noção das implicações políticas da oportunidade da denúncia, da pertinência da abertura do inquérito e do timing da publicação da “notícia”.
Porque não são despiciendos, no desenrolar desta estória, o papel de certa imprensa cujo critério de publicação de notícias não tem necessariamente que ver com a verdade, antes com uma certa liberdade de informação(!); e o papel da polícia, que continua (na senda da mui vetusta tradição da santíssima inquisição) abrindo inquéritos ao ritmo da entrada de denúncias anónimas.
.
Mas também é claro que esta estória tem todos os ingredientes e condimentos que fazem o caldo de cultura em que marina o nosso atraso: uma pretensão saloia ou uma arrogante ingenuidade polvilhada por uma cobardia cívica q. b. que se manifesta copiosamente nos mentideros e na blogosfera anónima, com os seus esconsos ajustes de contas vingativos, invejosos ou despeitados. O que resulta numa cidadania de opereta.
Quanto a mim, reservo-me o modesto papel do desenhador que ilustra uma simples crónica de costumes.
Claro que assinando em baixo, como de costume.
.

domingo, 26 de outubro de 2008

A verdade da mentira

.
(Orson Welles, em "F is for Fake")
.
O pintor francês Jean-Gabriel Domergue (1889-1962) disse uma vez que a arte “não teria falsários se não tivesse falsos apreciadores”.
A nossa boa PJ projecta mesmo um núcleo museológico para tornar perene esta edificante pedagogia.
O problema é que segundo a própria notícia, continua a haver mercado para aquilo - as obras estão à venda (e não tão baratas quanto isso!). Parafraseando o comissário Maigret, depois de deslindar o “caso Picpus”: “Esta gente é realmente muito parva!... De resto, se não fossem parvos, a polícia não era precisa para nada!”
.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Greenspan





Afinal, o capitalismo é um produto com defeito.
Quem o descobriu foi Alan Greenspan, ex-presidente da Reserva Federal Americana.
Depois de testar todos os produtos do mercado, o velhote pensava que o capitalismo desregulado era o melhor para a tosse. Mas agora descobriu que afinal o produto tinha defeito. A coisa descambou. Diarreias, vómitos, náuseas, vertigens e delírios. E parece que é geral. Uma pandemia.
O Nobel da Economia está garantido: ex-aequo com o nosso presidente da República que recentemente descobriu que “dificilmente Portugal escapará à crise dos mercados financeiros internacionais.
.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

o ouro das medalhas


Quando era mais novo, o reconhecimento dos outros era-me indiferente. Contudo, como dizia Bernard Shaw, ”a juventude é uma moléstia que passa com a idade”. Agora concedo que sem esse reconhecimento, a nossa existência não passaria de um nada triste e equívoco. Se o que fazemos não se repercutisse nos outros, pouco mais de nós sobraria que o vácuo inicial.
.
Vem isto a propósito de um convite que recebi, do Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, ”para a Sessão Solene de Entrega de Distinções Honoríficas a diversas personalidades, no dia 24 de Outubro, Sexta-feira, às 17.30 horas, no salão Nobre dos Paços do Concelho”.
Como estou em maré de reconhecimento, também o faço em relação a quem (pela cidade) decidiu atribuir três Medalhas de ouro da Cidade a estes três cidadãos: Isaías Cardoso, Luís de Melo Biscaia e Mário Silva (a propósito das outras distinções não me pronuncio porque não conheço os homenageados).
.
Regra geral, as Cidades distinguem os cidadãos que se destacam da mediania (ou da normalidade). Ora, se na Figueira da Foz a norma é medíocre, a excelência é superlativa. Senão vejamos:
.
Isaías Cardoso é o arquitecto que é responsável pelos poucos (pouquíssimos) projectos civis de arquitectura de qualidade edificados na Figueira da Foz nos últimos 50 anos.
.
Luís de Melo Biscaia é um advogado e político cuja conduta corajosa (quando foi preciso), compostura moral e lisura cívica devia servir de exemplo a todas as gerações de políticos e advogados que se lhe seguiram. Um cidadão atento que ainda hoje, quase diariamente no seu blogue, continua a fazer a pedagogia do bom senso e da tolerância, o que hoje pode parecer antiguado. É, no sentido literal, um aristocrata. Se o poder fosse exercido apenas por homens assim, até eu me tornaria miguelista.
-
Mário Silva é um dos maiores artistas portugueses vivos e um espírito livre. Um artista excêntrico, obstinado, anárquico e contestatário. Nunca obedeceu a qualquer corrente. Assumiu um estilo independente e, não obstante, “conseguiu vingar”- o que, neste país, é obra!
Fora disso, é uma espécie de duende folgazão cuja existência nos iliba da nossa irreprimível e atávica melancolia. Gosta de cães, de mulheres, de vinhos (tintos), de amigos e da arte (não necessariamente por esta ordem. Aliás, o Mário detesta qualquer tipo de ordem). Ah, e é meu amigo.
..
O CAE inaugura, segundo informação que tenho, no dia 24 deste mês, a exposição Antológica Mário Silva - ½ século – Obra & Vida:
“… algumas das mais representativas peças da obra de um dos maiores autores da arte portuguesa contemporânea. Exemplares originais (muitos inéditos) da pintura, do desenho, gravura, cerâmica, e escultura reunidos numa exposição monumental, que ultrapassa a dimensão de uma retrospectiva vulgar. Trata-se da revelação cronológica (quase) integral da sua evolução, ao longo de mais de meio século de uma atribulada carreira profissional, em Portugal, na Europa e em todo o mundo, reconstituída (em tempo record) pela competência e dedicação duma equipa pluridisciplinar de investigadores, que explora importantes aspectos ignorados (ou desconhecidos) da sua vida e do significado cultural e humanístico do seu trabalho.” 
Lá estarei, para lhe dar um abraço.
.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

o homem novo (a inteligência artificial)

Este é, sem dúvida e apesar de tudo, um tempo de oportunidades.
A vida está boa para os imbecis.
Alguns têm-se dedicado aos negócios.
Mas outros há que se dedicam à cultura, às artes, enfim à reflexão. Também aí há oportunidades.
Este, depois de ter inventado o robô-pintor (no rasto da indústria automóvel, que já o tinha feito há algum tempo, só que para reduzir os custos ou optimizar a produção), e porque os génios não temem o ridículo, acaba de escrever (no Jornal de Negócios, where else?) um manifesto.





Este é, sem dúvida e apesar de tudo, um tempo de oportunidades.
A vida está boa para os imbecis.
Alguns têm-se dedicado aos negócios.
Mas outros há que se dedicam à cultura, às artes, enfim à reflexão. Também aí há oportunidades.
Este, depois de ter inventado o robô-pintor (no rasto da indústria automóvel, que já o tinha feito há algum tempo, só que para reduzir os custos ou optimizar a produção), e porque os génios não temem o ridículo, acaba de escrever (no Jornal de Negócioswhere else?) um manifesto.
.
Não sei bem se se trata apenas de um manifesto ou de todo um tratado. O da Verdadeira Imbecilidade (com maiúscula, porque se trata inquestionavelmente de algo superlativo).

O sujeito compôs a maior sucessão de palermices que já li num único artigo de jornal. Só lendo.
------------------------------------------------------------------------------------------
Ah, já agora, se puderem, leiam também os comentários. É reconfortante saber que entre os leitores do Jornal de Negócios (pelo menos da sua edição online) existem alguns que não estão tão imbecilizados quanto uma publicação que tem entre os seus colunistas avençados à semana (suponho que se trata de uma situação remunerada, pois trata-se de um jornal de negócios!) - uma inteligência artificial que acha que a criação artística é uma questão de cretinos.
.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O colarinho cor-de-rosa


Na vida nada é simples. Nada é a preto e branco.
A vida é tão pródiga de contrastes como as delicadas, complexas e infinitas variações tonais do cinzento. A vida é uma intrincada sinfonia de cinzas. Uma grisalha solene.
Em Portugal, a pobreza aumenta de forma inaudita (há quase dois milhões de pessoas que vivem abaixo do limiar da decência e da dignidade).
Os índices de corrupção aumentam. Segundo alguém que sabe, isto deve-se (entre outras causas) à não aprovação, pelo partido do governo, do pacote de medidas contra os crimes de colarinho branco, propostas pelo então deputado João Cravinho.
.
Contudo no que concerne a este fenómeno subsistem algumas perplexidades…
.
O Orçamento do estado para 2009 prevê um aumento de 3,2% das despesas com as reformas vitalícias dos senhores deputados e outros devotados ex-titulares de cargos públicos.
.
Mas entretanto o nosso super-herói está reformado. O paladino da luta contra os crimes do malvado Colarinho Branco aposentou-se. Quando decidiu interromper o seu apostolado e aceitar um lugar no Banco de Cooperação e Desenvolvimento, decidiu também pedir, antecipada, a sua vitalícia reforma de servidor do estado.
É assim.
A vida nunca é tão linear como um simples desenho, a preto sobre branco. Mesmo que rematado de cor-de-rosa.
.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Jurista, consultor financeiro, escritor


O mundo está perigoso. Outra vez.
O mundo está um caos total, um manicómio em que a destruição, o assassínio, o roubo e a violação prevalecem. Tal como nos anos vinte do século passado. Segundo o testemunho do artista George Grosz, na sua autobiografia: “A humanidade criou um sistema desprezível em que poucos estão no cimo e os restantes estão em baixo. Alguns ganham milhões, enquanto milhares e milhares mal conseguem subsistir”.
O indivíduo não é mais do que uma parte do turbilhão em que participa (inconscientemente).
O cidadão médio é passivo, ou mesmo conciliador.
E depois há sujeitos como este. Dotados, respeitáveis, bem sucedidos e mediáticos. Com muitos "amigos". Dele já outros falaram aprofundadamente. Do verbo e do número.
E, perguntais vós, que fez George Grosz? E que faz você?
Grosz fez muito, mas não chegou.
- Eu faço-lhes o retrato.
É pouco, mas é o que se pode arranjar.
.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O valor, o contexto e a arte

Em Janeiro de 2007, o colunista do Washington Post Gene Weingarten fez, com a colaboração do conhecido violinista Joshua Bell, uma curiosa experiência no contexto de um debate sobre “Valor, Contexto e Arte”.
Joshua Bell, “que dias antes tinha actuado no Symphony Hall of Boston para uma plateia esgotada, a 1000 dólares por cabeça, tocou no metropolitano durante 45 minutos as mesmas peças musicais consagradas, no mesmo Stradivarius de 1713 avaliado em mais de 3 milhões de dólares.”




Passaram por ele 1097 pessoas, poucas pararam para o ouvir e apenas uma o reconheceu. O violinista recolheu 32.17 dólares, excluindo 20 da única pessoa que o reconheceu. Segundo um comentário a este vídeo, no You Tube: “Moral: if you want good results, do the best in the right place.
Gene Weingarten venceu o Prémio Pulitzer 2008 pelo artigo que redigiu baseado nesta experiência.
---------------------------------------------------------------------------

Tal como Joshua Bell, eu também acho agradável ser reconhecido fora de qualquer “right place”.
Este post é dedicado a PDuarte, do blogue “o último pingo” (link aqui ao lado), que me deixou, algures aqui em baixo, um comentário amável e generoso.
.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

FECO-Portugal

“Ainda está para decidir se o trabalho dos cartoonistas é fazer sorrir ou fazer chorar, mas é seguro que eles convivem bem (e não a hostilizam) com essa manifestação humana: a capacidade de sorrir; particularmente na sua versão amarela.”


Zé Oliveira


Já está.
Os cartoonistas portugueses já têm uma associação.
E Zé Oliveira é o seu presidente. “Chama-se FECO, porque é criada com o objectivo de se filiar na Federação internacional designada FECO - Federation of cartoonists Organizations, que abrange três dezenas de países.”
Vejam aqui a crónica da constituição da associação, pela pena do seu presidente e animador do blogue Buraco da fechadura.
Zé Oliveira, em entrevista ao jornal de Leiria, constata como eu, que “a saúde do cartoon está frágil” e que “os jornais estão a ficar leves na informação que transmitem; substituem o cartoon pela simples ilustração porque ninguém quer fazer ondas” e que “passaram a publicar caricaturas simples, lisonjeiras e simpáticas”.
Zé Oliveira acha que “o cartoon é um cavalo de Tróia porque divulga as artes plásticas a par do seu lado de excelência que é a divulgação de ideias”.

Eis enfim uma associação a que não me importaria de pertencer.

Não imagino porém se estes tipos solitários aceitariam como associado alguém como eu…
Por outro lado, como dizia Marx, Groucho: “Não sei se me orgulhe de pertencer a um clube que me aceita entre os seus membros”

Que se dane. Vou inscrever-me.
Sempre poderei dizer a meus netos que pertenci a uma organização internacional de intrépidos e melancólicos cultivadores do riso. E da gargalhada.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Jacques Brel


Jacques Brel, (1929-1978) é da geração de meus pais.
Mas não envelheceu.
Soçobrou à geração adolescente que se lhe seguiu.
Alguns émulos dessa cultura arrastam-se por aí, ainda, como patéticos adolescentes envelhecidos.
Jacky morreu fez ontem trinta anos e agora andam a leiloar-lhe os pertences. Enfim, as pratas e os papeizinhos, os recuerdos.
Em tempo de crise, o mercado não dorme.
Há que investir em “activos que não desvalorizem”(!).
O manuscrito do Amsterdam, por exemplo, atingiu uma soma pornográfica.
A viúva acha sórdido.
A Srª Brel sabe que seu marido está vivo.
O mercado é que (como sempre e em tempos difíceis) se torna necrófago.
Nada que o grand Jacques não tivesse previsto, aqui.
Podeis também vê-lo aqui, em "Ces gens lá".

O boneco desenhei-o ontem, à noite, quando soube da efeméride e do necrófilo leilão.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Luís Amado e a diplomacia solícita



Condoleeza Rice visitou Lisboa há menos de um mês. O ministro das Necessidades anunciou esta semana, com aquele seu enfastiado ar blasé, aquilo que já todo o mundo tinha depreendido: o governo português reconhece a independência do Kosovo.
Depois do muito solícito apoio incondicional à palermice do Iraque, este é, em poucos anos, o segundo brilharete “visionário” da nossa diplomacia! Com inevitáveis, previsíveis, preversas e duradouras consequências.
Por isso, depois de Durão Barroso ter servido os cafezinhos nas Lajes, desenhei o ministro Amado de libré, como os mais solícitos mordomos. É que, aos nossos “diplomatas” não lhes pagamos para pensar, apenas para "servir".
.