Quando era mais novo, o reconhecimento dos outros era-me indiferente. Contudo, como dizia Bernard Shaw, ”a juventude é uma moléstia que passa com a idade”. Agora concedo que sem esse reconhecimento, a nossa existência não passaria de um nada triste e equívoco. Se o que fazemos não se repercutisse nos outros, pouco mais de nós sobraria que o vácuo inicial.
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Vem isto a propósito de um convite que recebi, do Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, ”para a Sessão Solene de Entrega de Distinções Honoríficas a diversas personalidades, no dia 24 de Outubro, Sexta-feira, às 17.30 horas, no salão Nobre dos Paços do Concelho”.
Como estou em maré de reconhecimento, também o faço em relação a quem (pela cidade) decidiu atribuir três Medalhas de ouro da Cidade a estes três cidadãos: Isaías Cardoso, Luís de Melo Biscaia e Mário Silva (a propósito das outras distinções não me pronuncio porque não conheço os homenageados).
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Regra geral, as Cidades distinguem os cidadãos que se destacam da mediania (ou da normalidade). Ora, se na Figueira da Foz a norma é medíocre, a excelência é superlativa. Senão vejamos:
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Isaías Cardoso é o arquitecto que é responsável pelos poucos (pouquíssimos) projectos civis de arquitectura de qualidade edificados na Figueira da Foz nos últimos 50 anos.
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Luís de Melo Biscaia é um advogado e político cuja conduta corajosa (quando foi preciso), compostura moral e lisura cívica devia servir de exemplo a todas as gerações de políticos e advogados que se lhe seguiram. Um cidadão atento que ainda hoje,
quase diariamente no seu blogue, continua a fazer a pedagogia do bom senso e da tolerância, o que hoje pode parecer antiguado. É, no sentido literal, um aristocrata.
Se o poder fosse exercido apenas por homens assim, até eu me tornaria miguelista.
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Mário Silva é um dos maiores artistas portugueses vivos e um espírito livre. Um artista excêntrico, obstinado, anárquico e contestatário. Nunca obedeceu a qualquer corrente. Assumiu um estilo independente e, não obstante, “conseguiu vingar”- o que, neste país, é obra!
Fora disso, é uma espécie de duende folgazão cuja existência nos iliba da nossa irreprimível e atávica melancolia. Gosta de cães, de mulheres, de vinhos (tintos), de amigos e da arte (não necessariamente por esta ordem. Aliás, o Mário detesta qualquer tipo de ordem). Ah, e é meu amigo.
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O CAE inaugura, segundo informação que tenho, no dia 24 deste mês, a exposição Antológica Mário Silva - ½ século – Obra & Vida:
“… algumas das mais representativas peças da obra de um dos maiores autores da arte portuguesa contemporânea. Exemplares originais (muitos inéditos) da pintura, do desenho, gravura, cerâmica, e escultura reunidos numa exposição monumental, que ultrapassa a dimensão de uma retrospectiva vulgar. Trata-se da revelação cronológica (quase) integral da sua evolução, ao longo de mais de meio século de uma atribulada carreira profissional, em Portugal, na Europa e em todo o mundo, reconstituída (em tempo record) pela competência e dedicação duma equipa pluridisciplinar de investigadores, que explora importantes aspectos ignorados (ou desconhecidos) da sua vida e do significado cultural e humanístico do seu trabalho.”
Lá estarei, para lhe dar um abraço.
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