Era uma vez um prometedor político local que estudava os dossiês, tinha uma apreciável experiência e era mesmo um dos raros vereadores que tinha mais do que uma vaga ideia do que falava quando falava do que quer que fosse.
Ultimamente falava-se mesmo nele como o muito possível candidato do seu partido à Câmara Municipal da Figueira da Foz.
Talvez por isso tenha decidido adquirir a qualificação que, aos olhos dos potenciais eleitores, lhe faltava: o grau académico.
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Sim, porque os portugueses apreciam muito a qualificação. Sempre apreciaram. Pensam que lhes proporciona, enfim, uma certa nobreza. Enfim, um vago pedigree. Talvez mesmo um je ne sais quoi ou assim. Deduzem que uma qualificação reconhecida lhes traz mais distinção do que um verdadeiro conhecimento adquirido. Antigamente adquiriam-na (a qualificação) comprando títulos a viscondes ou marqueses arruinados. Agora adquirem-na fazendo favores a universidades desqualificadas.
Podem fazê-lo ao Domingo por via telefónica, como o nosso primeiro-ministro, ou, como parece ser o caso de Lídio Lopes, por correspondência e via conjugal. Numa universidade independente ou numa internacional.
É claro que não sou ingénuo para não ter noção das implicações políticas da oportunidade da denúncia, da pertinência da abertura do inquérito e do timing da publicação da “notícia”.
Porque não são despiciendos, no desenrolar desta estória, o papel de certa imprensa cujo critério de publicação de notícias não tem necessariamente que ver com a verdade, antes com uma certa liberdade de informação(!); e o papel da polícia, que continua (na senda da mui vetusta tradição da santíssima inquisição) abrindo inquéritos ao ritmo da entrada de denúncias anónimas.
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Mas também é claro que esta estória tem todos os ingredientes e condimentos que fazem o caldo de cultura em que marina o nosso atraso: uma pretensão saloia ou uma arrogante ingenuidade polvilhada por uma cobardia cívica q. b. que se manifesta copiosamente nos mentideros e na blogosfera anónima, com os seus esconsos ajustes de contas vingativos, invejosos ou despeitados. O que resulta numa cidadania de opereta.
Quanto a mim, reservo-me o modesto papel do desenhador que ilustra uma simples crónica de costumes.
Claro que assinando em baixo, como de costume.
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