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terça-feira, 7 de outubro de 2008

Paula Rego





“-O que a leva a pintar? Porque pinta?Pinto para dar face ao medo, como disse, acabei de dizer a uma professora de Artes Plásticas que me fez a mesma pergunta.– Mas hoje já não há medo aqui. Havia nos anos em que pintou estas obras?– Acha que não há medo agora? Não sente medo? Eu sinto.– Sente medo ou medos, de quê?– Sinto muito medo!”

Paula Rego ao “Correio da Manhã”*




Paula Rego é alguém muito invulgar.
Como artista, é peculiar. Nestes tempos em que tudo é cada vez mais conceptual, Paula faz compulsivamente (com as mãos ambas) algo tão físico que já quase nenhum artista faz: desenhar.
Como portuguesa, é uma excepção incaracterística. Não faz aquilo que distingue os portugueses: rodriguinhos, eufemismos, paninhos quentes. Paula escarafuncha na ferida exposta com um requinte cirúrgico e um deleite evidente. O seu trabalho tem uma característica que partilha com o grande Picasso: uma manifesta crueldade.
Receio que este meu apontamento padeça do mesmo mal.
----------------------------------------------------------------------------------*Eis o que sempre quis perguntar a Paula Rego e nunca tive oportunidade. É um momento zen de jornalismo de entretenimento com veleidades culturais. Está lá tudo: a irrelevância, a curiosidade vazia e a ignorância activa.
Querem mais? Comprem o Correio da Manhã, o jornal que faz tudo pelo analfabetismo funcional.

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segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Machado de Assis

Já houve um político português que, em tempos recentes, agradeceu um livro que uma editora lhe enviou, apresentando os seus “melhores cumprimentos ao autor, o sr. Machado de Assis.”
Agora, em Coimbra, terra do saber (a universidade mais vetusta de toda a parvónia), mudaram o nome da Praça Machado de Assis, que homenageava o grande escritor brasileiro, um dos maiores da língua portuguesa, para Praça Fausto Correia!!!
Isto foi perpetrado no dia da cidade (4 de Julho) e no ano em que, no Brasil e em Portugal, se celebra o centenário da morte de Machado de Assis.
“Qualquer outra praça ou rua nova serviria para colocar o nome do político local. O pormenor mais extraordinário é a mudança ter sido justificada por Fausto Correia costumar frequentar um café naquela praça. Ah, é isso: Machado de Assis nunca lá tomou café!”
Pobre Machadão, nunca tomou café no Trianon, escreveu livros «de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, coisa que não edifica nem destrói, não inflama nem regela, e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado».
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domingo, 5 de outubro de 2008

improviso nº19 - humor científico


Este ano, o Prémio IgNobel da Economia foi para um estudo sobre a ovulação e as gorjetas das dançarinas de bar. “Segundo os investigadores, que analisaram os ciclos menstruais de 18 dançarinas durante 60 dias, à fase de ovulação corresponde uma maior quantidade de gorjetas. As dançarinas que usaram pílula contraceptiva durante o estudo não tiveram qualquer oscilação nas gorjetas durante o ciclo menstrual.”
Mas há mais. Vejam aqui.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

“Les connoisseurs”

Helas, o capitalismo não jaz morto, apenas ligeiramente arrefecido.
A notícia da sua morte foi, receio, um pouco exagerada.
Agora é tempo de procurar “activos que não desvalorizem”! É uma coisa que os tugas já fazem há muito, muito tempo antes da crise dos créditos hipotecários americanos.

Prevalece contudo um paradoxo que nada tem que ver com Arte e exige o desempenho dos lorpas do costume (enfim, o que seria do mercado sem o logro?) -Mas também de verdadeiros “conoiseurs”!
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Devo dizer que para esta montagem digital utilizei desavergonhadamente a imagem conhecida de “o conoiseur”, do grande ilustrador norte-americano Norman Rockwell.

domingo, 28 de setembro de 2008

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

improviso nº17 - a cunha equestre


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Há dias ouvi, distraidamente, na rádio, alguém referir-se à pertinência da erecção (sim, isso) em Portugal, de um monumento à cunha. Esse alguém referia-se mesmo à possibilidade de uma coisa equestre. Com o garbo e o panache das estátuas dos condotieri de antanho.
A cunha, essa ferramenta tão antiga e primitiva, mas primordial.
Para os portugueses ela é ainda a alavanca dos seus mais secretos desígnios.
Torna possível e alcançável desde um lugar no infantário até à ascensão social; desde o sucesso nos negócios à progressão na carreira, ao êxito desportivo (em Portugal, as vitórias cunham-se com mérito), e até mesmo ao reconhecimento do mérito artístico, eu sei lá.
Em Portugal não há oportunidade sem cunha e não há cunha sem merecimento. Sim, porque é preciso merecer uma cunha. O que seria do mérito sem a cunha?...
Urge portanto materializar uma homenagem a esse instrumento de emancipação dos portugueses.
Eu pensei nisso.
Aqui fica uma sugestão, à escala. Monumental.
O pedestal seria compósito, isto é, composto de duas partes, a saber: o pedestal propriamente dito, um bloco trapezoidal do mais negro granito e a cunha, na base, calçando o pedestal, no mais duro aço inoxidável (imperecível como um atavismo lusíada). Sobre o pedestal, empinada no mais alvo mármore de Carrara, a cavalar figura dos portugueses, coroada com uma cara em forma de cunha, em mármore rosa, de Estremoz.
A localização poderia ser em Lisboa, no Terreiro do Paço, a praça dos ministérios. Where else?
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terça-feira, 23 de setembro de 2008

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Está tudo ligado

Quereis saber “a portuguesíssima razão inversa dos mega julgamentos com as micropenas tornada proporcional e directa com os processos sumários de despedimento colectivo”?
- Está tudo ligado.
“Sobretudo a avaliar por aquilo não sei quê do Bloco de Esquerda”. O Daniel Abrunheiro explica tudo na sua crónica nº 69. Aqui.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O sortilégio dos desenhos



É notável a capacidade dos desenhos, simples “papéis pintados com tinta”, se transcenderem. Acontece em países felizes. Com imaginação e (bom) humor.
No Brasil, em S. José do Rio Preto, uma cidade a 440 quilómetros de S. Paulo, há um desenho que é candidato a Prefeito. Grump, o novel candidato, é personagem de uma tira publicada pelo cartunista Orlandeli desde 1995, no Jornal “Diário da Região”.
Podeis conhecer toda a história aqui. E acompanhar a "campanha" do candidato aqui, no blog do seu criador.
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quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Damien Hirst, o formol e as “variedades”

Como estão longínquos os tempos das vanguardas artísticas do século vinte! Nesses tempos, os artistas pretendiam criar novas linguagens, romper com o passado. Hoje em dia, com a cobertura cúmplice dos meios de comunicação de massas, sempre ávidos de noticiar mais um record ou outra bizarria, os artistas mais apreciados (literalmente), pretendem simplesmente, aparecer e enriquecer.
Não, não se trata de uma nova atitude ou de um renovado cinismo dada, não. Trata-se simplesmente da sociedade do espectáculo, no seu esplendor.
Não requer estudo, conhecimentos ou aptidões técnicas específicas. Apenas uma hábil manipulação de conceitos, umas noções básicas das regras do marketing e das sacrossantas leis do mercado. E algum atrevimento. Ousadia, concedo. É tudo muito conceptual (!).


Este, por exemplo, é mais rico do que Cristiano Ronaldo e quase tão rico como Amorim, o das cortiças e dos casinos (comparação escolhida por um jornal de massas para melhor se fazer entender pelo seu público consumidor).
A sua maior influência foi um negociante de arte, um marchand! Acaba de fazer algo “que o colocará na história da arte, desta vez não pela obra em si, mas pelo que decidiu fazer com ela”!!! Nem mais.
Quis fazer-lhe uma caricatura mas hoje não me apetece desenhar.
O retrato já lhe faz justiça.
A arte contemporânea é um retrato fiel do ar do tempo da nossa civilização: muito impacto, reduzida substância e nenhum espaço para fruição estética ou reflexão. Um número de casino no meio de um enorme circo mediático de variedades.
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

contradança


Na "confecção" de um cartum, ou de uma charge, isto é, de um desenho com graça, esta surge-me de um curioso processo mental de alusões (mais ou menos subtis) e ilações (mais ou menos óbvias) no qual apenas me acompanha quem possui o mesmo género de referências culturais.
Confesso que fico sempre perplexo com o curioso processo de associação de ideias que me despertam certas situações.
Este caso (da curiosa e hilariante situação da vereação da Câmara Municipal da Figueira da Foz), sugeriu-me algo que me sugeriu isto, que, por sua vez, penso, foi sugerido por isto.
De qualquer modo é uma situação que, julgo, deve ser sempre acompanhada com "sanfona, triângulo e zabumba".
Acho que por vezes também à guitarra e à viola.
Há lá ritmo mais português.
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quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Os Hadrões e os Hardões



A propósito do Grande Colisor de Hadrões (LHC), o maior acelerador de partículas que começa hoje a desvendar os segredos do Universo, vejam aqui a explicação desta brilhante e delirante ilustração (de que que infelizmente não logrei identificar o autor) de um lapsus linguae na divulgação científica do New York Times. Um lapso freudiano.
Ainda dizem que a língua portuguesa é que é traiçoeira…
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sábado, 6 de setembro de 2008

O regresso do amigo pródigo

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(Paulo Diogo, neo-divisionismo e o fim do mundo, óleo s/tela)

Durante muitos anos (nas décadas de 80 e 90), fizemos exposições em parceria.
Foi com ele que, no já longínquo ano de 1984, fiz a minha primeira exposição.
O meu velho amigo Paulo Diogo está de regresso às exposições, após alguns anos de afastamento.
Será com prazer que lá estarei. Hoje, Sábado, dia 6 de Setembro. Na Galeria da Magenta, na Figueira da Foz. Inauguração às 18.30.
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