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quinta-feira, 28 de agosto de 2008

A senhora Rice



Tem o seu nome inspirado em música italiana (con dolcezza), quem diria.
A senhora é apenas Secretária de Estado do governo dos Estados unidos da América (que corresponde ao nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, ou das Relações Exteriores), cargo que infelizmente todos confundem com o de um responsável pela paz mundial.
Graças a esse lamentável equívoco, aparece em todos os noticiários desagradavelmente relacionada com acordos de paz gorados (do Iraque à Palestina e agora à Geórgia). O que lhe dá, em certos quadrantes, um mau perfil.
Mas o seu negócio não é, de todo, a Paz. É outro.
Como responsável emérita pela política externa da águia americana, desenhei-a com um certo ar de grifo. Ou de urubu. Enfim, de ave de... rapina. Creio que é mais esse o seu negócio.
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terça-feira, 26 de agosto de 2008

spleen


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Nasci faz hoje quarenta e seis anos numa terra da qual estou afastado há trinta.
Desde então, não se passou um único dia que nela não tenha pensado.
Por vezes tento vê-la, do céu.
Procurei debalde algo que não fosse um postal, para ilustrar este postal.
O melhor que achei foi esta imagem, não da terra mas do céu.
O céu da minha terra.
Perdoem-me o sentimental mood.
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segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Sua Eminência, o “maligno” e a Fé bipolar




Católicos, leiam isto. Os outros também (é instrutivo).
O cardeal Medina, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, acredita que o maligno está em toda a parte.
Se continuardes a duvidar do Óbvio não tendes, definitivamente, salvação: sois católicos que não fostes “educados de forma adequada para a fé”.
Ide em paz. Que o Nosso e o outro senhor vos acompanhem. Ámen.
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sábado, 23 de agosto de 2008

A cadeira Φ (F)


Há algo que persegue todos os pintores: a busca de uma receita para que “o todo seja igual à soma das partes", a sempre almejada sensação de equilíbrio e harmonia: o número de ouro. A Divina Proporção. O pintor Mário Silva achou esse princípio nesta minha pintura de 2003.
Segundo Leonardo, nada obedece tanto à Divina Proporção como o corpo humano. E quase nada serve tanto o corpo humano como uma cadeira.
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A exemplo do arquitecto Le Corbusier (que estudou a arquitectura clássica, desenhou mobiliário e se interessou pela secção áurea), eu também quis conceber uma cadeira observando esse princípio.
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Dizem que Le Corbusier considerava as formas das modernas latrinas de fabrico industrial “mais belas do que as da Vitória da Samotrácia”, dito que lhe é atribuído para ilustrar o seu apreço pela utilidade - “Só o útil é belo” - e o seu desprezo pelo ornamento. O seu desvelo pelo útil ia ao ponto de, coloquialmente, se referir a objectos úteis como máquinas (coisas que "servem para"), por exemplo, uma casa era uma “machine a habiter”; uma latrina “une machine a chier” e uma cadeira… Uma “máquina de sentar”.
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Esta cadeira, a que chamei cadeira Φ (F) porque concebida sob o signo de Fídeas e do rectângulo áureo, possui também - através de alguns elementos quase ornamentais, que são referências ou alusões subliminares - um vago ar de máquina, ainda que primitiva.
É que, se os sovietes eram o comunismo + a electricidade, a minha cadeira é a divina proporção + um certo sentido da bizarria, quero dizer, o sentido do humor.
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Devo acrescentar que, para conceber esta cadeira, criei o meu próprio modulor (um sistema geométrico de proporções). Só que ao contrário do de Le Corbusier, a minha medida de referência fui eu próprio (o Homem é a medida de todas as coisas): helas, uns centímetros a menos do que o 1.83m do homem ideal do grande arquitecto… Não se pode ter tudo.
A cadeira Φ pode não ser tão bela como uma cadeira de Le Corbusier, mas é tão útil e certamente mais bela do que, sei lá, uma latrina da Samotrácia. Para mim, que a concebi, possui um je ne sais quoi da convulsa e derisória beleza dos surrealistas.
Esta beleza bizarra, construída em madeira de pinho e aço zincado, está na minha sala, à mesa das refeições. A ser útil. Eu cá acho que o útil, além de belo, não tem que ser chato. Quero dizer, aborrecido.
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quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A viagem do elefante



Este é o primeiro desenho que faço de Saramago.
A inclusão do animal (a propósito da sua mais recente obra), é pretexto para um certo non sense que suaviza e desdramatiza um desenho já contaminado pela grave e proverbial severidade do grande escritor.
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domingo, 17 de agosto de 2008

Vladimir Putin


Suspeito que este desenho não seja bem uma caricatura.
Receio que tenha acabado de perpetrar (com poucos traços), uma espécie de estudo psicológico. Suponho que seja isto que configura um retrato sucinto.

sábado, 16 de agosto de 2008

Maria Keil e outra estória sem moral


Nem de propósito: após o desgosto com os patos-bravos da novel especulação imobiliária angolana, eis que me chega uma outra estória sórdida e exemplar de estupidez, ignorância e cinismo.



Presumo que até mesmo estórias pouco edificantes como esta tenham alguma espécie de moral. Confesso que não vislumbro qual.
O que vislumbro talvez seja um aviso. Aos artistas de um país que os despreza profundamente.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Kinaxixi



Eu lembro-me de, nas férias de Março (em Angola tínhamos todo o mês de Março de férias), visitar o mercado do Kinaxixi pela mão de minha mãe.
Soube ontem que no passado dia 2 demoliram o mercado do Kinaxixi, em Luanda.
Fico triste por ver desaparecer um edifício que, construído entre 1950 e 52 é referido nas revistas da especialidade como uma das obras mais importantes efectuadas pelos portugueses durante o século XX. O seu autor foi Vasco Vieira da Costa, português naturalizado angolano que no início da sua carreira estagiou, tal como Oscar Niemayer, com Le Corbusier. Fundou em 1979 a Escola de Arquitectura de Luanda e foi seu director até 1982.


Em seu lugar parece que está projectado isto:


Em lugar de uma construção ampla, com pé-direito altíssimo, arejada, funcional e inteiramente pensada para um clima tropical, vai nascer um mono e duas torres envidraçadas e modernas, em tudo semelhante a todos os chopingues centeres de todas as tristes metrópoles subdesenvolvidas.


Há factos que infelizmente só servem para provar a indigência moral e intelectual de certas “elites”. A elite angolana, agora endinheirada, comporta-se como os novos-ricos de todas as latitudes: à míngua de referências culturais ou sequer de amor-próprio, copia e aceita o modelo take-away que vem ”de fora”. Depois da moda assimilada do socialismo “esquemático”e da lucrativa guerra civil, assimilou outra moda lucrativa: a da especulação, do capital: o mercado. A sua cupidez só tem igual na do antigo colono. Comportam-se como colonizados que, alienados, macaqueiam os tiques do seu modelo, o colono.
Agora, o último grito em Angola é, a exemplo da sua ex-metrópole colonial, a especulação imobiliária e a sua ostensiva demonstração é demolir sistematicamente o património construído. Tal como o ex-colono já fez (e vai fazendo) na ex-capital do império.
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terça-feira, 12 de agosto de 2008

O pássaro verde

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Esta “escultura”, que está no meu jardim, é mais uma das minhas experiências com “achados”: uns ferros retorcidos, despojos de uma demolição, com os quais “compus” uma “espécie” de escultura sem volume. Como um simples desenho no espaço.
Trata-se de um conceito (mais um) inventado pelo grande Picasso. (A importância de um criador mede-se pela quantidade de novos signos que introduz na linguagem, e aí Picasso é imbatível; tanto que todos nós comunicamos ainda com imensos signos “inventados” por ele.)

Este conceito utilizou-o Picasso em 1928 no seu estudo para homenagem a Guillaume Appollinaire. A “construção” alcança, na sua versão exposta no Museum of Modern Art em Nova Yorque, a altura monumental de mais de quatro metros. Segundo Ingo F. Walther “Para a compreensão desta escultura sem massa e sem peso, desenhada no espaço, flutuando no tempo, é elucidativo procurar a história da sua origem na obra do próprio Apollinaire. O seu conto “Le poète assassiné” contém a espantosa descrição de um monumento para o poeta morto Croniamantal. À pergunta, como e de que material ele imagina o monumento, o escultor interrogado responde: ”Quero erigir uma estátua do nada, como a poesia e a fama.” Foi o próprio Picasso que apontou para o seu entusiasmo sobre este “monumento do nada, do vazio”. De resto, os seus estudos para este monumento a Apollinaire, que se aproxima mais do espírito do poeta que mil eloquentes elogios, foi recusado pela comissão por ser “demasiado radical”. As esculturas transparentes de Picasso, que se apoderam do espaço, representam em contrapartida mais um importante impulso para a história da escultura, que viria a fecundar mesmo os maiores escultores.”
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A Isabel possui, há muitos anos, uma pequena xilogravura com uma ilustração ingénua e uma citação de Göethe: “Coloquei a minha casa sobre o nada; é por isso que o mundo inteiro é meu”. Quando em 2001 adquirimos finalmente a casa que agora habitamos e que entre nós, não me ocorre porquê, baptizei de Sítio do Pássaro Verde, lembrei-me de lhe fazer “um monumento do nada, como a poesia e a fama”.
Eis uma explicação, obscura mas possível, para este Pássaro Verde que desenhado sobre o nada, se vai apoderando do espaço.
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sábado, 9 de agosto de 2008

Leonardo ou o desenho como “cosa mentale”

Vejam este esclarecido postal de Eduardo Simch (Artista Plástico, desenhista, cartunista, pintor, ilustrador e gravurista).
A partir de hoje na coluna dos links dilectos, aqui à direita (salvo seja).
Chama-se Ratoqri, tempestades cerebrais.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

O humor grave


Finalmente percebi porque é que num país tão depressivo, há humoristas mal pagos ou mesmo desocupados: S. Exª o Presidente da República interrompe as suas próprias férias para desopilar os fígados deprimidos do tuga mais empedernido e apadrinhar, com o seu alto patrocínio, esta verdadeira agência de gargalhadas.
É tudo uma questão de Talento.

terça-feira, 5 de agosto de 2008


Hoje, no meu país, começa a campanha eleitoral.
Estou preocupado. Pelo Quénia. Pelo Zimbabué.
E por isto.
E isto.
É que as convicções destes sujeitos não me tranquilizam.
Antes pelo contrário.