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quarta-feira, 2 de abril de 2008

Mugabe

Parece que o pesadelo do Zimbabwe está perto do fim.
Espero que, como quase sempre, não acabe tudo num banho de sangue.
Um pertinente e arguto comentário aos dias que correm é o de Bandeira.
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terça-feira, 1 de abril de 2008

Fellini

“Fellini é dos poucos que fizeram do cinema arte moderna.
O único cuja obra imensa pode ser posta no mesmo plano de Picasso e de Stravinski.
Seus filmes lançam um olhar magicamente imaginativo e ao mesmo tempo terrivelmente lúcido sobre o mundo moderno, sobre sua grotesca sexualidade, o seu embrutecimento, o seu exibicionismo.”
Milan Kundera




(Federico Fellini, desenho)

Está patente por estes dias e até Maio, no Espaço 39 Degraus da Cinemateca de Lisboa, uma exposição de 50 desenhos, caricaturas e um auto-retrato de Federico Fellini, feitos entre 1954 e 1993, e actualmente parte da colecção da Fundação Fellini.

A obra gráfica de Fellini é pouco conhecida, embora o jovem Federico tenha começado a sua carreira pelo desenho, pela ilustração e pela caricatura. O grotesco corrosivo e exagerado deste meio de expressão terá sem dúvida crismado para sempre o espírito do futuro director de cinema. O desenho foi sempre para Federico Fellini um instrumento primordial no trabalho de exploração e construção do seu universo intensamente imaginado.

Fellini dizia que “nada se sabe, tudo se imagina”. Por isso os seus filmes começavam no papel. Desenhados.
Amarcord, por exemplo, é uma das mais espampanantes ilustrações da tese segundo a qual a caricatura é a essência da arte do século vinte.
E eu não me recordo de quantas vezes eu já vi esse filme mágico, desmesurado, nostálgico, burlesco, subversivo, sem história, sem princípio, nem meio, nem fim, nem bons, nem maus; esse caleidoscópio aleatório de personagens grotescos e desmedidos como o tio louco, a freira anã, o acordeonista cego, o padre sonhador, Volpina, a prostituta ninfomaníaca, Gradisca e os desmedidos atributos da vendedora de tabaco ou a festa da chegada da Primavera e uma neblina branca que tudo cobre como um manto de humor doce, corrosivo e melancólico.
Tampouco me recordo de outro filme que me tenha deixado impressão visual tão duradoura.
Do que me recordo é da sua atmosfera, criada por outro italiano inspirado: Nino Rota.

Ouçam.
Recordam-se?
E se puderem, vão à Cinemateca ver os bonecos do Fellini.

segunda-feira, 31 de março de 2008

o pássaro na mão

(lápis s/papel, 2003)

"Nunca chega o momento em que se possa dizer:

trabalhei bem e amanhã é domingo.

Assim que se pára, começa-se de novo.

Pode-se pôr de lado uma tela e dizer que não se lhe lhe volta a mexer.

Mas nunca se pode escrever a palavra FIM."

Pablo Picasso

sexta-feira, 28 de março de 2008

aniversário


Quando, há um ano atrás, me propus criar este blogue, entendia-o como um veículo de divulgação do(s) meu(s) trabalho(s) e propunha-me escrever o menos possível, avesso que sou a justificações. Penso que a explicação do visível é sempre redundante e, por isso, ridícula e pretensiosa.
Fui fazendo dele uma espécie de diário de atelier, reflectindo sobre o meu trabalho, tentando enquadrá-lo sem, espero, jamais o justificar ou dar chaves para a sua interpretação.
Também, e “atento ao rumor do mundo”, comentei, talvez de modo demasiado adjectivado, alguns fenómenos exteriores que reclamaram a minha curiosidade, indignação ou mesmo perplexidade.
Peço-vos perdão, amigos que me visitais, por algum exagero menos reflectido.
Espero continuar a merecer a vossa paciente atenção.

quinta-feira, 27 de março de 2008

o porco no espeto

Mais um cromo para o meu “Álbum” Figueirense.
Desta calhou a vez ao líder concelhio do partido socialista.
O grande estratega da esquerda moderna local.
Julgo, porém, que este azougado Maquiavel do porco no espeto ainda procura o seu Príncipe perfeito: aquele que retirará a Figueira da Foz do opróbrio e da apagada e vil tristeza em que vegeta e a levará, incólume e exultante, ao futuro, logo a seguir.
Aguardem, pois.
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terça-feira, 25 de março de 2008

A expo do nacional

Como prometido, aqui estão algumas fotos da exposição do Restaurante Nacional. Como o restaurante tem duas salas, este fim-de-semana “trocámos” as exposições.







sexta-feira, 21 de março de 2008

a princesa e os elefantes do marajá

(mão, sol, elefante, esferográfica s/papel)

Tem onze anos e é muito dotada para as matemáticas, as ciências, as letras. E o desenho.
Tímida e introvertida, desde a mais tenra infância que desenha. Muito, compulsivamente, como se ao fazê-lo quisesse apoderar-se do mundo a que dá corpo com os seus traços. Desenhos precisos, delicados, cirúrgicos de minúcia.
Uma vez, confessei-lhe que o meu animal preferido era o elefante.
A partir de então, quando quer fazer-me um agrado, desenha-me um elefante. Mas não daqueles graves e pesados elefantes africanos da minha melancolia, não. Os seus elefantes são delicados, graciosos, de um humor ingénuo e transbordante, preciosos de pormenores, de mistérios, de atavios e ornamentos, dignos da exuberância e da majestade dos séquitos dos mais afortunados marajás.
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Antes de ontem, foi o Dia do Pai e ganhei mais um elefante.
Não há, nem nunca houve, nem haverá, em toda a Índia ou nos devaneios coloniais mais desvairados de um qualquer Kipling, um marajá com um séquito como o meu.
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segunda-feira, 17 de março de 2008

2 apontamentos para um retrato




Barack Obama é a imagem de uma certa esperança para um certo mundo.
Estes dois apontamentos (a traço simples) enquadram-se no espírito da caricatura, que é para alguns a essência da arte do século vinte. Mais fiel e total na sua verosimilhança do que o mais canino realismo.
Como eu sou um céptico incorrigível, receio que o retrato acabe por se parecer mais com o modelo de que ele consigo próprio. Isto é, receio que a sua essência não seja mais do que apenas uma imagem, vazia de conteúdo, amável e clean, que vende.
Espero sinceramente estar enganado. Porque para alguém que não é um cínico, apenas pessimista, qualquer expectativa gorada será sempre uma agradável surpresa.
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sexta-feira, 14 de março de 2008

A sensatez radical dos imbecis

A vida dos irresponsáveis caricaturistas seria um tédio sem estes cretinos sensatos e radicais.
Quando se está sem assunto, na mais negra das brancas, há-de sempre cair do céu um destes especímenes da estupidez alarve, mesmo que seja porta-voz do partido do governo e vice-presidente da sua bancada parlamentar.
-Claro que sim, excelência. Os caricaturistas merecem tudo o que lhes cai do céu na prancheta. Os imbecis merecem o céu e tudo o que cai da prancheta dos caricaturistas. Estão bem uns para os outros, sim senhor. Trata-se de uma troca tácita. É assim: os imbecis dão o assunto aos caricaturistas que em troca lhes concedem a posteridade. Capisce?

Ou deseja que lhe faça um desenho?
Já está.




Uma das boas coisas da democracia é que esta não obriga (ainda) os caricaturistas ao sufrágio universal, nem a qualquer outro tipo de avaliação. Se o fizesse, não tenho dúvidas que neste país até o humor seria triste.
Embora já vá havendo caricaturistas sensatos e titulares, que se prestam à avaliação do chiste à peça, o humor em Portugal vai sendo como em todo o lado, desopilante e irresponsável. É a sua índole, livre, imprevisível e libertária.
É por isso que eu vou sendo um democrata.
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quinta-feira, 13 de março de 2008

O nosso olímpico


Achacado por uma forte gripe, deixo-vos hoje uma caricatura do nosso olímpico, João Carlos Costa. É um apontamento amável e bem disposto do único figueirense que integra a comitiva de atletas que nos vai representar nos Jogos Olímpicos de Pequim.
Trata-se de uma caricatura que fiz a pedido para o blog Aldeia Olímpica.
Espero que não me leve a mal e que não falhe nem um.
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sábado, 8 de março de 2008

Hoje é à mesa


Sete e pico, oito e coisa, nove e tal.
Enfim, será mais ou menos pla hora de jantar que inauguraremos (eu e o meu amigo Jorge Rodrigues) a exposição que será a 92ª edição de “A Arte serve-se à mesa”, iniciativa que teve início em 1999 e já envolveu setenta e seis artistas.
No Restaurante Nacional, na Rua Mário Pais nº12, 1º - Coimbra.
Estão todos convidados. Depois mostro fotografias.

quarta-feira, 5 de março de 2008

3 esboços






Estou finalmente nos acabamentos do meu tríptico A Parábola dos cegos que, exposto no ano passado em Maio na Galeria da Magenta e embora bastante elogiado pelos meus pares, nunca me satisfez inteiramente.
De volta ao atelier e quase totalmente refeito, ali tem estado numa espécie de limbo, inacabado. Até agora. Será um dos oito trabalhos que levarei para a exposição do Restaurante Nacional, a 8 de Março, em Coimbra.
Estes são três estudos de mãos, dos inúmeros que realizei para esta obra que me tem ocupado (e mortificado) o corpo e o espírito há quase dois anos.
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segunda-feira, 3 de março de 2008

um esboço feliz





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No dia 15 de Novembro fiz este esboço de um pessegueiro.
Vejam o que acontece, na Primavera, com os desenhos felizes.