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sábado, 19 de janeiro de 2008

Eros e o segredo

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(desenho nº IV- Dez. 1983)


Este blogue não é propriamente a Biblioteca Nacional de França. Nem o meu baú se pode comparar com as suas caves.
Le voilá.É o número IV de uma série de desenhos eróticos que fiz sobre papel, em Dezembro de 1983 e foi sonegado desde então aos olhares públicos, tal como os tesouros licenciosos da Bibliothèque.
Também é para maiores de 16 anos.
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quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

o sr. Comendador



Não é uma caricatura (os traços caricaturáveis do personagem são mais a fala e a linguagem, não tanto os fisionómicos), mas mais um retrato.
Um retrato de um certo país fascinado com o ouropel da encenação mediática e da especulação bolsista de sucesso.
À composição, simples e estática, de três rectângulos sobrepostos, acrescentei algum dinamismo com as linhas cruzadas das pernas.
Esta simplicidade algo depurada e minimalista é realçada com o contraste das cores: contra o negro-armani do traje oficial do figurão, o acorde sempre feérico e kitsch das cores nacionais.
O que, convenhamos, se adequa a alguém a quem o Estado paga para ser visto como mecenas das artes.
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terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Conheça o mundo


(clicar nas imagens para ampliar)

Estes “gráficos” correram mundo através de correio electrónico como um trabalho intitulado "O Poder das estrelas", atribuído ao diplomata norueguês Charung Gollar (ONU – 2005), supostamente como uma apresentação do estado do mundo em 2004.
Pode ver mais aqui.
Na realidade são um trabalho de um publicitário brasileiro chamado Ícaro Dória, para a revista portuguesa “Grande Reportagem”, em 2004.
Sem dúvida muito criativo. Uma peça de arte de marketing político… Mas apesar disto os dados são reais, “foram tirados dos sites da Amnistia Internacional e da ONU.”
Ele explica tudo, aqui.
Uma pena o “estudo” não incluir a bandeira de Portugal estrelando dados, com certeza também muito interessantes…
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domingo, 13 de janeiro de 2008

a cidade dos prodígios


A realidade é mais prodigiosa que a imaginação.
Vejam este diálogo, trancrito de uma reunião na Câmara Municipal da Figueira da foz e digam lá se não parece ter saído da imaginação de Terry Jones ou de qualquer dos outros estarolas do non-sense e do absurdo.
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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

A indústria do roubo de Arte


O Mercado ilegal de obras de arte é um dos principais crimes internacionais.
O crime movimenta tantos recursos quanto o tráfico de armas, drogas e animais selvagens.
Verdade seja dita que o trabalho dos ladrões é muito facilitado em países como o Brasil ou Portugal, pela falta de catalogação das obras e por deficientes condições de segurança dos museus ou Pinacotecas.
Um prazer distinto e solitário
O retrato de Susanne Bloch, de Picasso e o Plantador de café de Portinari, avaliados em 100 milhões de dólares, estão de volta ao MASP (Museu de Arte de S. Paulo). Este furto, ocorrido a 20 de Dezembro veio lançar a discussão sobre o contrabando internacional de obras de arte.
Para José do Nascimento Júnior, director do departamento de Museus do Ministério da Cultura do Brasil, é difícil estabelecer o perfil do receptador de obras de arte contrabandeadas. "É o chamado crime de distinção. São pessoas que gostam e entendem de arte, conhecem o valor de cada peça e têm um altíssimo poder aquisitivo. Quem encomenda ou fica com uma obra dessas tem o chamado prazer solitário, pois jamais vai poder dizer que é dono de tal peça. Por mais fechado que seja seu ciclo de relacionamento, não poderia haver ostentação."
Veja aqui a cronologia dos roubos de arte registados em 2007.

Quanto ao boneco que ilustra este postal, trata-se de um velho desenho meu, uma vinheta que servia de cabeçalho à “crónica do crime” no jornal A Linha do Oeste.
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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

improviso nº6

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Já depois do reveillon aqui fica um can-can de improviso, com um “coup de chapeau” a Monsieur Lautrec.
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sábado, 5 de janeiro de 2008

o grande "inaugurizador"







A Rainha das Praias vai caminhando lugubremente para o esquecimento, acompanhando aliás o país, na mesma toada lenta de marcha sem volta. De profundis.
Apesar disso, na Figueira da Foz este vai ser o alegre “ano de todas as obras”, como alguém já reparou.
E como qualquer obra carece de inauguração… É aqui que entra o nosso inefável Presidente da Câmara.
Mas o senhor não está só nesta tarefa. Há mais... Eles vão atropelar-se para dar nas vistas nos palanques das inaugurações: os candidatos, pré-candidatos, candidatos a candidatos, cabos eleitorais e caciques, com fanfarras e tiroliros, porcos no espeto e cantores pimba, discursos, baboseiras e fitinhas…


Este é também, espero, o boneco inaugural da galeria desses retratados locais aqui no sítio. Ia escrever: “vou afiando o lápis”, mas há lugares comuns que não fazem já muito sentido, sobretudo quando este primeiro desenho foi executado inteiramente no computador. Já não há folha de papel com traços, pontos e tinta, apenas uma “imagem de mapa de bits”.
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quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Oscar Peterson





Este desenho, totalmente executado no paint, é uma espécie de homenagem ao autor da música que ouvem todos os happy few que visitam este pobre sítio, já há alguns dias.

Oscar Emmanuel Peterson morreu a 23 de Dezembro, depois de oitenta e dois anos de uma vida cheia de música.
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domingo, 30 de dezembro de 2007

OPV

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Não, não é “uma bofetada no gosto do público” como usavam as vanguardas no início do século vinte. Nem uma qualquer boutade para “épater les bourgeois”…
Apeteceu-me acabar o ano com algo, digamos - bom.
Algo conceptual.
Uma obra que fosse como um retrato daquilo em que os burgueses (termo em desuso) gostam de se rever: uma imagem complacente, amável e bonita de si próprios:
Esta obra é dedicada a todos os artistas do país onde falta dinheiro em casa de quatro quintos das pessoas mas cuja elite adora e faz esgotar coisas bonitas - como sobretudos de caxemira a 4 mil euros ou caviar Beluga a 400€ cada 100 grs. Telemóveis “a mil e quinhentos euros (como o Nokia 8800 Sirocco Gold e modelos de nível idêntico) também desapareceram. E os de trinta mil euros não desapareceram porque nenhum vendedor os manda vir: afinal, quem pode comprar esse tipo de gadget mete-se no avião e vai a Londres abastecer-se.”
Aos artistas do país em que “arranjar mesa em certos restaurantes impõe tráfico de influências.” (que chic!)
Aos artistas que têm que fazer quotidianamente atençõezinhas aos novos burgueses desta elite tão sofisticada, que na sua estupidez ignorante e pretensiosa depreendem que o artista a quem querem adquirir uma obra deve viver como eles fizeram fortuna: de favores. Atençõezinhas.

Nota:
Claro que se o Comendador Joe (sim, o tal que estragou o natal à alta-finança)(!!), me quiser adquirir esta obra para expor no seu showroom, o preço é uma agradável surpresa. Mas eu faço uma atençãozinha (esta é uma das mais peculiares características dos hábitos sociais informais dos nossos burgueses, prometo que um dia destes lhe dedico um post).
A obra tem tudo para satisfazer o gosto sofisticado da elite supra citada: uma moldura antique, importada; uma tela de fino e exclusivo algodão importado e até a black ink indelével, um nanquim opaco e exclusivo foi igualmente importada da China profunda, via Londres, off course. Só a ideia (o conceito) é autóctone, o que contribui para a genuinidade da cor local.
Acrescento que esta obra original é autenticada e datada no verso, a crayon noir, com a firma do artista, o que lhe confere o carácter excelso das mais exclusivas criações.
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domingo, 23 de dezembro de 2007

um conto de Natal


Em 2005, aliciado por Mário Silva, participei numa iniciativa do jornal As Beiras, que se consubstanciou na publicação, num suplemento de 54 páginas da edição de 16 de Dezembro, de uma série de contos e depoimentos de pintores sobre o Natal. 
Assim o meu conto foi publicado entre os dos artistas que se seguem: Alves Martins, Zé penicheiro, Mário Silva, Cunha Rocha, Pedro Olayo, José Daniel Abrunheiro, Oscar Fragoso, Vítor Matias, Cristóvão de Aguiar, Seixas Peixoto, Santiago Ribeiro, Jacqueline Moys, Eduardo Esteves, Chuva Vasco e Ramiro Calouro. 
A ilustração concebi-a aqui no paint, um destes dias, quando me lembrei de repescar e reeditar este pobre



conto de natal





Escrever um Conto de Natal, quando se é pintor e nunca se escreveu nada senão pequenos apontamentos, tem que se diga! Ainda por cima para o dia seguinte! 
“Tem que ser, pá. Vá lá…”
Só mesmo recorrendo à memória e não apenas à imaginação, que já vou tendo idade para isso.
O conto que vou pôr (como se diz na minha terra), remonta à minha infância e o “causo” que relata tem, talvez mais do que qualquer outra coisa, que ver com a minha futura paixão pela pintura, pela arte – pela representação das coisas.
Tudo se passa noutro hemisfério, em África, onde as noites são mornas, intensas de ruídos misteriosos.Não tenho toda a certeza que tudo se tenha passado na época do Natal, mas a minha “memória afectiva” diz que sim. Associo estes factos ao calor e mistério das noites de Natal.
Já não me recordo porque motivo meus pais me deixaram para jantar em casa desse senhor idoso, de origem goesa, amigo da família e aposentado do serviço público, onde teria tido um cargo de responsabilidade na Fazenda Pública (como então se dizia). Viúvo, com dois filhos solteiros e boémios, sempre ausentes, vivia uma existência algo solitária.
Nessa noite teria a companhia, para jantar, de um menino de oito anos, ingénuo e espantado ao entrar naquela sala de jantar repleta do mais magnífico conjunto de objectos que já tinha visto e que eu hoje creio que fossem as suas memórias - relíquias de um homem velho, vivido e endurecido nas vivências do Império Colonial Português, então já em declínio: tecidos, ráfias, manipanços, esculturas, escudos em pele e lanças cruzadas, máscaras, relicários, quadros – que quadros! Nunca mais vi vermelhos tão francos, intensos e luminosos como nessa noite iluminada por uma única lâmpada mortiça!Não me recordo, hoje, de quase nada do que me contou durante o repasto; nem sobre a sua infância goesa nem de nenhum episódio das “guerras negras” da sua juventude, das quais alguns daqueles objectos eram óbvios troféus. Mas não esquecerei jamais a impressão que causaram na minha mente de oito anos. Essa impressão, que me marcou tão estranha e intensamente e que ainda associo aos mistérios de Natal é, talvez, responsável pela minha fascinação das coisas representadas, pela arte, pela vida.
Quando saí para a noite amena de ruídos de animais nas suas labutas misteriosas, achava-me alegre, estranhamente eufórico, como se algo me tivesse sido revelado…É essa alegria (ou pelo menos, um seu reflexo) que eu procuro todos os anos nesta quadra, noutro hemisfério - quando, à noite, muitas vezes o que sobrevém é o frio, o desconforto e a melancolia.
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

fala do ex-recluso



Como no ano passado assinou de cruz e indultou um infeliz que andava a monte, Cavaco neste natal não fez por menos: das cerca de seis centenas de propostas de indulto que o ministro da Justiça lhe pôs à frente, o Presidente assinou apenas seis!
O que faz deste o ano em que a Presidência concede menos perdões de pena, pelo Natal.
Mas ofereceu gravatas.Boas Festas aos happy few!Quanto ao boneco, é um velho desenho (que ficou inédito), do tempo do jornal A linha do Oeste, que agora refiz no paint e ao qual acrescentei o chiste. E a gravata.
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