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domingo, 30 de dezembro de 2007

OPV

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Não, não é “uma bofetada no gosto do público” como usavam as vanguardas no início do século vinte. Nem uma qualquer boutade para “épater les bourgeois”…
Apeteceu-me acabar o ano com algo, digamos - bom.
Algo conceptual.
Uma obra que fosse como um retrato daquilo em que os burgueses (termo em desuso) gostam de se rever: uma imagem complacente, amável e bonita de si próprios:
Esta obra é dedicada a todos os artistas do país onde falta dinheiro em casa de quatro quintos das pessoas mas cuja elite adora e faz esgotar coisas bonitas - como sobretudos de caxemira a 4 mil euros ou caviar Beluga a 400€ cada 100 grs. Telemóveis “a mil e quinhentos euros (como o Nokia 8800 Sirocco Gold e modelos de nível idêntico) também desapareceram. E os de trinta mil euros não desapareceram porque nenhum vendedor os manda vir: afinal, quem pode comprar esse tipo de gadget mete-se no avião e vai a Londres abastecer-se.”
Aos artistas do país em que “arranjar mesa em certos restaurantes impõe tráfico de influências.” (que chic!)
Aos artistas que têm que fazer quotidianamente atençõezinhas aos novos burgueses desta elite tão sofisticada, que na sua estupidez ignorante e pretensiosa depreendem que o artista a quem querem adquirir uma obra deve viver como eles fizeram fortuna: de favores. Atençõezinhas.

Nota:
Claro que se o Comendador Joe (sim, o tal que estragou o natal à alta-finança)(!!), me quiser adquirir esta obra para expor no seu showroom, o preço é uma agradável surpresa. Mas eu faço uma atençãozinha (esta é uma das mais peculiares características dos hábitos sociais informais dos nossos burgueses, prometo que um dia destes lhe dedico um post).
A obra tem tudo para satisfazer o gosto sofisticado da elite supra citada: uma moldura antique, importada; uma tela de fino e exclusivo algodão importado e até a black ink indelével, um nanquim opaco e exclusivo foi igualmente importada da China profunda, via Londres, off course. Só a ideia (o conceito) é autóctone, o que contribui para a genuinidade da cor local.
Acrescento que esta obra original é autenticada e datada no verso, a crayon noir, com a firma do artista, o que lhe confere o carácter excelso das mais exclusivas criações.
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domingo, 23 de dezembro de 2007

um conto de Natal


Em 2005, aliciado por Mário Silva, participei numa iniciativa do jornal As Beiras, que se consubstanciou na publicação, num suplemento de 54 páginas da edição de 16 de Dezembro, de uma série de contos e depoimentos de pintores sobre o Natal. 
Assim o meu conto foi publicado entre os dos artistas que se seguem: Alves Martins, Zé penicheiro, Mário Silva, Cunha Rocha, Pedro Olayo, José Daniel Abrunheiro, Oscar Fragoso, Vítor Matias, Cristóvão de Aguiar, Seixas Peixoto, Santiago Ribeiro, Jacqueline Moys, Eduardo Esteves, Chuva Vasco e Ramiro Calouro. 
A ilustração concebi-a aqui no paint, um destes dias, quando me lembrei de repescar e reeditar este pobre



conto de natal





Escrever um Conto de Natal, quando se é pintor e nunca se escreveu nada senão pequenos apontamentos, tem que se diga! Ainda por cima para o dia seguinte! 
“Tem que ser, pá. Vá lá…”
Só mesmo recorrendo à memória e não apenas à imaginação, que já vou tendo idade para isso.
O conto que vou pôr (como se diz na minha terra), remonta à minha infância e o “causo” que relata tem, talvez mais do que qualquer outra coisa, que ver com a minha futura paixão pela pintura, pela arte – pela representação das coisas.
Tudo se passa noutro hemisfério, em África, onde as noites são mornas, intensas de ruídos misteriosos.Não tenho toda a certeza que tudo se tenha passado na época do Natal, mas a minha “memória afectiva” diz que sim. Associo estes factos ao calor e mistério das noites de Natal.
Já não me recordo porque motivo meus pais me deixaram para jantar em casa desse senhor idoso, de origem goesa, amigo da família e aposentado do serviço público, onde teria tido um cargo de responsabilidade na Fazenda Pública (como então se dizia). Viúvo, com dois filhos solteiros e boémios, sempre ausentes, vivia uma existência algo solitária.
Nessa noite teria a companhia, para jantar, de um menino de oito anos, ingénuo e espantado ao entrar naquela sala de jantar repleta do mais magnífico conjunto de objectos que já tinha visto e que eu hoje creio que fossem as suas memórias - relíquias de um homem velho, vivido e endurecido nas vivências do Império Colonial Português, então já em declínio: tecidos, ráfias, manipanços, esculturas, escudos em pele e lanças cruzadas, máscaras, relicários, quadros – que quadros! Nunca mais vi vermelhos tão francos, intensos e luminosos como nessa noite iluminada por uma única lâmpada mortiça!Não me recordo, hoje, de quase nada do que me contou durante o repasto; nem sobre a sua infância goesa nem de nenhum episódio das “guerras negras” da sua juventude, das quais alguns daqueles objectos eram óbvios troféus. Mas não esquecerei jamais a impressão que causaram na minha mente de oito anos. Essa impressão, que me marcou tão estranha e intensamente e que ainda associo aos mistérios de Natal é, talvez, responsável pela minha fascinação das coisas representadas, pela arte, pela vida.
Quando saí para a noite amena de ruídos de animais nas suas labutas misteriosas, achava-me alegre, estranhamente eufórico, como se algo me tivesse sido revelado…É essa alegria (ou pelo menos, um seu reflexo) que eu procuro todos os anos nesta quadra, noutro hemisfério - quando, à noite, muitas vezes o que sobrevém é o frio, o desconforto e a melancolia.
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

fala do ex-recluso



Como no ano passado assinou de cruz e indultou um infeliz que andava a monte, Cavaco neste natal não fez por menos: das cerca de seis centenas de propostas de indulto que o ministro da Justiça lhe pôs à frente, o Presidente assinou apenas seis!
O que faz deste o ano em que a Presidência concede menos perdões de pena, pelo Natal.
Mas ofereceu gravatas.Boas Festas aos happy few!Quanto ao boneco, é um velho desenho (que ficou inédito), do tempo do jornal A linha do Oeste, que agora refiz no paint e ao qual acrescentei o chiste. E a gravata.
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terça-feira, 18 de dezembro de 2007

improviso nº 7


Creio que a improvisação vai ficando cada vez mais deliberada.
Trata-se de testar os limites da comunicação, unicamente através dos seus artifícios.
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Os sítios dos outros

No telejornal do Daniel Abrunheiro, ficamos a saber (entre outras coisas), o que o pai adoptivo da Esmeralda devia perceber, para tudo lhe correr melhor.


Pitigrili conta e mostra alguns presentes envenenados, emblemáticos das peculiares ajudas à África. E outros negócios em expansão.

Ferreira dos Santos explica que a economia não arranca por causa destas prestações dos nossos empresários.


Ah, e vejam este apontamento do natural de Kap, o cartoonista do La Vanguardia, de Barcelona.

sábado, 15 de dezembro de 2007

O poeta da curva simples


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(caricatura de Fernandes)


Não é ângulo reto que me atrai.
Nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual.
A curva que encontro nas montanhas do meu país, na mulher preferida, nas nuvens do céu, e nas ondas do mar.
De curvas é feito todo o universo. O universo curvo de Einstein Oscar Niemayer

Hoje, Oscar Niemayer faz 100 anos.O homem pensa que a linha curva é a distância mais bela entre dois pontos.Ama os rios e as mulheres e as montanhas e as nuvens e as ondas do mar e o Brasil.
Não dá muita importância ao trabalho que o consagrou “o único brasileiro de quem se falará daqui a 500 anos”.
Está mais interessado “nos problemas sociais, na emancipação econômica e política do meu país, na luta contra a miséria e a ignorância, solidário com os que são oprimidos e explorados”.Ah! E não sabe que o tabaco mata prematuramente…

Acho que hoje vou acender um puro.
Puxar umas baforadas longas. Curvas.
Saravá, seu Oscar.

Eu gostava de desenhar. Eu lembro que quando era menino, eu começava a desenhar com o dedo no ar, e minha mãe perguntava: ‘o que você está fazendo?’. Eu dizia: ‘eu tô desenhando’, de modo que foi o desenho que me levou para a arquitetura”.

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sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Improviso nº2


Como as noites (e os dias) têm estado de um frio de rachar pedras, vou-me mantendo afastado do atelier. Mais chegado ao computador.
Foi assim que, sem assunto, nasceu este improviso. E agora o deste post de hoje.
E de mais meia dúzia deles.
Tudo começou como um divertimento com aquela solução gráfica muito utilizada na banda desenhada e nos cartoons para sugerir a comunicação entre personagens: os balões de fala.
De simples utensílios de recurso dramático, quis dar-lhes a honra de personagens. Testar a sua capacidade histriónica e dramática, daí que estes improvisos tenham algo de teatral.
Trata-se, no fundo e na prática, de comunicação através de expressão dramática.
São pequenos quadros de um humor gráfico, umas vezes ligeiro e despretensioso, outras mais negro ou infame
Espero que se divirtam tanto a vê-los, como eu a fazê-los.
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Ou então improvisem. Está um frio danado!!!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Siné

Toutes les opinions sont respectables.
Bon. C’est vous qui le dites. Moi, je dis le contraire.
C‘est mon opinion: respectez-la donc!
Jacques Prévert

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Maurice Sinet tem (desde Novembro e até Janeiro) uma retrospectiva da sua obra em exposição (em Vincennes)
Siné publicou o primeiro desenho (pago) em 1950.
Em 1955 venceu com o album "Complaintes sans Paroles" o Grand Prix de l’Humour Noir.
Depois “Foi uma espécie de ponta de lança de uma geração de humoristas e desenhadores franceses que nos anos sessenta revolucionaram o humor gráfico à base de romper convenções, tabus e outras palermices, fazendo desenhos ferozes, irreverentes, méchants, que escandalizaram as boas famílias burguesas.”
Fundou revistas contestatárias (L’enragé; Siné Massacre; HaraKiri) onde exprimiu à tripa forra bête et méchante e de forma livre, despojada, incisiva e implacável o seus anti-clericalismo, anti-colonialismo, anti-imperialismo e o seu anarquismo. Escrevesenhou um livro de memórias em sete volumes (!), Ma vie, mon oeuvre, mon cul!

A propósito da obra deste grande artista gráfico francês lembrei-me de um livrinho de 250 páginas (com a sua colaboração na revista Charlie Hebdo no biénio 80-81) que adquiri vai para mais de vinte anos em França e cuja capa ilustra este postal.
É bom saber que ainda mexe um homem que passou quase todo o tempo da sua vida a, segundo Arthur na contracapa deste livrinho, “massacrar todos os que a vida já maltratou: torcionários em uniforme, padres em sotaina, políticos em carne e osso, pedófilos em acção e sionistas desvairados” e que continua com vontade de “massacrar todas as viúvas de generais e órfãos eclesiásticos que lhe caem sob o lápis”.
Porque Siné desenha e escreve “comme on se gratte, parce que la vie fait mal”.
Salut, Siné!
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terça-feira, 11 de dezembro de 2007

efeméride



Há um ano atrás, na morte de Pinochet, o meu amigo António Agostinho editou-me este desenho no seu blogue.
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Como as cerejas

Hoje, aquela que poderia ter sido a companhia de teatro residente no CAE, dá um espectáculo na Figueira!
A Figueira da Foz poderia ter tido uma companhia de teatro residente, com uma programação própria, à semelhança de outras “capitais” como Tondela, Viseu, Viana do Castelo, etc.. Não tem. Mas tem… Casino!... Graças a uma iluminada visão estratégica aliada a um curioso interesse pela Koltura em lata, os nossos sábios e poupadinhos decisores da "gestão empresarial da cultura" recusaram, e a Mar-a-Mar teatro está hoje reduzida (!?) ao talento e voluntarismo do meu amigo Victor Filipe. Depois de resistir a muito disto e a todo um outro tipo de pulhices, Victor e a Mar-a-Mar aí estão.
Hoje à noite.
A dar pérolas aos porcos.
Às 22.30h no… Casino!

MERDA!



Kurt Schwitters


Como as Cerejas
Cinco Mistérios Dolorosos
um espectáculo baseado num poema
de
Samuel Beckett
e textos da novela Tic Tac
de
Suso de Toro
encenação e interpretação
de
Vítor Filipe
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sábado, 8 de dezembro de 2007

as boas intenções e o marketing

2007, Londres, “a capital da arte no mundo”(!!!).

Mark Wallinger é o galardoado com as 35 mil Libras deste ano do Prémio Turner. Mas o pobre perdeu dinheiro. É assim: o infeliz pagou a 15 pessoas que com ele colaboraram durante seis meses na obra, que custou 90 mil Libras. A “obra” está exposta na Tate Britain.
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Mark Wallinger e a instalação
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O júri do prémio, presidido por Christoph Grunenberg, director da Tate Gallery de Liverpool, reconheceu "o imediatismo, a intensidade visceral e a importância histórica" da instalação.

Segundo o júri, "a obra combina uma valente declaração política com a habilidade da arte de articular verdades humanas fundamentais".
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Damien Hirst, o formol, a vaca
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Damien Hirst, famoso pelas suas criações com animais mortos, venceu o Prémio Turner em 1995 com uma vaca esquartejada e conservada em formol. Agora, em companhia de Bono (o que é preciso é boas companhias, bem intencionadas) resolveu organizar um leilão de Arte. Adivinhem para quê.
Beneficiência, pois não era bom de ver!
Mas é uma cooisa em grande, vejam.
Estes “netos de Duchamp” ainda não sabem que DaDa está morto e arrefece. DaDa era um spleen, um “mal de vivre” e o seu sarcasmo e virulência eram traduzidos em violentas diatribes e graçolas, algumas de gosto duvidoso mas sempre contundente, contra o cinismo da ”teologia da guerra” e dos cânones vazios do académico gosto artístico da sua época. Funcionava. O êxito media-se pelo escândalo.
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DaDa morreu quando começou o merchandising dos objectos da sua gesta inconformista contra a palermice, isto é, quando se conformou com a reciclagem das suas piadas e estas “arrefeceram” e se tornaram um novo academismo.
Os senhores Wallinger e Hirst desconhecem o passamento do seu émulo. Continuam impertubáveis a vender a piadola equívoca e, agora requentada. Cheira mal. Não funciona (já não provoca escândalo, apenas riso), mas compensa.
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Não sei o que vocês acham, mas eu desconfio quando me querem “vender” arte a coberto de “boas intenções”. Sobretudo se as coisas nunca passam de uns patéticos arremedos, rudimentares e equívocos, caucionados por discursos artificiosos e literatos. Do que se trata aqui é de repugnantes acções de promoção. Publicidade. Marketing. Dinheiro. Revoltante manipulação das emoções das pessoas e do seu sentido da moral ou da justiça.

Presumo que seja este o tipo de brilho ou prestígio “cultural” que emana de Londres e tanto encanta as nossas liberais elites. Uma espécie de “Malucos do riso”. Só que em inglês. É mais fino. É Bem.

Nota
A propósito do tão falado “prestígio” dos Turner Prize, temo que a coisa não passe também do mesmo fenómeno de marketing: se se derem ao trabalho de ler os noticiários sobre a atribuição do Prémio deste ano, verão que de jornal para jornal a redacção da notícia é exactamente igual. A mesma agência de promoção fabrica a notícia e assim generaliza a opinião. “uma mentira repetida muitas vezes passa a ser verdade”. Goebbels tinha razão.
Puta que pariu.
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quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

desenho nº 7, Janeiro de 1981

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Este pequeno apontamento em acrílico, marcador e caneta sobre papel, trata de um devaneio, de uma compulsão… pelo desenho, e também de alguma imaginação.
O que compõe um (muito pouco académico) auto-retrato com 19 anos.
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