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terça-feira, 4 de dezembro de 2007

A S. Exª, o Sr. Presidente da República


Porque “a neutralidade ajuda o opressor, nunca a vítima.
O silêncio encoraja o torturador, nunca o torturado”
(Elie Wiesel)
(Cabeça de criança, lápis s/papel, 1985)
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PETIÇÃO para estabelecimento de medidas sociais, administrativas, legais e judiciais, que realizem o dever de protecção do Estado em relação às crianças confiadas à guarda de instituições, assim como as que assegurem o respeito pelas necessidades especiais da criança vítima de crimes sexuais, testemunha em processo penal.
ASSINE e DIVULGE http://www.petitiononline.com/criancas/petition.html
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Os conceitos recorrentes

Isto está a ficar preocupante. Não tem que ver apenas com a arte, estende-se cada vez mais a todos os domínios da vida em sociedade. A paranóia securitária (com as suas restrições às liberdades); a vertigem proibicionista, sanitária ou normalizadora (a muito aplaudida actividade da ASAE e a dos cruzados anti-tabaco, por exemplo); a cada vez maior susceptibilidade dos fundamentalismos religiosos e o sentimento de um políticamente-correcto sonso e cínico que aos poucos se apodera de tudo, são apenas pequenos indícios que acentuam um clima em muito semelhante ao que propiciou o trágico episódio da «arte degenerada», na Alemanha de 1937.

É da Alemanha, de onde vieram alguns dos artistas mais notáveis do seculo vinte, (ver aqui a lista), que chega esta «estória» :





1933 © Alfred Eisenstaedt

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Este é o mais célebre retrato de Josef Goebbels, publicado à época em todos os jornais do mundo: o rosto gelado de Goebbels numa conferência em Genebra, em 1933, captado pela objectiva de Alfred Eisenstaedt.
Um olhar carregado de um surdo e violento ódio pelo fotógrafo que o ministro da propaganda Nazi sabe ser um inimigo da ideologia nacional socialista, e pior, um judeu.
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Alfred Eisenstaedt nasceu a 6 de Dezembro de 1898 em Dirschau, na polónia. Mudou-se para Berlim com oito anos e aí viveu até que Hitler tomou o poder, em 1935, quando emigra para os Estados Unidos da América… escapando, por pouco, ao holocausto.
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domingo, 2 de dezembro de 2007

A deposição de Tiepolo: 1.5 M € + 20%



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Permito-me editar o seguinte comentário de um leitor da edição online do Públco a respeito deste assunto.
“O estado teve a oportunidade de comprar este quadro de Tiepolo, supostamente um dos mais valiosos (ou "relevantes", como está na moda dizer entre os historiadores de arte) em Portugal, directamente aos proprietários, a um preço bem mais razoável. Não o fez. Mas bastou uma notícia na televisão para, a pretexto do medo bacoco e provinciano de que uma obra de arte italiana "fugisse" do país, que um representante do Ministério da Cultura licitasse o valor mais alto alguma vez dado por uma obra de arte em leilão em Portugal (1.500.000 €) acrescido de 20% para o leiloeiro (será que este tem um primo que trabalha na RTP?). Entretanto os museus estão à míngua, e as igrejas e sítios arqueológicos são saqueados por quadrilhas internacionais. ” Sérgio Carneiro, Chaves
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sábado, 1 de dezembro de 2007

as boas consciências e o armário dos esqueletos

Agora que estamos em maré de exorcismo colectivo, apaziguamento de consciências, penitência ou acerto de contas com a História (vai já havendo uma quase unânime e politicamente correcta boa-vontade no que respeita à questão judaica), é lamentável que não aconteça o mesmo com outra questão, sempre esquecida ou escondida e, em todo o caso nunca assumida, a questão negra.
- Para quando um Memorial às vítimas do tráfico transatlântico de escravos?




Porão de navio negreiro - Johann Moritz Rugendas

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“Curtin, citado por Joseph C. Miller calcula que 40 % dos (mais ou menos) 10 milhões de escravos africanos desembarcados no Novo Mundo entre 1500 e 1870, iniciaram a terrível passagem do Atlântico nos portos do Congo e da costa de Angola, desde o Cabo Lopez (1 º Sul) até perto do Cabo Frio (18 º Sul).”
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Como nação que inaugurou a actividade e última a abandoná-la, após quatro séculos (1434-1876) de intensiva prática e correspondentes proventos, ficaria bem a Portugal um pequeno e simbólico tributo memorial.
A Santa madre Igreja, que abençoou a santa actividade empresarial, a comunidade judaica ibérica*, que a “empresariou” e dela tirou largos proveitos e o Estado português, cuja economia nela se alicerçou durante quatrocentos anos, poderiam comparticipar a penitência.
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Creio que ficaria bem na Praça do Império.
Em frente aos Jerónimos.
Por trás do monumento aos Descobrimentos.
E ao lado do armazém (showroom) Berardo.
Simbólico, não?
Eu seria o primeiro a assinar a petição.
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“Com os descobrimentos, Portugal entrou no negócio dos escravos. Após a passagem do Cabo Bojador, por Gil Eanes, em 1434, deixou de haver medo de navegar ao longo da Costa de África. Os navegadores começaram a regressar com dezenas de escravos, dos quais um quinto pertencia ao Infante D. Henrique. Assim em 1443, Lançarote, escudeiro do Infante, carregou 235 presas. E assim por diante até 1448, em que já tinham sido resgatados 927 escravos, como diz Zurara, na sua Crónica da conquista da Guiné. Pobre como era o País, nessa altura, os escravos serviam para fazer dinheiro. Os escravos da Guiné tinham de vir todos para Lisboa e muitos eram depois vendidos para Espanha com destino às Índias espanholas.
O negócio fazia-se então por peças de escravos. A peça era um escravo jovem de 15 a 25 anos, com a altura média de 1, 75 m. Três jovens de 8 a 15 anos ou três adultos de 25 a 35 só contavam por 2 peças. Duas crianças de 4 a 8 anos ou dois adultos com mais de 35 anos só contavam por uma peça. Não interessavam as cabeças, mas apenas o espaço que ocupavam e o que valiam para o trabalho.
As crianças acompanhavam as mães e eram classificadas em crias de peito e crias em pé (menos de 4 palmos de altura; com mais, eram moleques ou molecas). Mais antipático era o nome que davam às crias de peito na costa de Moçambique em que eram denominadas bichos nos documentos de embarque.”

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Ver aqui toda a história e até a contabilidade, com todos os pormenores sórdidos, na generalidade e na especialidade.
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*in Os Magnatas do tráfico negreiro, de José Gonçalves Salvador
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sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Esconjurar demónios

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Está a decorrer uma recolha de assinaturas online para a instalação, em Lisboa (Largo de São Domingos), de um Memorial às Vítimas da Intolerância, evocativo do massacre judaico de Lisboa de 1506.
Assine aqui.
Eu já assinei. Porque sim.
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terça-feira, 27 de novembro de 2007

Nocturno, maternidade com gatos/ 2004

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Esta tela de 2004 pertence a uma série de pinturas, de que já vos falei, e que dediquei a uma reflexão sobre o pintor e a pintura. O artista e a sua obra, não a mundana e algo frívola temática do artista e o seu modelo.
Começou aqui, continuou por aqui, e culminou aqui.
Tratam-se de exercícios de manipulação de imagens, cujas sombras ou reflexos se transferem e se cruzam de plano em plano e sucessivamente se transfiguram numa representação ilusionista. Com todos os seus sentidos, duplos (e dúbios).
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sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Pacheco, o pessimista irrequieto


Só se pode ser pessimista e agir como pessimista, até porque a ideia de que os pessimistas não fazem nada é típica dos optimistas na sua beatitude José Pacheco Pereira
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Esta espécie de efígie, ou caricatura, saiu-me assim, abrupta, depois da surpresa que foi a leitura deste texto, assustadoramente lúcido - vindo de alguém ligado a um aparelho partidário dominante, estrela da comunicação social “reverente”, enfim ao milieu, ao reino dos good felas

“(…)Portugal está cheio desta ordem do mando, como há muito tempo não se verificava. Ela está no PS, no PSD, no PP, no PCP e no BE, ela está no Governo dirigido por um conducator tecnocrático, autoritário e vingativo, para quem a liberdade e a democracia são valores menores subordinados à eficácia e ao culto do progresso, ela está numa comunicação social reverente e cada vez mais condicionada por agentes de comunicação profissionalizados, ela está numa economia tão dependente do Estado e do governo que se organiza mais para a influência junto ao poder do que para a competição, ela está numa sociedade civil tão dependente que não gera espaços de liberdade.QUEM FICA MAIS POBRE DEVAGAR ACEITA CADA VEZ MAIS O MANDOPorque é que já estivemos melhor e agora estamos pior e há retrocesso? Porque estamos a ficar mais pobres, com menos esperança, mais presos ao pouco que temos, mais confinados ao mesmo espaço minúsculo, todos em cima dos bens cada vez mais escassos a patrulhar para que os outros não fiquem com eles. Estamos a pagar o preço de um modelo “social” único, de uma Europa única, de um pensamento único que racionaliza este caminho para a pobreza como não tendo alternativa e pune a dissidência.Só se pode ser pessimista e agir como pessimista, até porque a ideia de que os pessimistas não fazem nada é típíca dos optimistas na sua beatitude.”20/11/2007 - 10:48 (JPP)
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quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Desenho 4, Janeiro 1982

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Neste, um pequeno apontamento de uma odalisca de Matisse e um estudo, todo em volume, de um torso feminino.
Ainda Henry Moore e reminiscências da escultura africana.
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terça-feira, 20 de novembro de 2007

A prova é Tintoretto, Jacopo

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Se se derem ao trabalho de ler esta notícia, terão uma dimensão da indigência vegetativa das elites “culturais" deste país, onde as descobertas são sempre feitas por acaso, “A tela foi “descoberta” quase por acaso. Manuel Morais, especialista na música do período maneirista, recolhe-se de vez em quando em Singeverga para trabalhar com tranquilidade e, em Abril passado, deparou ali com esta “Adoração dos Reis Magos”, que o deixou estupefacto. Ficou imediatamente convencido de que estava a olhar para um Tintoretto e informou o seu amigo Vítor Serrão, que se encontrava justamente no Museu do Prado a ver a exposição dedicada àquele artista.” e as soluções, devido à comprovada ignorância, incompetência e impreparação autóctones, têm sempre que passar pelo recurso ao estrangeiro, “Portugal não tem meios para estudar seriamente a obra e defendeu que deveria ser criada uma equipa internacional para o efeito, designadamente com técnicos do Museu do Prado, em Madrid.”
Assim, no país da Inovação (& da propaganda que até já exporta bláblá tecnologia) este episódio Tintoretto apenas põe a nu o... óbvio.
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domingo, 18 de novembro de 2007

O (meu) fantas

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(aguarela e nanquim s/papel)
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Há anos atrás, tentei ir para além das experiências com a impressão no meu pequeno atelier de artes gráficas, serigrafia e publicidade. Levei a ênfase(!) criativa ao ponto de participar em concursos de ideias e soluções gráficas, cartoons, cartazes, etc., um pouco por todo o lado.
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Estas eram duas das minhas sugestões para a mascote do FantasPorto.
O concurso para uma solução gráfica de uma mascote do conhecido festival de cinema fantástico ocorreu por volta de 1992 ou 93, não me recordo ao certo, como também não me recordo qual a solução escolhida, e premiada. Não terá contudo sido muito “utilizada” no marketing de promoção do referido festival, porque dela não tenho memória.
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Da memória, e de entre os papeis do meu baú, resgatei estas duas tentativas que julguei, na época, se adaptariam bem ao espírito “enfant terrible”, fantástico, rebelde e bem-humorado que o festival pretendia dar de si e não tanto à coisa mais generalista, nem carne nem peixe, em que se foi transformando… para ir sobrevivendo.
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sexta-feira, 16 de novembro de 2007

A falta e o respeito

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Picasso, As meninas

“(…) por paradoxal que seja, o que a falta de respeito implica acima de tudo é um conhecimento aturado do objecto de agravo, sem o qual o respeito nunca poderia ter existido e a sua falta nunca haveria de encontrar expressão.”
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Confesso que não estou habituado a concordar ipsis verbis com algo que vejo publicado.
É o caso deste texto de João Paulo Sousa.
Com um temperamento muito céptico, desde sempre me vi confinado a ser uma espécie de caso isolado, contra uma corrente massificada de teorias politicamente correctas, quase unanimemente aceites.
Confesso que me irrito, e convivo mal com isso, com a atávica tendência para a aceitação de modelos importados.
Agora, a moda generalizada e bem aceite, é a adopção cega, canina e deleitada dos preceitos da cultura anglo-saxónica, desde as suas vanguardas artísticas e culturais aos modelos económicos. O ridículo disto vai ao ponto de, por exemplo, os pivots da informação televisiva referirem nomes francófonos, germânicos, russos, etc., com a pronúncia anglo-saxónica. Mas o ridículo estende-se já à grafia, por exemplo, a capital da China deixou mesmo de ser Pequim e passou a ser Beijing.
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Mas agora, quando toda a propaganda oficial prega a sacrossanta Inovação, (a Inovação passou a ser o credo da república e de toda a opinião publicada), deixem-me exprimir alguma perplexidade:
-Como se pode inovar o que quer que seja se não se conhece?
-Como se pode pretender o novo se não se conhece o dado adquirido?
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.Retomando o texto em epígrafe, como se pode “faltar ao respeito” ao passado se não se tem dele conhecimento?
Penso que em vez de se promover o facilitismo, a ignorância, a informação pela rama e a adopção cega de modelos importados, talvez não fosse má ideia investir mais no Conhecimento. No auto-conhecimento. A inovação virá daí. Não de cima. Nunca vem de cima.
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Mas receio que, como sempre, e como escreveu um dia Daniel Abrunheiro, ”vamos todos a caminho do esquecimento, essa doce praia.”
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quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Um esboço

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É Outono, quarto minguante.
Hoje de manhã, comecei um desenho. De um pessegueiro.
Olhem para ele, entre duas obras-primas, duas vetustas macieiras.
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quarta-feira, 14 de novembro de 2007

vejam bem

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A ministreza da cultura, srª drª Isabel P. de lima acha que "É de um provincianismo atroz pensar que só se qualifica a cultura mostrando o que é nosso. Isso é serôdio e provinciano".
Vai daí, para encantar basbaques pindéricos e o jetset da Caras ou quejandos, gastou uma pipa de massa nas rendinhas e ouropeis dos Romanov do Hermitage, fez um negócio asinino com o grossista madeirense da bolsa, o grunho berardo e, não contente, prepara-se para inaugurar mais três museus já em 2008.
Enquanto isso…
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segunda-feira, 12 de novembro de 2007

O nu e a máscara, 2006

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(acrílico s/tela, 80x100)

“a pintura é a arte de escavar superfícies”
Paul Claudel
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Nesta pintura, de 2006, embora ao nu e à máscara esteja atribuído todo o protagonismo do primeiro plano, é mesmo do fundo que vem (talvez) a revelação.
Do fundo, de muito para lá de uma superfície escavada de acordes de vermelhos intensos, laranjas, terras, rosas e ouro – há, num outro fundo, azul e negro, outro personagem, que parece observar.
O recorte, a contra-luz, da figura do artista que à porta observa a obra, será apenas um fundo literal, ou – como num jogo de espelhos, apenas uma imagem reflectida do pintor ou do espectador (vouyeur) que, assim, num ilusionismo perverso e manipulador é absorvido pela pintura? – verdade seja dita que, se um nu revela, uma máscara oculta ou, pelo menos, disfarça; dissimula.
Confesso que esta perversidade algo intelectual da “arte pela arte” já a perpetrei aqui, e aqui, e em outras ocasiões que vos mostrarei.
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Reconheço que o meu fascínio pelos enigmáticos, ocultos ou dúbios sentidos da imagem é uma questão de temperamento e também da minha devoção por artistas como Velásquez, ou de Chirico ou Picasso, cujas obras são exemplos manifestos contra a banalidade de todos os sentidos óbvios e literais.