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quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Hal 9000

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(estudo p/ AÚltima Ceia, Leonardo)

“Quando ouvimos os sinos,
ouvimos aquilo que já trazemos
em nós mesmos como modelo.
Sou da opinião que não se deverá desprezar

aquele que olhar atentamente para as manchas da parede,
para os carvões sobre a grelha,
para as nuvens,
ou para a correnteza da água,
descobrindo, assim, coisas maravilhosas.
O génio do pintor há-de se apossar de todas essas coisas

para criar composições diversas: luta de homens e de animais,
paisagens, monstros, demónios e outras coisas fantásticas.
Tudo, enfim, servirá para engrandecer o artista.” Leonardo

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Penso que Leonardo haveria de gostar.
Levou uma vida aventurosa, sempre em busca de um patrono que lhe patrocinasse os sonhos. Morreu amargurado, após ter servido quase toda a vida cortes sucessivas de patronos caprichosos, cretinos e sanguinários. O seu espírito inquieto e curioso e a sua imaginação prodigiosa não lograram nunca ver publicados os manuscritos dos seus desenhos, projectos, inventos, reflexões.
Por isso ele haveria de gostar de ver (graças à tecnologia), finalmente ao alcance de todos, uma das poucas obras que pode concluir. Aqui. Vão lá, mas por favor não procurem a maria madalena, o santo graal ou o dan brown.
O pobre Leonardo já teve a sua conta de imbecis.
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terça-feira, 30 de outubro de 2007

O vero, a sombra e o seu reflexo

Não haveria falsários se não houvesse falsos apreciadores de arte
Domergue

Há notícias assim. E segundo Alexandre Pomar casos destes são muito frequentes. Raras, só as denúncias. Não é muito grave(!), nas colecções americanas existem cinco mil Corot, quando este artista pintou menos de metade.
Mas pior do que o mercado dos quadros falsos é o mercado dos falsos artistas.
Hoje em dia existe um verdadeiro mercado de falsos artistas.
É assim, Bruno Munari, em Artista e designer explica: “Baseando-se sempre na incompetência de muitos coleccionadores especuladores, o astucioso negociante Inventa um artista, inventa uma assinatura, lança-a como qualquer produto industrial e o jogo está feito: este tipo de coleccionadores terá as suas peças autênticas, que vêm sempre assinadas, mas neste caso é o autor que é falso. Como distinguir este tipo de fraude?”
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domingo, 28 de outubro de 2007

De regresso

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Após uma arreliadora avaria, que fiquei a dever à nossa inefável EDP que, com a sua prestimosa incapacidade de fazer chegar um fluxo de energia constante e sem quebras, me abrasou o computador e o modem – eis-me de regresso à blogosfera.
Mas vim precavido: adquiri um apetrecho que me protege das insuficiências de uma empresa que até está cotada na bolsa de Niú-iorque.
Um muito obrigado a todos aqueles que não têm deixado de visitar este pobre sítio. Saravá.
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domingo, 7 de outubro de 2007

Estudo p/ retrato de V. Van Gogh, 1982

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(lápis s/papel)
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Este pequeno apontamento é o único "sobrevivente" de todos os estudos que fiz para um retrato de Vincent Van Gogh, que pintei por volta de 1987, salvo erro, e que posteriormente ofereci a um amigo, o pintor Paulo Diogo.
O desenho possui uma intensidade “silenciosa” e densa que falta à pintura, apesar da cor.
Do quadro, contar-vos-ei um dia destes.
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sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Nu deitado, 1992

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(acrílico s/cartão)
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Um apontamento rápido, “para limpar pincéis”. Pinceladas grossas e tonalidades algo saturadas. Da mesma época deste, deste e deste.
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quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O sítio do fumador

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colecção Telo de Moraes)


La pipe

Je suis la pipe d’un auteur;
On voit, à contempler ma mine
D’Abyssinienne ou de Cafrine,
Que mon maitre est un grand fumeur.

Quand il est comblé de douleur,
Je fume comme la chaumine
On se prépare la cuisine
Pour le retour du laboureur.

J’enlace et je berce son âme
Dans le réseau mobile et bleu
Qui monte de ma bouche en feu,

Et je roule un puissant dictame
Qui charme son coeur et guérit
De ses fatigues son esprit.

In Les fleurs du mal, Charles Baudelaire


Em tempos de azougada, higiénica, sanitária e mui profilática psicose com o fumo do tabaco e de outras substâncias igualmente voláteis, eis, em Paris-França, um sítio exclusivamente dedicado ao fumador e a todas essas substâncias que induzem paraísos artificiais ou tão só instantes paliativos ao inferno, todos os dias.
Baudelaire haveria de gostar disto.
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segunda-feira, 1 de outubro de 2007

o adivinho (estudo),1982

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Este pequeno desenho é o único “sobrevivente” dos vários estudos que fiz para uma pintura que executei em 1985, e que já não existe. Tratava-se de um perscrutador do futuro.
O assunto é a “leitura” de presságios nas entranhas de um animal sacrificado. Fascinavam-me, aos meus vinte anos, o “sadismo” e a ingénua brutalidade de algo que cheguei a presenciar, na infância.
Hoje, do “futuro” que tentava perscrutar na época, tal acto já não se me afigura sequer sádico e muito menos ingénuo. Apenas humano.
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sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A pintura e o mal


La peinture, dirá Claudel, n’est pas un art de surface mais de profondeur.
Elle doit montrer les «dessous», mettre «le regard à l’envers».
C’est une durée «congelée en êxtase», une jouissance du dedans vide.
Pourquoi n’y aurait-il pas une beauté interieure, une beauté creuse, une jouissance de la cavité? Jacques Henric

Há tempos vi-me instado a comentar livros que não mudaram a minha vida. Embora tenha achado o exercício patusco e rebuscado (a minha inteligência comezinha, prática e céptica não está habituada a dirimir assuntos tão putativos e académicos), tal não me impediu, no entanto, de reflectir no inverso. Terá havido algum livro que me tenha mudado a vida e influenciado, de algum modo, a matriz céptica e cínica da minha sensibilidade?
Pois bem, acho que sim.
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1983. Eu tinha pouco mais que vinte anos, estava em França e eram os primeiros anos Miterrand. Foi o anúncio, reproduzido acima, que vi numa revista que eu adquiria frequentemente, a Artpress, que me levou a adquirir, numa magnífica livraria, em Nantes, o livro que mudou a minha relação com a pintura, a arte e, por isso, a vida.
Este livro, La peinture et le mal, de Jacques Henric, perdi-o em 1985 numa das encruzilhadas da minha vida, não sem antes ter sido para mim um choque e uma revelação.
O livro é um enorme tratado de amor pela pintura e também um libelo contra a teologia das vanguardas e a sua doutrina, segundo a qual estas se sucedem na via inexorável da ”modernidade e do progresso reunidos”.
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Henric trata de Poussin, Ticiano, Watteau, el Greco, Cézanne, Seurat, Veronese, Degas, Malevitch, Picasso, etc., reflecte, sugere ligações, conivências, causas e consequências morais, sempre muito longe do discurso reverencial do esteticismo habitual de historiadores e conservadores de museu.
Nesta análise, estes artistas são tratados como contemporâneos, ”donc discutables, donc intéressants, pas en fetiches”. A pintura é aí encarada como afirmação do pensamento, uma filosofia, não como uma ilustração de época, como nas monografias rotineiras.
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Henric explana a teoria de que a pintura é um fenómeno católico (há grandes pintores protestantes, pois sim, mas não existe pintura luterana, sabendo nós da desconfiança do puritanismo, de todos os puritanismos, pela equívoca duplicidade da imagem) e como tal, a “sale besogne“ do artista é dar a ver, sugerir e mesmo apontar o mal, forçando os seus contemporâneos a encará-lo. O artista deve ter a consciência da “queda” (ou “pecado original”, ou "fim da inocência", o que se quiser chamar-lhe) e será tanto mais notável quanto mais, cirúrgica e explicitamente, escarafunchar na chaga viva dessa condição humana, caída. Mais ou menos como faz Paula Rego.
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Daí a demolição metódica e implacável que Henric faz de Duchamp, dos seus émulos e de quase todos os vanguardismos do século XX. A quem ele acusa de, com ligeirezas, boutades e piadas artificiosas haverem transformado a arte num imenso happening, onde nunca acontece nada a não ser o fogo fátuo do mais vazio entretenimento. Muito longe “de ceux qui arrachent les tentures et griffent les peaux trop bien fardées, comme Degas ou comme Picasso.”
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Nota: pesquisando na net, tomei conhecimento da sua reedição, este ano, em França. Não pela mesma editora nem com a mesma magnífica impressão sépia de um fragmento do “massacre dos inocentes”, de Poussin na capa. Nunca se pode reaver tudo…
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terça-feira, 25 de setembro de 2007

Paula Rego

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O Portugal dos pequenitos exulta com os grandes feitos.
Já foi assim com Mourinho, o grande resgatador da atávica mediocridade nacional.
Agora com Paula rego, a propósito da retrospectiva da sua obra em Madrid.
E é tanto mais assim quando as “consagrações” vêm do Reino Unido (ou, do mundo anglo saxónico) esses, para o comum dos tugas, paradigmas do bem, do fino, do desenvolvido.
Enfim, um momento Zen de pacóvios..
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O facto é que Paula Rego não é uma artista portuguesa. Já foi, mas “soltou-se”.
Ser português “à solta”, é coisa que, naturalmente, seria impossível por cá, no país do não faças ondas, da mesquinha normalidade e da sempre complacente mediocridade.
A sua capacidade desmistificadora, o seu atrevimento, as suas imagens subversivas e o seu inconformismo explícito nada tem que ver com o país dos contentinhos.
Ou sequer com o dos melancólicos.
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domingo, 23 de setembro de 2007

O pintor e o modelo, 1986

“Se pensarmos bem, há muito poucos temas. Estão sempre a ser repetidos por todos. Vénus e Amor transformam-se na Virgem Maria com o Menino Jesus, estes em Mãe e filho, mas o tema é sempre o mesmo. Deve ser maravilhoso inventar um tema novo. Van Gogh, por exemplo. Algo tão quotidiano como as suas batatas. Ter pintado isso – ou as suas velhas botas! Isso foi realmente algo importante.”
Pablo Picasso


Se pensarmos bem, há muito poucos temas. Estão sempre a ser repetidos por todos. Vénus e Amor transformam-se na Virgem Maria com o Menino Jesus, estes em Mãe e filho, mas o tema é sempre o mesmo. Deve ser maravilhoso inventar um tema novo. Van Gogh, por exemplo. Algo tão quotidiano como as suas batatas. Ter pintado isso – ou as suas velhas botas! Isso foi realmente algo importante
Pablo Picasso
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Eis um desenho, de uma série de Outubro de 1986, que achei entre inúmeros que fui acumulando ao longo dos anos, em pastas e que tenho estado a digitalizar para “animar” este sítio em "postais".
São todos apontamentos muito sumários e rápidos mas, agora que os encontrei, pode ser que se transformem em algo mais elaborado.
O tema é o pintor e o seu modelo. Os artistas desde sempre se socorreram de um reportório limitado de temas para desenvolverem a sua maneira.
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sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O novo estatuto do cão

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Normalmente faz-se um desenho para explicar melhor determinada situação.
Espero que este, de explícito não se tenha tornado indecoroso. Como a situação que pretende explicar.
Foi isto que me mereceu, à noite, o sórdido fruto da sessão da tarde de trabalhos da absoluta maioria dos nossos deputados.
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Nota -Faço votos para que os jornalistas não se ofendam com o facto de o seu papel ser aqui representado pelo cão. E a este as minhas desculpas por lhe ter dado, ainda que pelo tempo de um desenho, o novo estatuto de jornalista.
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quinta-feira, 20 de setembro de 2007

A espessura das atmosferas

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Para quem é um apreciador de Georges Simenon, eis um prato cheio.
Maigret: “um polícia que elucida como um certo romancista escreve, interessando-se preferencialmente pela espessura das atmosferas, características do meio e fraquezas dos personagens do que pela intriga, os indícios ou o suspense. Os melhores Maigret são aqueles em que nem sequer há assassínio.”

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Ferreira dos Santos


Conheci o seu trabalho há pouco tempo, apenas desde que me ligo a estas coisas dos blogues.
É desopilante a sua desregra libertária e o avacalhar constante, metódico e sistemático do politicamente correcto, que fazem dele um caso muito raro neste país bem comportadinho, temeroso, respeitador e disciplinado.
O que também explica, à saciedade, a ausência de perfis como o de Ferreira dos Santos entre os humoristas gráficos titulares de espaços “vitalícios” na dita imprensa de referência portuguesa. A todos, entre o não-faças-ondas rotineiro e a sabujice por convicção, falta-lhes aquele carácter subversivo que inquieta as consciências críticas e achincalha as complacentes. O que sobra a este notável artista gráfico.
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segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Abu Ghraib, Fernando Botero e a arte aplicada

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Quando uma grosseira e patética banalidade do futebol e um faits divers sórdido com ingleses finos se transformam em entretenimento nas primeiras páginas dos jornais, em matéria de reflexão na blogosfera e em preocupação na nossa classe política(!), é bom saber que ainda existem homens e artistas que, se preocupam com coisas tão despiciendas nos dias que correm, como a condição e a dignidade humanas.
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E por vezes, de fraca moita sai um bom coelho. Foi o que aconteceu com Fernando Botero.
Botero é um dos últimos grandes artistas do século vinte. O prestígio da sua obra adquiriu uma dimensão que já não necessita de provar. A sua idade, o seu estatuto milionário e a sua posição no mainstream e no circuito da arte internacional permitiam-lhe a discrição e até o descanso.
Mas Botero, conhecido por um imaginário aprazível de personagens bisonhas e “nonchalantes” (embora nada seja bem como parece aos idiotas) e por um ideário artístico aspirante à “harmonia” e à beatitude, redescobriu (veja-se o retrato oficial da Junta militar, da sua juventude), e já em idade avançada, a arte engajada.
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O velho maestro, além de se preocupar com a sua Colômbia natal, e de se meter em trabalhos por essa causa, resolveu pela mesma causa meter-se noutros trabalhos.
Executou uma série de pinturas e desenhos sobre as torturas que o exército norte-americano infligiu a cidadãos iraquianos, em Abu Ghraib. Pinturas que nenhum museu público norte- americano ousou ou quis expor, despoletando uma polémica sem precedentes na arte contemporânea dos últimos tempos, a respeito dos conceitos e propósitos da arte. (não por cá, que entre nós, a arte e a cultura só chegam às primeiras páginas dos jornais por absurdas obsessões de Guiness book e cretinos recordes de bilheteira e às preocupações da inteligenzia e dos poderes instituídos porque estes as entendem como sucedâneos ou mais-valias do turismo!).
Botero, aos 75 anos, entretém-se, reflecte e preocupa-se com os direitos humanos!
É verdade que Don Fernando não é um tonto e não se ilude quanto à influência que a arte possa exercer sobre a política, mas lembrando Picasso e Guernica, pode ser que no futuro, graças a Botero, o nome de G. W. Bush e dos Estados Unidos da América se vejam associados à tortura e a Abu Ghraib como o de Franco e dos nazis ao bombardeamento do infeliz povoado basco. “—El arte no tiene ningún efecto inmediato sobre la vida política. Pero con el tiempo tiene el valor de transformase en un testimonio o en un recuerdo permanente de algo que sucedió y de esa manera el hecho se perpetúa y no se olvida.
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Vejam aqui, o destino que Botero acaba de dar à colecção de 25 pinturas e 22 desenhos (que se recusou a vender), avaliada entre 10 a 15 milhões de dólares, e porquê.
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sábado, 15 de setembro de 2007

Thelonius Monk, round about midnight




Como um desenho, a traço preto sobre um papel branco.

Vejam como aqui os silêncios são tão importantes como os sons.

São como os “vazios” num desenho antigo oriental ou num arabesco de Matisse. Completam e preenchem de harmonia, a composição.

Ouçam como o piano percutido (nunca o piano foi, como aqui, um instrumento de percussão), desenha a melodia, como que reflectindo e hesitando cada nota, como o velho mestre cada traço.

Pressentem o Génio, no seu estado puro?

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