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segunda-feira, 16 de julho de 2007

nu reclinado com fundo japonês, 1992

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(acrílico s/cartão)
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Ainda dos estudos de nus da mesma época de deste, deste e deste.
Aqui, um contraste mais acentuado entre o tratamento ríspido dado à figura, executada em traços sobrepostos, angulosos, quase cirúrgicos e o suave e quase sensual décor de tonalidades rosadas. Tudo contra o fundo cinza do suporte, premeditadamente deixado a descoberto.
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sexta-feira, 13 de julho de 2007

retrato de minha avó, 1999

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(acrílico s/tela 100x100)

“Os únicos retratos credíveis são aqueles
em que há pouco do modelo e muito do artista”
Oscar Wilde

Esta pintura foi uma encomenda de Júlio Oliveira, presidente da Junta de Freguesia da Tocha. A ideia, de Mário Silva, era encomendar a 12 artistas pinturas originais para uma exposição e para editar um “calendário do século” (estávamos em 1999). Cada artista ilustraria o seu mês de nascimento
Como sempre acontece comigo, o tempo foi passando, uma tela quadrada e branca de 100x100 olhava para mim, a data da inauguração aproximava-se… e nada.
Na véspera, Filinto Viana alertou-me, preocupado, para a inauguração, que seria no dia seguinte. Nessa mesma tarde esbocei uns traços vagos do que seria este retrato de minha avó, ideia que já vinha acalentando há algum tempo, (embora não para esta finalidade). No dia seguinte ao fim da tarde concluí o quadro, que iria representar o mês de Agosto, ainda a tempo da inauguração, aonde chegou fresco…numa noite fria de Novembro. Compôs uma bela exposição, que a Junta de Freguesia adquiriu, embora o projecto do “calendário do século” nunca se tenha concretizado.
Foi assim que o retrato da minha avó foi parar à Tocha, terra que ela, com certeza nunca deve ter ouvido falar.
E é na Tocha que pode ser visto, no Salão nobre da Junta de Freguesia, junto das pinturas dos meus colegas Mário Silva, Michael Barrett, Capote, Chuva Vasco, Óscar Fragoso, Jacqueline Moys, Gervásio Luís, Sandra Ferro, Cruz Santos, Filinto Viana e Jorge Rodrigues.
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quarta-feira, 11 de julho de 2007

máscara grande, 1992

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(acrílico s/cartão)
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Da mesma época da grande máscara de boca redonda. O mesmo rigor geométrico. Contudo esta máscara grande surge algo desequilibrada. A almejada harmonia soçobra peranta uma, também deliberada, ausência de simetria. Instala-se uma vertigem de inquietação. O momento Zen da primeira torna-se, aqui, perturbador.
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segunda-feira, 9 de julho de 2007

o moringue negro, 2005

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(acrílico e carvão s/tela - 40x60)
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Uma variação da natureza morta com trevo de 4 folhas, dois anos depois.
A pintura, cujo esboço é visível, ostenta a mesma máscara, a fruta, a luva e o vaso de trevos, que se tornaram violetas. O moringue transformou-se num vulto. A sua silhueta sugere a toda a composição um dramatismo algo inquietante, explicitamente óbvio pela “presença em cena” de uma mão de gesso e de uma faca de cozinha.
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Este quadro, na sua superfície branca sulcada pelo gesto do carvão e preenchida por tonalidades algo glaucas e grisalhas, padece de uma certa secura de execução, mas explode no contraste surdo do terra e do negro.
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sábado, 7 de julho de 2007

vanitas com pomba, 2001

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(acrílico s/tela 40x50)
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Uma pequena tela para um motivo antigo.
aqui discorri sobre este assunto. Esta é mais uma variante, com os objectos de sempre: o crânio, a máscara, os frutos, o espelho e o pichel. E numa abordagem mais tradicional.
A novidade é a pomba, cuja presença e coloração dão ao conjunto um ar, talvez, menos funesto.
Ou mais sentimental.
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quarta-feira, 4 de julho de 2007

enigma com chave de ouro, 2004

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(acrílico e colagem s/tela – 5ox5o)
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Cheguei àquele ponto da vida em que a um artista já não basta, nem contenta, a simples e linear expressividade da manifestação plástica. É quando já se torna absurda a intenção de dar recados ou fazer bonitos. Questiona-se a fórmula, o motivo, a expressão - em todas as suas opções, o próprio olhar, a sua consciência e até a utilidade de tais propósitos.
Penso que isto deve ter que ver com maturidade.
Este pequeno quadro é o primeiro de uma série de pinturas que realizei no verão de 2004.
São trabalhos em que o verdadeiro assunto, para além da subjectividade ou objectividade do motivo, é a própria pintura.
Neles, procurei reflectir sobre a pintura, introduzindo o pintor dentro do quadro e o quadro dentro do quadro dentro do quadro, assim objectivando espaço e realidade, dentro e fora, confrontando-os com os fantasmas da imaginação.
“La vida es sueño”, pensava Calderón e embora este meu confronto seja com o real, salvaguardando as divinas proporções trata-se do mesmo grande labirinto em que Don Diego Velásquez nos faz perder (e que encontramos?) sempre que nos convidamos a visitar as meninas.
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domingo, 1 de julho de 2007

o grande limoeiro, 2004

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Tive a coragem de olhar para trás
Os cadáveres dos meus dias
Assinalam o meu caminho e eu choro-os
Uns apodrecendo nas igrejas italianas
Ou entre os limoeiros
Que dão ao mesmo tempo e em qualquer estação
A flor e o fruto
Outros dias choraram antes de morrerem nas tabernas
Espancados por ardentes ramos
Sob o olhar duma mulata que inventava a poesia
E as rosas da electricidade abrem-se ainda
Nos jardins da minha memória
Guillaume Apollinaire
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Já aqui referi a minha esporádica e pouco convicta relação com a paisagem.
Esta é uma grande tela para uma curiosa experiência. Um capricho. Trata-se de um quadro que eu quis para mim. Para a sala da casa, em Maiorca, para onde me mudei em 2001.
O motivo é um dos velhos limoeiros do quintal. A reprodução que podeis ver é parcial (as minhas aptidões com a fotografia não me poupam planos enviesados), pois não é visível a cercadura com motivos florais que envolve a composição e lhe dá um vago ar de tapeçaria.
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sexta-feira, 29 de junho de 2007

Retrato de Isabel, 1997


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(acrílico s/tela – 90x60)
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Este é o retrato que fiz de Isabel.
Se observarem atentamente verão a pequena Carolina, que fizemos juntos.
Hoje faz onze anos que casámos.
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terça-feira, 26 de junho de 2007

Natureza morta com trevo de 4 folhas, 2003

(acrílico s/tela - 40x60)

Nesta tela, retomei uma abordagem que tanta estranheza tinha inspirado, mesmo a um olhar avisado como o de Michel Barrett: a conjugação sem conflito, (sem a dissolução das formas, como no cubismo) de duas perspectivas, uma, plana e outra, uma espécie de vista aérea ou perspectiva cavaleira.
O Objectivo desta experiência? (é para isto que servem as naturezas mortas), talvez a tentativa de uma sensação mais completa, uma abordagem mais abrangente do visível, mantendo-se reconhecível.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Nu reclinado com risco verde, 1992

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(acrílico s/cartão)
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Da mesma época deste e deste. Trata-se de uma pintura a la prima, espontânea e algo improvisada.
Grande parte do suporte, um áspero cartão de cor acinzentada, não foi sequer totalmente coberta pelo colorido, suave e de contrastes atenuados, em tonalidades cinzas, pérolas e amarelo limão. A nota dissonante é de um risco verde, um acaso, que acabou por dar o nome ao quadro.
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quarta-feira, 20 de junho de 2007

A batalha do Huambo, 1993

(…)Huambo,
as belas cidades do Mundo contemplam-te com tristeza e silêncio,
débeis em face do teu pavoroso sofrer, tu que sofreste e ainda sofres tanto,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados com o sangue dos mortos,
as pobres e prudentes cidades, que se entregaram sem luta,
aprendem contigo o gesto do fogo.
Também elas podem esperar. (…)
Ernesto Lara (Filho), Carta para o Huambo, 1976

(acrílico s/tela 2,30x1.20)

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Esta pintura foi pensada e executada ao longo dos 55 dias do cerco que a cidade do Huambo sofreu, durante a guerra que se reacendeu em Angola, após as eleições de 1992.
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O quadro, de grandes dimensões, foi sendo construído ao longo desses 55 dias, fragmentariamente, à medida que iam chegando as notícias da voragem de ódio, destruição, bombardeamentos e carnificina que destruíram o Huambo.
Não é obra de propaganda. Tão só um testemunho pessoal, sofrido e indignado sobre uma tragédia que se abateu sobre uma cidade mágica da minha infância, a talvez pueril “Huambo dos morangais e das goiabeiras” de que falava o poeta Benguela Ernesto Lara Filho em 1976, numa “carta para o Huambo”, a propósito de outro cerco, dessa vez às mãos dos sul-africanos.
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A propósito da história trágica desta cidade mágica e mártir aconselho-vos este texto do jornalista, já falecido, Sebastião Coelho, um filho do “Ambo”.
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A qualidade deficiente da foto impede uma apreciação, com pormenor, desta pintura. Contudo, quem possa e queira, pode sempre visitar o Museu Municipal Dr. Santos Rocha, na Figueira da Foz e vê-la “ao vivo”.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Mistério, melancolia, bola de ténis e peras



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(acrílico s/tela, 40x60 - 2000)

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.La potenza intellettuale di un uomo si misura dalladose di umorismo che è capace di utilizzare Giorgio de Chirico


Giorgio de Chirico é um artista fascinante. A sua obra é das mais marcantes e fecundas do século que passou.
Italiano, a sua sensibilidade foi indelevelmente marcada por um certo espírito germânico, absorvido nas leituras de Nietzsche e Schopenhauer e na pintura simbolista da Europa central (de Chirico viveu e estudou em Munique).
De Chirico escreveu: “Schopenhauer e Nietzsche foram os primeiros a ensinar o profundo significado do “não sentido” da vida e como esse sem sentido se pode transformar em arte”.
Essa “doença”, de que padeceu desde então, a melancolia, já fora partilhada por todos os artistas transumantes entre o norte da Itália e o sul da Alemanha, desde Dürer, Jacopo di Barbari, Giorgione e até Canaletto e Francesco Guardi.

O termo metafísico, cunhado pelo poeta Guillaume Apollinaire para definir a sua pintura, representava para ele tudo aquilo que se oculta atrás do aspecto quotidiano das coisas.

de Chirico nunca pintou sonhos, como os surrealistas, que o tiveram algum tempo como guru. Não o interessava a explicitação do irreal. O que o movia era “quebrar as relações de sentido entre as coisas, isso torna-as aterradoras”. Por isso a sua obra é mais hermética e refractária à interpretação.
Prodigioso criador de imagens inquietantes e paradoxais, de cidades desertas e congeladas no tempo, povoadas de uma luz crepuscular, misteriosas arcadas, sombras avassaladoras, manequins, torres e estátuas - de Chirico consegue a expressão do inquietante e do angustiante através de subtis e deliberadas incongruências de representação: perspectivas impossíveis e a introdução em cena de objectos estranhos e inusitados.
Fiz este pequeno quadro (usurpando o título e uma figura de um dos seus quadros metafísicos mais conhecidos, Mistério e melancolia de uma rua) em forma de homenagem, algo irónica, à melancolia daquele que foi um dos maiores criadores das imagens que fixaram a angústia e a inquietação do século em que nasci.
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sexta-feira, 15 de junho de 2007

retrato de Filinto Viana, 1999

(acrílico s/tela 39,5x92)
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Infelizmente não possuo nenhum registo desta obra, já “acabada”.
É mais uma das minhas incursões pelo retrato e, desta vez, a “vítima” foi o meu amigo Filinto Viana, que se prestou, num dia de muita paciência, a meia hora de pose e de conversa.
Esta foto, contudo, regista a pintura ainda numa fase não concluída. Posteriormente, acrescentei-lhe alguns pormenores, na parte inferior, que compõem e equilibram a composição. Cores fortes e contrastantes em pinceladas generosas, que remetem para a grande pintura deste meu amigo.


terça-feira, 12 de junho de 2007

mulher fumando e comendo maçã, 2002

(acrílico s/tela 40x60 )
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Este é um dos estudos que fiz para interior com mulata e poltrona vermelha. Leva uma data posterior porque foi já concluído em Maiorca, após a minha mudança. É portanto um estudo que ganhou autonomia.

Embora as tonalidades não remetam já para um interior soturno, esta pintura exala a mesma sensualidade agressiva e quase carnívora.

O contraste entre a inocência límpida e plana do azul do céu e a morbidez amarelada e sinuosa da carnação é mitigado mas ainda assim estridente. Como um acorde dissonante (a plenos pulmões) numa trompete com surdina.
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A referência picassiana é óbvia e iniludível.

domingo, 10 de junho de 2007

Mulher sentada com um cachorrinho triste

(acrílico e carvão s/tela 60x81 - 2000)
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Gosto bastante desta tela.
É um grande desenho colorido.
E gosto dos vestígios do gesto.
O traço é espontâneo e livre, e a composição sólida e simples.
A cor apenas um apontamento.
Sempre apreciei o rigor da linha clara de Ingres naqueles seus retratos de damas burguesas com os seus cachorrinhos bem comportados, de frente ou a 3 quartos.
Mas como os tempos clássicos já não são o que foram, a mim fugiu-me o traço para a derisão e à senhora os olhos um para cada lado, o que, se não abala a pose ou a dignidade, inquieta o espectador. Mas valeram-me as mãos (é nas mãos que se reconhece a mão, dizia o pai de Picasso) como grandes garras, que seguram o assustado cachorrinho quase tão bem como equilibram a composição.
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sexta-feira, 8 de junho de 2007

auto-retrato, 1985

(acrílico s/papel s/aglomerado, 100x83)
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aqui abordei as questões da auto representação. Desta vez, retomo o tema, a propósito deste, que julgo ser o meu primeiro auto-retrato. Tinha 23 anos, algum talento, muita ingenuidade e pouca paciência.

E mostro-vos, de Giorgio de Chirico, (um pintor fascinante, de quem vos falarei um destes dias), um autoritratto que eu não conhecia e descobri na net recentemente, para que o compareis com o meu (não é pretensão, é desvario!) nas suas analogias e no nosso comum enlevo com as virtualidades da dupla auto-representação.


Mas o que leva o artista a auto-retratar-se? A vaidade? O orgulho? Porquê a necessidade de criar essa espécie de versão oficial de si próprio?

O pintor sabe, por dever de ofício, que as imagens não são apropriáveis, isto é, têm sempre sentidos incontroláveis. Aí está toda a história da arte, das ideias e da comunicação para o demonstrar (porquê o horror que todos os totalitarismos e cultores do absoluto manifestam pela imagem representada?)

Como alguém disse, toda a puta, mesmo velha, tem as suas ingenuidades. O artista (sobretudo quando jovem, mas não só) também tem os seus pueris devaneios de “controlo” sobre as imagens que produz.

Eu creio que o verdadeiro motivo dos grandes auto-retratos da história da arte é a própria Pintura, num ensejo, patético e vão, de controlo sobre os sentidos da sua própria (auto) representação.
As Meninas, de Velásquez, por exemplo, ao qual Luca Giordano chamou a teologia da pintura, travestido de muitas outras intenções, o “melhor quadro do mundo”, é também o mais espampanante auto-retrato do mais modesto dos pintores.

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Ah, e deixo-vos uma referência crítica a este meu quadro, publicada em 1985 num jornal da Figueira da Foz, por alguém que não conheço mas a quem agradeço, onde quer que esteja, (ainda vai a tempo) a benevolência e a vista grossa.
Um caso à parte é Fernando Campos, apresentando três quadros que imediatamente se impõem ao olhar mais distraído, ao revelar um domínio sólido dos processos da cor e da forma, mais evidente talvez no fascinante auto-retrato em que a imagem do artista se metamorfoseia no seu fantasma enquanto das manchas de cor surgem timidamente as flores – o verdadeiro retrato de um auto-retrato.”
Vicente Neto in O Figueirense, 5/7/85
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terça-feira, 5 de junho de 2007

bacanal

natureza-morta com máscaras e frutos
(Acrílico s/tela 53x45 - 2002)

Um divertimento. Uma composição algo sardónica, como compete às mascaradas.
Um amigo, o pintor Jean-Baptiste Garon, viu neste quadrinho algumas afinidades com James Ensor e o seu sarcástico mundo non-sense de máscaras humanizadas. E é bem capaz de ter alguma razão. Existe latente, nesta imagem, um certo espírito flamengo, subversivo e carnavalesco.
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segunda-feira, 4 de junho de 2007

interior com mulata e poltrona vermelha, 2001

(acrílico s/tela 50x70)
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Existe nesta pintura um grau de crueldade que deriva, em certa medida, das Meninas de Avinhão.
Este é um quadro de bordel, como o de Picasso e muitos de Toulouse-Lautrec.
Só que, ao contrário do baixinho, eu, à imagem do jovem Picasso, não possuo a sua predestinação suicidária nem amo as putas mais do que a mim mesmo.
Picasso porque produziu a sua obra-prima assombrado pela perda, na angústia da pandemia do seu tempo, a sífilis.
Eu, ai de mim, porque quis, através dum registo quase caricatural e do recurso a uma paleta de contrastes no limite do expressionismo, exprimir outra espécie de pavor, de outra espécie de pandemia, que nos assombra a todos e se dissimula nas ilusões do “amor” mercenário.
Deste conjugar a caricatura com uma paleta expressionista resulta esta crueldade implícita e inquietante. O pungente disto sobressai da fractura entre a compaixão devida e uma inconfessável mas notória repulsa.
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quinta-feira, 31 de maio de 2007

interior com 4 bananas, 1999

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(acrílico s/tela - 53x45)


na moral, a boa vontade é tudo; mas na arte não é nada
Schopenhauer
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Sempre me fascinaram as naturezas mortas barrocas. O ambiente soturno, grave e a iluminação caprichosa. E na mesma medida me enfureceram a abundância de pormenores e a lição de moral, essa absurda pretensão da pintura.

Este é um bodegón algo barroco, mas quase minimalista: “sem anjinhos nem baboseiras”.
É, de algum modo, uma composição de género, mas laica, sem pretensões edificantes nem transcendências mirabolantes.
Com algum cinismo e outro tanto de poesia.

Trata-se de 4 bananas num interior escuro, tão escuro que a única iluminação irradia dos 4 frutos. Pousados juntos sobre uma superfície lívida, como uma mortalha.
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terça-feira, 29 de maio de 2007

Suzana e os velhos, 1988

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O primeiro público de um artista é sempre o que é constituído pelos seus pares.
O meu trabalho tem, felizmente desde o início, contado com a apreciação dos meus colegas. São inúmeros os meus trabalhos que foram adquiridos, ou trocados, a seu pedido, por, e com outros artistas.

Já da parte da crítica, embora não me possa nunca queixar de incompreensão ou apreciação negativa, o que registo (com pouquíssimas excepções) é uma ignorância indiferente e olímpica. Mas conhecendo o milieu da coisa publicada neste país, é uma coisa que não me espanta tal como não me espanta o facto de deus haver criado as moscas.

Este quadro foi adquirido em 1989 pelo pintor Carlos Reys, da Marinha Grande, penso que num arroubo de generosidade.
Bem-haja, Carlos Reys, a sua benevolência foi responsável por mais uns anos de tentativas.
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