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terça-feira, 17 de setembro de 2013

campanha eleitoral - comunicado

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Hoje é o início oficial da campanha eleitoral para as eleições autárquicas.
Como já expliquei aqui, não sou imparcial.
Por isso mesmo este blogue também entrará na liça. 
Todavia, como não sei fazer discursos (cada um é para o que nasce), faço desenhos. A partir de hoje, editarei onze vinhetas (ou cartazes digitais, ou lá o que é - uma por dia até ao dia 27) com outros tantos motivos visuais para tentar convencer o eleitorado a votar (ou não votar) na CDU, a coligação que represento.

Quero no entanto deixar claro que este (modesto, ça va de soi) contributo gráfico para a campanha eleitoral em nada compromete a coligação em que me integro; busca apenas  esclarecer os eleitores das razões que me motivam.
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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O piropo

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"(...) Quantos se lembrarão de que, na Figueira, no antigo hotel Reis, nessa época, ao fundo da Praça Velha, estiveram hospedados, ao mesmo tempo, Guerra Junqueiro, Gonçalves Crespo, Cândido Figueiredo, Manuel de Arriaga, Bettencourt Rodrigues. Já não era um mero hotel de praia: era uma sucursal da Academia, uma espécie de Academia a banhos.

Foi num dos alegres jantares dessa estirpe de Júpiter que ocorreu, segundo se conta, este pitoresco episódio: na altura da sobremesa, entraram na sala de jantar duas senhoras ainda novas, bonitas, uma portuguesa, outra brasileira, que estavam com as respectivas famílias no hotel. Ao vê-las entrar, Gonçalves Crespo, levantou-se imediatamente, ergueu o copo e exclamou:
- Brindo ao belo sexo dos dois hemisférios!
Mas logo Junqueiro [Guerra ...], reparando que sob a blusa de seda de uma das senhoras arfavam dois seios rechonchudos, levantou-se, de súbito, bradando, de copo em punho, com a galante irreverência dos seus vinte anos [estava-se, portanto, em 1870]:
- E eu brindo aos dois hemisférios do belo sexo!" 
[Luiz de Oliveira Guimarães, in, I Centenário da Figueira da Foz, 1882-1982]

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Tudo indica que a esquerda fracturante e o activismo feminil, certamente à míngua de causas neste paraíso isento de iniquidades, pretendem legislar sobre os costumes. Vão avançar com uma proposta de lei para equiparar o piropo ao assédio. Criminalizá-lo.
Como a ortodoxia conservadora que governa esta pobre choldra é bastante liberal em matéria de costumes (isto é, não se importa de ceder aos avanços das minorias mais folclóricas) e como a coisa chega por via anglo-saxónica não me admira que colha.
Portanto 
contenham-se
pedreiros, homens de espírito, poetas
(enfim, a estirpe de júpiter).
Pensem bem
antes de verbalizarem os vossos arroubos mais galantes.

A partir de agora é para piar fininho.
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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

a princesa da matamba

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O dinheiro só é poder quando existe em quantidades desproporcionadas 
Honoré de Balzac

Afinal a princesinha do reino corrupto da Matamba não fez fortuna começando a vender ovos, como a própria confessou, em entrevista recente, a um meio de comunicação português - a dimensão da modéstia dos imensamente ricos é proporcional às suas fortunas, essa é que é essa.

Isabel dos Santos é uma investidora muito respeitada em Portugal por imensa gente bem, pelos media e até plas autarquias: (na Figueira da Foz, por exemplo, a simples menção do seu santo nome bastou para que, em assembleia municipal, se aprovassem alterações ao PDM para exclusivo benefício da Lusiaves, empresa na qual tem, naturalmente, uma participação).

Mas tarde ou cedo, neste país sabe-se tudo. Quanto mais não seja lendo a imprensa estrangeira.
Segundo a revista Forbes (uma publicação norte-americana que se dedica à árdua tarefa de recensear os milionários no mundo) a fortuna de Isabel dos Santos, deve-se afinal à extremosa generosidade de seu pai, o estadista perpétuo do reino corrupto da matamba (sobre quem já me debrucei aqui).
A popular revista explica tim-tim por tim-tim (pela pena do jornalista angolano Rafael Marques de Morais, de quem também já falei aqui) como se faz uma fortuna de três mil milhões de dólares num país onde setenta por cento da população vive com dois dólares por dia.


terça-feira, 16 de julho de 2013

para que se saiba

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Quando tudo aquilo que julgamos decente está em risco (até mesmo um futuro digno para os que mais amamos), já não há alibis morais para a imparcialidade cautelosa, o voyerismo cínico ou a pusilanimidade calculista. É chegado o momento em que até o mais recalcitrante dos indivídualistas não tem o direito à liberdade moral da indiferença. 
Mesmo alguém como eu, um artista habituado a observar os factos com o cepticismo distanciado, mas apesar de tudo cómodo, dos que deixam testemunho, deve fazer algo mais efectivo – participar - tomar partido.
Foi o que fizeram outros, muito maiores do que eu, antes de mim: Goya, pela razão, David, pela revolução; Courbet, pela comuna, Picasso, pela civilização (e todos contra a barbárie, que é o que se aproxima).
Pela primeira vez na minha vida, aos cinquenta anos, terei uma participação activa na política, para além do voto (de que nunca me abstive nem usei em branco). Serei candidato por uma das listas concorrentes às próximas eleições municipais na Figueira da Foz. Quero poder responder a minha filha agora adolescente, de cabeça levantada quando ela mo perguntar, de que lado estava quando tudo se desmoronava e o que fiz quanto a isso.

Outras razões dessa decisão são o que tento explicar no texto que se segue, que espero sucinto e suficientemente claro, eloquente e por isso distinto dos linguados dúbios e sofismáticos de sua eiscelência o pguesidente da guepública. Todavia, à sua semelhança, também o farei publicar (para quem prefira) na minha página do Face-Book.

Breve Declaração Política
(com alguns àpartes e uma nota de rodapé)
em que se explica
a quem interesse e ao povo em geral
porque me envolvi na política
e me achei candidato pla lista dos comunistas
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Sou um filho deserdado e céptico dos ideais da revolução francesa. Desprovido de convicções (sou mais de percepções, ou sensações), não acredito em nada. Nem num ser supremo, como Robespierre; nem nas maravilhas da ciência e da técnica, como os ingénuos; nem nos benefícios da caridadezinha, como os tontos; nem nas virtualidades dos mercados, como os velhacos; nem sequer (ai de mim) na exequibilidade da igualdade entre os homens, como Babeuf e os comunistas (isto apesar de, racionalmente, concordar que sem a igualdade a liberdade e a fraternidade não são mais do que duas tristes falácias absurdas).

Sendo um cidadão perplexo porém assertivo, talvez incómodo (tenho opinião e não me importo de a usar) e estando-me vedado o acesso aos meios de comunicação tradicionais (et pour cause), aproveitei a simplicidade de acesso às novas tecnologias da informação e criei um blogue que é uma espécie de diário pessoal e veículo de divulgação do meu trabalho (sou artista plástico) e da minha opinião, reflectida, sobre este e aquilo a que Mário Dionísio chamava “o rumor do mundo”. Aí escrevo, e assino em baixo, exactamente o que penso, sem pruridos nem complacências, sobre tudo o que me ocorre: da vida, do desenho, da arte, da beleza, da justiça, da cultura, do humor, da viagem, da amizade, da liberdade de expressão, da fealdade, da estupidez, da morte.

Todavia, embora me manifeste frequentemente também sobre política, nunca participei nela activamente. Nunca - jamais - militei em qualquer organização nem desempenhei qualquer cargo público, eleito ou por nomeação - porque nunca me convidaram e porque não sou de me oferecer (o bom-senso e uma consciência aguda das minhas limitações têm-me impedido constantemente de o fazer). Isto não é sequer um traço de carácter, apenas um reflexo de temperamento: não sou de grupos - nunca fui escuteiro, nem da mocidade portuguesa, tampouco jotinha numa associação de estudantes e nem sequer fui à tropa; não sou sócio da Naval, nem do Ginásio, de nenhuma das filarmónicas, nem sequer dos Bombeiros e não dou para o Banco Alimentar (enfim, dou mas não me orgulho disso. Só o faço quando me sinto demasiado deprimido e impotente para fazer algo mais efectivo pela justiça).
Sou, sempre fui, um caso isolado. Um caso à parte, um outsider. Aquilo a que se chama um independente.
Não sou todavia um pária anti-social: já fundei uma empresa, uma revista de humor, uma cooperativa cultural, um jornal de informação, até uma associação de artistas. Tenho cinquenta anos.

Posto isto digamos que o meu campo ideológico natural se situa nessa região a que genericamente se chama Esquerda - mais precisamente algures à direita de Babeuf e à esquerda de Robespierre ou vice-versa, já não sei bem - em todo o caso é nesse juste-milieu que penso que está a virtude, que é o terror dos inimigos da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.*

Nestes infelizes tempos que nos foram dados viver, a estupidez ganha terreno todos os dias espalhando a impunidade e um nefando lastro de injustiças e iniquidades. A incompetência e a venalidade na gestão do erário público atingem cúmulos nunca vistos e os mesmos de sempre, cujo objectivo único tem sido beneficiar-se e a interesses privados, assumem de novo aquela linguagem cínica, melíflua e acanalhada com que habitualmente logram as expectativas de um eleitorado já estupidificado pelo entretenimento cretino, pelo comentário crapuloso e pela informação parcial e manipulada mais difundidos.
Foi neste contexto que resolvi ignorar os pruridos de modéstia quanto às minhas capacidades e aceitei o convite que me foi feito pelos responsáveis locais da CDU (Coligação Democrática Unitária) para me juntar a eles na luta por dias melhores, uma cidadania mais igualitária e uma Cidade mais justa, enfim, por Vida mais inteligente.
É o mínimo que pode fazer alguém que não acredita em nada: juntar-se aos que acreditam numa ideia decente da vida em comunidade e sempre tiveram uma prática coerente com esse conceito.

Assim, o meu nome (e provavelmente a minha triste figura) constará na lista de candidatos da coligação aos orgãos de poder local nas próximas eleições municipais. Devo dizer que me agrada a moral dos comunistas – é de uma substância, surpreendentemente ou talvez não, composta em partes iguais pelas mesmas quatro virtudes cardeais dos antigos cristãos - ou seja, não é elástica nem é de plástico; exactamente como eu gosto. Talvez por isso, assinei voluntariamente um termo de responsabilidade (que eles exigem apenas aos seus militantes, não aos independentes) no qual me comprometo, em caso de ser eleito, a manter o cargo à disposição da coligação que represento; a não enriquecer com a política (o remanescente do que auferir no exercício desse cargo que exceder os meus actuais rendimentos será canalizado para um fundo em benefício de freguesias ou concelhos com eleitos da CDU) e a defender exclusivamente os pressupostos do seu manifesto eleitoral.

Aos meus adversários políticos, a quem considero que apesar de tudo devo lealdade - mesmo àqueles que se reúnem no eixo que se identifica pela expressão imbecil de “arco da governação” (como se, pelo estado actual do país e da região, tal coisa pudesse sequer ser respeitável) – sinto que devo três reparos e uma satisfação:

. É verdade simsenhores que somos do contra, como nos acusam. Não podia, aliás, ser de outra maneira; somos decididamente contra tudo o que praticais e contra todos os que vos apoiam.

. Não é verdade nãosenhores que não tenhamos programa ou propostas construtivas. As nossas propostas são o reflexo invertido da vossa prática, isto é, o seu contrário (o inverso da destruição só pode ser edificante). Ou seja, o programa em si é virar tudo às avessas; a começar pela pirâmide social, virá-la ao contrário, invertê-la - só para ver como é que fica - depois, arrasá-la, claro. A ideia é, depois, construir tudo de novo e de outra maneira.
Trata-se, como vedes, de um “vasto programa”. Ambicioso. E com altos custos, obviamente, para vós - mas “não tenhais medo”; como decerto sabereis, pois acreditais Nele, “o que custa é que Deus agradece”.

3º. Também não é verdade que a lista da Coligação Democrática Unitária seja, como o rótulo que lhe pretendem colar depreciativamente, uma “lista de ortodoxos” - a simples verificação da inclusão de alguém como eu na sua lista de candidatos deve bastar para comprovar a extrema generosidade e abertura de espírito da CDU em relação às heterodoxias mais explícitas.

Pelo que a próxima vez que um qualquer pentelho lambe-cus (sei que isto é uma redundância mas, como Camões, gosto de as usar) utilizar o mesmo género de discurso esclerosado e simplório em textículos ou linguados mal-enjorcados, chilros e pretensamente jocosos para apostrofar aqueles por quem acabei de tomar partido, fica desde já notificado: agora também é comigo.
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Vale

Fernando Campos
Maiorca, Figueira da Foz, 16 de Julho de 2013


*nota de rodapé:
a Esquerda a que me refiro não tem nada que ver com aquela esquerda fofa que sente necessidade de se proclamar “democrática” (naturalmente para tranquilizar a direita e os mercados e garantir os patrocínios), não – a Esquerda em que me situo basta-lhe a acção participada dos cidadãos, não depende de patrocinadores e não procura tranquilizar a direita. Pelo contrário, é o seu pior pesadelo.
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terça-feira, 12 de março de 2013

Na Figueira da Foz.


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A Figueira da Foz já foi (antes do turismo de massas) um sítio de veraneio de referência (quando não havia outros) para uma certa burguesia muito selecta - no tempo em que, à volta, as massas viviam na mais abjecta penúria. 
Mas a visão risonha desse passado de festas, animação e cosmopolitismo deriva sobretudo dos efeitos de duas guerras (a de Espanha e a Mundial) cujos refugiados em trânsito enchiam (no final dos anos 30 e no início dos 40) as suas ruas de mundana animação, as esplanadas dos seus cafés de risos e os seus casinos de lucros.
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A verdade é que, nesses tempos, a maior parte dos figueirenses mourejavam na mais negra miséria - mulheres e crianças nas secas do bacalhau e nas conservas ou, homens feitos e rapazinhos, em estaleiros navais, nas minas de carvão, fábricas de vidro e de cimento ou então, num infame degredo esclavagista, na pesca do bacalhau.
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Entretanto, acabaram-se a pesca do bacalhau e a seca, as conservas, os estaleiros navais, as minas de carvão, a fábrica de cimento e até a da cal (recentemente os políticos locais cantaram hossanas em uníssono ao encerramento desta última, que assim desafectou valiosos terrenos que reservam - naturalmente em prestimosas parcerias publicóprivadas - a gloriosos empreendimentos turísticos).
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Mas a memória dos figueirinhas é selectiva e a Figueira da Foz de hoje vive, melancólica e docemente, da recordação exclusiva de um antanho de glamour tão ilusório quanto imaginado.
A verdade é que os figueirenses não são dados ao empreendedorismo. Salvo o hoteleiro. O turístico, claro. Como refere o filósofo e vereador local António Tavares, na sua obra “Arquétipos e Mitos da psicologia social figueirense”, “A Figueira da Foz está sempre à espera de algo que vem de fora”. Criar riqueza é uma coisa que não os assiste. Preferem servir os que têm alguma.
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Alugar-lhes quartos, por exemplo. O desenho reproduzido acima - de Cândido Costa Pinto, um figueirense - publicado no “Sempre Fixe” a 5/8/1937 (em plena guerra civil espanhola), de um humor negro talvez demasiado politicamente incorrecto para que hoje fosse sequer publicável, é um retrato impiedoso mas ainda fiel da mais perene mentalidade figueirinhas.
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sábado, 2 de março de 2013

Eu vou

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à praça da República em Coimbra, às 15h 
e levo a minha filha que tem 16 anos - porque penso que o exemplo da manifestação pública de uma mais do que justa indignação colectiva como esta é um acto de cidadania que complementa a sua educação cívica.
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Vamos porque pensamos que, no momento e nas circunstâncias que a sociedade portuguesa hoje atravessa, ir para a rua gritar é muito mais do que um direito - é um dever, uma obrigação, um irrecusável imperativo moral.  
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sábado, 1 de dezembro de 2012

A imprensa e eu





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A imprensa escrita já teve melhores dias.
A imprensa escrita local (Figueira da Foz e região) também. A irrelevância deste meio de comunicação está aliás à vista de todos, todos os dias.
Ao contrário do que porventura pensam ainda os infelizes detentores destes meios de comunicação social, hoje, os factos acontecem mesmo que não sejam noticiados. Infelizmente, a relevância dos acontecimentos está cada vez mais na razão inversa do destaque que lhes é dado por estes donos da verdade publicada. Ou seja, se nem tudo o que vem nos jornais é verdade, cada vez mais há verdades que não vêm nos jornais.
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Apesar do evento ter sido premeditada e olimpicamente ignorado por toda a imprensa local (incluídos os dois diários de Coimbra que supostamente cobrem a actualidade local) a inauguração da minha exposição Achados & Caricaturas foi um rotundo êxito: ontem, a partir das seis e meia, a magnífica sala de exposições do Tubo d’Ensaio d’Artes esteve cheia várias vezes como um ovo e, pelo que me foi dado ver, as pessoas (pelo menos até à hora do jantar) divertiram-se imenso.
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Por isso eu não sou dos que se juntam à litania colectiva pela decadência e morte anunciada da imprensa escrita, esse meio de comunicação cujos donos e colaboradores pensam que podem impedir a existência ou relevância de certos acontecimentos sonegando-lhes a difusão através da sua negação contumaz.
Dizem-me que o semanário O Figueirense vai fechar em Dezembro (eu sempre achei que aquele jornal acabaria por dar uma boa notícia) - já vai tarde. Quanto aos outros, e como não aprecio verdades parciais, se demorar muito, eu espero. 
Posso fazê-lo. Agora, felizmente, existem as redes sociais.
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Como referi à enviada do Diário de Coimbra (única representante da comunicação social presente), a arte como a entendo, não se dirige ao olhar e muito menos ao coração. Como Duchamp, também detesto a arte puramente retiniana e, ainda mais, a estupidamente sentimental. Eu aponto sempre ao olho mas o verdadeiro alvo, confesso, é o cérebro das pessoas – e, para a inteligência, o humor é uma arma infalível: torna fácil identificar as que atinjo. São as que se divertem.
(fotos daqui)
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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Da inevitabilidade do ser


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As coisas que um homem diz e as que faz dizem muito, por vezes tudo, sobre a espessura do seu carácter, ou seja, sobre a substância de que é feita a sua integridade, a essência do seu Ser mais profundo.
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Miguel Almeida acha que todos estamos condenados a obedecer a uma lei, mesmo iníqua. Que é uma inevitabilidade; uma coisa assim a modos que definitiva, como a morte. E até filosofa sobre isto e escreve-o nos jornais.
Eu sou de outra opinião.
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Eu penso que só um bandalho está condenado a obedecer a uma lei iníqua. É evidente que uma tal lei também condena um homem decente, mas apenas à desobediência.
Penso todavia que ser-se um bandalho não é uma inevitabilidade, é uma escolha; uma questão de carácter. E de liberdade. De livre-arbítrio, portanto. Também penso, por inerência, que a única inevitabilidade que uma lei iníqua impõe a um homem decente é o imperativo da sua revogação.
Mas não sou só eu que penso assim. Os redactores da Constituição da República Portuguesa também o pensaram e até o consagraram, no artigo 21º. Mas concedo que seja natural que, por ter sido eleito deputado pelo pêpêdê tal como outros palermas, Miguel Almeida o desconheça.
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Miguel, tal como muitos outros do seu meio, é daqueles cuja concepção de vida está alicerçada numa escala de valores balizada entre dois sentidos únicos: mandar e obedecer. Toda a sua vida aliás se tem resumido a isso mesmo, lamber cus enquanto espera a sua vez de, enfim, mandar fazê-lo a outros (o que fará, certamente, assim que puder).
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Miguel Almeida pertence àquela estirpe de políticos que acha que o facto de ter sido eleito pelo povo lhe dá um jenesécoá de distinto, de sensato, de sábio, de equilibrado e que lhe concede a suprema graça das musas filosofantes (deve ser por isso que assina merdas estultas nos jornais a justificar os mais esconsos conchavos), mas não dá. 
Existem aliás provas vivas disso mesmo. O actual presidente da república, por exemplo, foi impune e consecutivamente eleito pelo povo e no entanto continua a ser o que sempre foi: um merdas, um bandalho (só um bandalho acharia lícito e normal beneficiar 140% num negócio em dois anos; um homem decente, ao ser-lhe proposta tal trampolinice depreenderia logo que alguém ficaria a lerpar outro tanto e chamaria a polícia). - Ou seja, um merdas será sempre um merdas, sufragado ou não pelo voto. Isto sim é inevitável.
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No entanto, há algo no pensamento, digamos político, de Miguel Almeida, que me enche de perplexidade: se para ele a obediência às leis "não é opção, é obrigação", e é "inevitável", como a morte, porque não age Miguel com esta em conformidade com o seu, digamos,  pensamento? 
Dito de outro modo, se está condenado a morrer (como todos nós helas) porque não se mata já Miguel? Hum? Humm?...
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É claro que esta é uma pergunta retórica. Todos sabemos que Miguel não levará a assertividade aos limites da coerência filosófica.
O mais certo é que Miguel Almeida não só não irá morrer longe como é bem capaz de ser eleito pelo povo, aqui bem perto.
Miguel Almeida até pode fazer-se eleger presidente da república, como Cavaco.
Mas, tal como este, não deixará nunca de ser o que sempre foi. É inevitável.
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domingo, 22 de julho de 2012

José Vilhena


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Estando eu, um dia, às seis horas da tarde, sentado na minha biblioteca a pensar escrever um desses livros que tanta fama me dão, vi descer do céu um anjo que me disse: «José, porque não contas a história do Povo Eleito?


José Vilhena, in História Universal da Pulhice Humana

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Todos os povos da Hespanha estão na rua, falam uns com os outros, indignam-se, discutem e protestam ruidosamente contra as receitas de austeridade adoptadas por quase todos os governos da frente ocidental que claudicaram perante o internacionalismo monetário. 
Todos, menos um.
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O de Portugal está em casa. No sofá. Acomodado. Acha que não há alternativa credível.
No entanto, o povo da ocidental praia lusitana também está indignado. Mas falta-lhe, como referia Miguel Torga, “o romantismo cívico da agressão”. O que lhe sobra é uma espécie de cinismo individualista da passividade que ele expressa, aliás, em forma de assim: uma abstenção violenta de cariz compulsivamente onanista.
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-É pois em casa, no sofá, que em tardes de Julho e de canícula esta gente mansa segue atenta, e porque não dizê-lo apaixonadamente, pelo Face-Book, tudo o que se passa nas praças de Espanha.
-E, furtivamente deleitada, também não perde pitada, pela têvê, da época dos fogos - a temporada está ao rubro e as próximas serão de ar-ra-sar, como as intenções do governo de eucaliptalizar ainda mais o país, aliás, indiciam .
-Ah e ri-se, alarvemente, também plo Face-Book, das anedotas do relvas (é da índole da fraca gente deleitar-se com quem tropeça, com quem cai, dos infelizes e dos vencidos).
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Como dizia Camilo Castelo Branco “os portugueses não sabemos rir com espírito; gargalhámos com os queixos”. Não admira por isso que o 85º aniversário do grande José Vilhena não lhes tenha chamado a atenção.
José Vilhena é um humorista que toda a vida cultivou, coerentemente, um humor  implacável e sem eufemismos. Trata-se de um cidadão a quem nunca faltou o “romantismo cívico da agressão”; um português raro, portanto.
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Afinal foi este homem de carácter, que lhes fez o retrato mais bem acabado. 
Ora digam lá se o desenho que reproduzo acima (que catei na net ao acaso)  não é o retrato escarrado e escarrapachado de todo um povo que acredita piamente que não existe alternativa credível nem vida para além da Troyka e que o único caminho para a prosperidade é o empobrecimento geral.
Tá na cara.

Parabéns, Mestre. 
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sábado, 14 de julho de 2012

O balde de merda (pla cabeça abaixo)


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Nunca fui muito de nhêm-nhêm-nhês; este é um blogue conciso – sucinto - em traços e, helas, até em palavras. Se, por vezes, recorro ao vernáculo, é apenas como interjeição; quase nunca como adjectivo; e jamais como argumento.
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Apesar de tudo isso, esta imagem, que “fabriquei” ontem à noitinha, é o único comentário que me ocorre e apraz sobre as afirmações de Cavaco Silva a um jornal holandês.
Trata-se de um modesto mas sincero contributo para a alegre iconografia da república portuguesa - mais precisamente para a que concerne aos anos do consulado do infeliz atrasado mental que a representa na actualidade.

Mas é sobretudo dedicado – extensível, se bem me entendem - a todos, putaquiospariu-benzaosdeus, os que, com o seu voto, tornaram possível esta pepineira.
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domingo, 27 de novembro de 2011

Defender o Hospital



Bem sei que a defesa do que é belo, do que é justo e de direito é, cada vez mais nos dias que correm, perigoso.
Quem o faz pode fazer desencadear sobre si o anátema, o opróbrio social; pela doutrina em vigor, tal acto é visto como “coisa de comunas”.
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Por isso mesmo e para confirmar a minha heterodoxia, quero por este meio declarar o meu apoio incondicional (e, desde já, a disponibilidade deste humilde blogue) a este grupo de cidadãos que não quer, nem aceita, mais uma desvalorização do serviço público de saúde e a prevista desclassificação do Hospital Distrital da Figueira da Foz.
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A esperança num bordel



Libertar é transformar pela violência uma ordem social estabelecida por minorias. E por isso mesmo libertar uma sociedade, é fazer a revolução. É preciso libertar o Homem não só do esclavagismo colonial, mas ainda de qualquer forma de dominação social no interior de cada país. Nenhuma classe deve poder explorar outra. Agostinho Neto

Trinta e seis anos depois da dipanda, um dos maiores exportadores de petróleo e de diamantes do Mundo, permanece em 148º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano. Dois terços da sua população vivem com dois insalubres dólares por dia; o outro terço vive num luxo pornográfico e os crimes de sangue fazem parte da sua natureza: é a classe social que explora as restantes. É esta cúpula mafiosa que domina o poder e os “negócios” em Angola.
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Rafael Marques é um jornalista e activista dos direitos humanos que, corajosamente, denuncia o mundo obscuro destes negócios, os seus respeitáveis agentes, nacionais e estrangeiros (alguns deles são o estado português e a fina-flor da classe empreendedorística nacional) e os seus crimes de sangue.
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Depois de editar o seu livro “Diamantes de sangue”, acaba agora de apresentar queixa-crime na Procuradoria Geral da República de Angola contra nove generais. Diz que o jornalista pediu ao Procurador-geral da República, João Maria de Sousa, (o arquivador-geral-da-república local) que “se digne instaurar o competente procedimento criminal” e adiantou que lutará para que se faça justiça. “Este é um processo fundamental de resgate das instituições do Estado, de modo a garantir o acesso do cidadão à justiça”, disse ele.
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O egocentrismo messiânico de Agostinho Neto transformou-se numa anedota triste. A sagrada esperança do poeta amancebou-se com os Santos e os generais; e até com as suas amantes estrangeiras, entre orgias alarves de kuduro e sórdidos concursos de misses.
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Mas eu tenho uma esperança. Não sagrada mas singela. Eu ainda espero, eu apenas espero, que o exemplo cívico de Rafael Marques não o transforme, como num dos versos mais conseguidos do poeta-pai-da-pátria, em mais uma “Ofélia negra neste rio podre de escravatura”.
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sábado, 8 de outubro de 2011

The money talks

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A arte revela.
Para Miguel Ângelo estava tudo na pedra; bastava-lhe tirar o que estava a mais. “Depois, a pedra fala” - dizia ele..


Mas o jovem Dan Tague, americano de Nova Orleães, Luisiana, é um artista do nosso tempo. Por isso, trabalha com dinheiro. Com verdadeiras notas de dólar. Ele diz que está lá tudo; basta-lhe ocultar o que está a mais. Depois, o dinheiro fala.

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Os jovens americanos que ocupam Wall Street desde 17 de Setembro parece que estão atentos ao que Dan Tague, com o seu paciente trabalho de origami, acaba por revelar. Ou seja, o que realmente diz o dinheiro.

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Na imagem acima: We need a revolution, Dan Tague -2011, Archival inkjet print on rag paper, 45x42, edition of 5
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sexta-feira, 29 de julho de 2011

A expressão da liberdade




Los fanatismos que más debemos temer son aquellos que pueden confundirse con la tolerancia. Fernando Arrabal


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Embora tenha as minhas reservas quanto à liberdade de informar que se pratica em certos jornais, sou inteiramente pela liberdade de expressão, sem reservas nem limitações..


Compreendo que o exercício dessa liberdade seja inconveniente, ou constrangedor, para certas pessoas, mas concordo com o meu amigo António Agostinho: isto não pode ser verdade na terra de Manuel Fernandes Tomaz, o patriarca da Liberdade.
Eu não sei se é verdade ou se, como de costume, só contaram pra Jot’Alves, esse ícone regional do jornalismo de sargeta. Por isso mesmo, e sabendo o que a casa gasta, dou o benefício da dúvida ao executivo municipal e aguardo pelos próximos dias.

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Este blogue apoia sem reservas a liberdade de expressão de Custódio Cruz, um cidadão exemplar que representa legitimamente outros cidadãos livremente associados na defesa de direitos (inalienáveis) e interesses (legítimos). ,


Ah, apesar disso, e por causa das moscas, tomei a liberdade de cometer uma pequena intervenção no retrato do grande Thomaz que ilustra esta posta e de conceber o singelo manifesto - ao alto, na barra lateral - que os bloggers figueirenses podem, se quiserem, utilizar como banner (os adeptos da liberdade de expressão, claro).


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