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sexta-feira, 1 de julho de 2011

A cóltura do nabo




O secretário Viegas entrou a matar.
A tomar decisões estruturantes, pois então.
O lírio de Israel transmontano é todo pelas medidas estruturantes. Vai daí começou logo pela base, a estrutura, isto é, pela arte antiga. Agora vai por aí acima.
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Um retábulo de século XVI foi a leilão em Lisboa. A obra, uma pintura de Diogo de Contreiras, o “mestre de S. Quintino”, conhecida como o retábulo da capela do Porto da Luz, em Alenquer é, segundo o leiloeiro, “um dos poucos retábulos conhecidos do sec. XVI”. O director do Museu Nacional de Arte Antiga aconselha mesmo a sua aquisição pelo Estado, mas este, através da sua “secretaria da cultura”, já fez saber que não tenciona exercer o seu “direito de preferência”.
A base de licitação era de 125 mil euros; quase tanto como o que o município da Figueira da Foz, em aflitivo rigor mortis, perdão, orçamental, gastou com o foguetório do arraial de S. João. Mas o estado, em cilíciosa contenção de despesas, não gastará nem mais um cêntimo com Contreiras (um subsídiodependente que ficou a dever a sua formação, em Paris, à generosidade do nosso bom rei D. João III, tão injusta e aleivosamente acusado por Alexandre Herculano de ser um imbecil e o fanático responsável pela introdução em Portugal da Santa Inquisição, que tão bons frutos deu à cultura e à economia deste país).


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Ou seja, o que o terramoto de 1755 não fez pelo património em Portugal faz agora o secretário da cultura. Ou o mercado. Sim, porque com ele não há cá ”deixem-me trabalhar”. Com ele, é mais “deixem trabalhar o mercado”.
Se a cultura nesta choldra não merece sequer um ministério, pois já está entregue à tutela dos santos mercados, para que caralho precisa de um secretário?
Sempre se poupava mais um salário de uma figura triste.
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Ao alto, Calvário, de Diogo de Contreiras.


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terça-feira, 14 de setembro de 2010

O gosto dos contribuintes



Existe, no reino maravilhoso, delirante e repleto de muita e boa gente hospitaleira (beautiful people) que é o Portugal profundo, uma actividade que está, muito mais do que a arte, dependente do chamado “gosto dos contribuintes”. Trata-se da publicidade.
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O caso em estudo, (foto acima, tirada daqui) - trata-se mesmo de um case-study, como se diz em português académico - refere-se a um evento que ocorreu no passado fim-de-semana, em Maiorca, freguesia da Figueira da Foz. O acontecimento, de evidente cariz popular, foi organizado pelo Grupo Motard Senhores da Paciência com o alto patrocínio e apoio logístico da Junta de Freguesia local, da Câmara Municipal e da empresa municipal Figueira-Grande-Turismo.
.Devo dizer que, ao contrário de municípios como Alijó (com a sua Bienal Internacional de Gravura), Sernancelhe (com o seu Festival Internacional de Guitarra Clássica), ou Montemor-o-Velho, o município da Figueira da Foz não dissipa o dinheiro dos contribuintes em iniciativas elitistas. Pelo contrário. Tratando-se pois de um meeting de cariz cultural (teve striptease e cantorias), desportivo, social (teve também o alto-patrocínio de uma conhecida marca de bejecas e muito cumbíbio) e benemérito (a receita apurada terá sido, dizem, para benefício do núcleo local da Cruz Vermelha), e visto que contava apenas com o apoio logístico das entidades oficiais, a organização teve que recorrer ao contributo generoso do tecido empresarial da freguesia.
E é disso mesmo que trata a publicidade.
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O cartaz é o retrato feliz e literal do Portugal profundo e labrego, concebido à imagem e ao gosto do contribuinte (o tecido empresarial da freguesia está lá todo, enfileirado, como num verdadeiro retrato de família).
Presumo que seja isto a publicidade pacheca: uma coisa fiel (no espírito e na letra) aos critérios estritos balizados pelo grande pensador da Marmeleira.
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Adenda e correcção.
Corrigindo um erro imperdoável, o seu a seu dono: a organização do notável e lúdico evento em apreço deve-se, isso sim, ao inefável Grupo Motard Senhores da Paciência. À Junta de Freguesia de Maiorca ficou apenas a dever-se apoio: moral e logístico. Assim é que está correcto.
Na Figueira da Foz nunca se deve confundir traveira pai com traveira filho.
Vale.
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quarta-feira, 28 de julho de 2010

A cultura popular

Por vezes, as verdades que temos como adquiridas são confrontadas com factos, brutais, que as desmentem com a força toda de um uppercut da direita, um inesperado golpe baixo ou uma paulada na tola.
Pensava eu que a chamada cultura popular, e mais resumidamente a música dita pimba era uma reacção, espontânea como todas as reacções populares, à sofisticação e complexidade da música e da cultura ditas eruditas - uma espécie de contra-cultura. Pensava eu, pobre ingénuo (e não estava sozinho com certeza) que o sucesso deste género musical tão elementar como vulgar era unicamente devido à predisposição natural do povo baixo para a abjecção, a ligeireza e o pouco esforço intelectual.
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- Pois bem, não. Nada mais errado. Recentes constatações revelaram que o pimba tem sido subvencionado, de norte a sul do país, por autarquias de todas as cores, feitios e medidas (e perdoem-me as pessoas que ficaram esquecidas). Vozes autorizadas afirmam mesmo que este é um financiamento ilegal; o que torna muito mais do que duvidoso o seu tão propagado sucesso comercial. Isto é um balde de água fria no caldo morno das verdades adquiridas e pode indiciar que o povo come, não porque gosta mas sobretudo porque é à borla. O que, helas, também pode ser bastante elucidativo da estirpe da nobreza do povo desta nação valente.
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Contudo eu tenho para mim que o povo come o que come não porque tem fome e é de graça, mas sobretudo porque gosta de o comer. Os políticos de turno apenas lhe servem o prato cheio. Penso mesmo que essa vontade de comer e esse afã de servir perfaz aquilo que me atrevo a chamar um caldo de cultura alarve em que marinam todos, eleitores e eleitos. Só isso explica que o novo poder autárquico figueirinhas não tenha retomado um festival internacional de cinema de autor ou um festival de música clássica dirigido por Sequeira Costa, subsidiados por Aguiar de Carvalho(1) e muito criticados por serem elitistas, e tenha continuado a política de Santana e sus muchachos ou seja, a aposta estratégica no glamour do pimba. Senão vejamos: recentemente o mui distinto vereador da Cultura, em solene e compulsiva contenção de despesas, recusou energicamente um subsídio de 4.500€ à quase bi-centenária Filarmónica Figueirense (para restauro do palco da colectividade) e uns dias depois doou generosamente oito mil a uma tal de comissão de festas da Srª da Encarnação para pagar ao Quim Barreiros.
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Ao povo pois o que o povo gosta.
Parece que gosta de engenhosas e sofisticadas melodias a acompanhar versos brancos ou de pé quebrado em voluptuosas rimas com múltiplos, muito subtis e inesperados sentidos. Ah, e tudo sublinhado com o cheirinho atrevido de uns refinados riffs de acordeão.
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(1)-Político figueirense cujo legado eu esculhambei(2) voluntária, copiosa e infamemente neste post e ao qual estranhamente, ou talvez não, não registei qualquer reacção indignada por parte dos seus numerosos herdeiros e admiradores.
O que pode dizer muito da real relevância da cidadania na blogosfera figueirinhas ou, mais simplesmente, quão residual é, de facto, a influência deste blogue.
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(2)-(adoro este verbo; só uma língua como a portuguesa tem palavras assim feéricas e gráficas de tão... visuais.)
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quinta-feira, 29 de abril de 2010

Portugal e a cultura do nabo






O país inteiro salivou impressionado com a inusitada verve enciclopédica do deputado Aguiar Branco. No seu discurso do 25 de Abril, o nobre deputado conseguiu, entre um arroubo de erudição google e um assomo de um sentido de humor tão equívoco e tortuoso como sofisticado, defender o liberalismo mais esgrouviado com o recurso a citações de marxistas, leninistas, integralistas e até de cantores populares.
Trata-se do mesmo país que se revê, babado, na visão estratégica do seu chefe de Estado. Este visionário inspirado aponta o mar e as indústrias criativas e culturais como saída para Portugal. Nem mais. Este é, receio, o mesmo superdotado vidente que, quando primeiro-ministro, e obedecendo cegamente a “directivas comunitárias”, aniquilou as frotas pesqueiras e a construção naval; é ele ainda o mesmo ousado demiurgo que dando tanta importância à cultura, lhe retirou a dignidade de ministério, transformou-a em secretaria de estado e entregou-a de mão beijada a uma anta como Santana Lopes, com os resultados que se conhecem.
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É revelador que o culto que os portugueses prestam à cultura seja da mesma estirpe daquele que os merceeiros dedicam á honestidade: só o praticam quando compensa. Um caso paradigmático deste axioma é ilustrado aqui e aqui com pormenores escatológicos.
Ou seja, os portugueses são adeptos da cultura do nabo, não porque o vegetal seja rico em cálcio e pobre em calorias (ou pelo seus delicados sabor e aroma) mas sim porque têm esperança que na estrumeira do quintal lhes nasça um de proporções tão avantajadas que lhes permita ganhar um qualquer concurso idiota ou, sei lá, abrir o telejornal das oito.
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domingo, 21 de fevereiro de 2010

O “plano inclinado” do Direito


Honoré Daumier foi um dos maiores artistas franceses do século XIX. Foi um mestre da estampa, da litografia e um escultor e pintor de mérito. A sua forma de desenhar a chuva, a neve e os efeitos da luz anteciparam em vinte anos as descobertas dos impressionistas. Mas, para além disso, foi o “inventor” da caricatura política na imprensa. Foi o único desenhador gráfico a cumprir prisão em toda a História da imprensa francesa (em 1832, cumpriu seis meses porque desenhou o rei Louis-Phillippe como Gargântua) e, talvez por isso, a sua verve foi particularmente encarniçada com “les gens de la Justice”. A sua pluma transformou a figura do advogado no arquétipo do burguês cheio de vento e sem escrúpulos.
.Como não pensar em Honoré Daumier a propósito deste regulamento para um concurso de cartoons e caricaturas elaborado pelo Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados?
– O prémio é interessante, o tema aliciante e as condições sensatas, mas leiam as “notas finais” (ponto 9 e seguintes) e ficarão a saber que, comprando apenas um desenho, todos os outros (originais ou cópias) “ficarão a ser da propriedade plena do Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados para todos os efeitos (…) e que “qualquer reclamação será decidida sem direito a recurso”.
Trata-se do mesmo artifício capcioso e pulha utilizado há uns meses (para angariar legalmente ilustrações, desenhos e caricaturas praticamente “à borla”) por um dos maiores grupos económicos do centro do país aquando da fase de lançamento do seu “diário de grande circulação e prestígio”. Elucidativo, não? Já o meu avô dizia que “quem com putas joga o vinte, ou fica pobre ou pedinte”.
.Não deixo de achar curioso que tão distinta Ordem, um grémio de patuscos que se reclama como baluarte do Estado de Direito e “dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos”, continua afinal, em sua própria casa, 150 anos depois, a corresponder em traços gerais ao arquétipo fixado no cobre pelo buril certeiro do grande Daumier.
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-ao alto, os advogados, um soberbo esboço de Honoré Daumier.
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sábado, 16 de janeiro de 2010

O inspector-geral




“Uma minúscula autarquia de província vive o pesadelo da visita de um Inspector-Geral anunciada por carta a um presidente da câmara modelo de populismo, corrupção e ridículo.

Durante quase duzentos anos debateram-se opiniões sobre esta obra de Gogol. Estamos diante de uma sátira de costumes disse-se. De uma obra política?

Outros defenderam “é uma obra de dimensão metafísica”, uma obra moral, um exercício de fantástico e de absurdo onde o sonho, o medo e o remorso dominam.

Felizmente vivemos um tempo que entrelaçou Brecht com Stanislavski e Marx com Freud. Estamos livres para olhar para este impostor, estrangeiro, diabo, nada, com a liberdade de não querermos saber o que foi ele para Gogol, mas o que pode ser para nós hoje.

Para mim, se querem saber, estamos diante de tudo isso e de um escritor/artista a jogar às escondidas com o seu pânico. Mas sobretudo estamos num Baile de Máscaras onde ninguém é quem mostra ou, sequer, quem julga ser. No coração das trevas, lá mesmo onde o teatro acendeu uma luz. Uma obra que permite a actores e directores a realização de grandes trabalhos e ao público um arraial de gargalhada.”
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.Este texto, julgo que de Maria do Céu Guerra, faz parte da promoção da peça de Nicolau Gogol, que A Barraca teve em cena até (pelo que sei) Janeiro de 2009.
O Inspector-Geral sobe agora à cena na SIT (Sociedade de Instrução Tavaredense), em Tavarede, com encenação de Fernando Romeiro.
Conhecendo a tradição da casa e os critérios de Fernando Romeiro, esperam-se “grandes trabalhos” e, claro, conhecendo a peça, um “arraial de gargalhada”. É hoje, às 21.45h.
Nunca como agora foi tão "apropositada" a escolha de uma peça teatral: a chegada de O inspector-geral a uma terra com fortes tradições no teatro amador mas cujos poderes instituídos acabam de fazer uma, concerteza muito cultural mas desconcertante e algo abstrusa, opção estratégica pela Dança. (O protocolo também daria um belo título para uma peça. Seria, igualmente e pela certa, outro manancial de gargalhadas).
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Paulo Diogo no Tubo de Ensaio

O meu amigo Paulo Diogo inaugurou mais uma exposição de pinturas, desta feita no Tubo de Ensaio.
O seu trabalho continua estimulante, aliás no sentido da mostra do CAE. Contudo Paulo vai mais longe ainda na especulação sobre os conceitos de moldura e de superfície pictórica, e sempre com um humor refrescante e ousado.
A inauguração decorreu num destes entardenoiteceres* chuvosos da nossa melancolia.
Em conversa com amigos (fala-se de tudo nas inaugurações de pintura, até de pintura) a charla desaguou na crise, na arte, na Figueira, na crise da arte, na crise da Figueira, nas dificuldades que vivem os criadores artísticos e nos inexistentes hábitos culturais dos figueirenses.
Alguém lamentou que a classe endinheirada local, mesmo dentro do seu muito exclusivo inner circle, não cultive o gosto de oferecer Arte.
Logo alguém retorquiu que o gosto tem que ver com o hábito e este com a educação: de pequeninos, nunca lhes ofereceram livros e não os ensinaram a retribuir; os pobrezinhos nunca conheceram o puro deleite estético ou sequer a simples reflexão; entretanto cresceram e conheceram o empreendorismo.
Tornaram-se empreendedores.
E a Figueira tornou-se naquilo que Paulo Diogo, com mestria, ilustra nesta tela "aux couleurs criardes".
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*Palavra “roubada” ao Daniel Abrunheiro, com deferência.
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Adenda: Mas atenção que o novo poder autárquico, cônscio de que a crise económica é eminentemente um problema cultural estrutural - chegou à conclusão de que o único fenómeno estético ao qual a classe dirigente, e até o povo em geral, é sensível, é o balé (o que talvez configure uma atávica e inexplicável fascinação com o que pensam ser um epítome de elegância ou de distinção) - já tomou medidas que serão implementadas pela criação, no CAE, de uma academia de dança. O pugrama é algo retorcido mas pode ser que funcione.
Mas eu, como sou de um cepticismo impenitente, guardo algumas reservas. Parece-me um tanto arriscado e repetitivo: António Ferro já o tentou, com o “Verde Gaio”. Com os resultados que se conhecem.
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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A cultura da política





A verdade é um pouco mais complexa e é uma questão de cultura política.
Ou mesmo de cultura. Geral.
Na relação entre os mundos da política e da “cultura” existem tradições distintas, consoante o político (no poder) é de “direita” ou de auto proclamada “esquerda”.
No caso da “direita”, o exemplo paradigmático é sem dúvida o de Rui Rio, para quem artistas e outros agentes da “cultura” não passam de uns chulos do erário público, os chamados subsidiodependentes. Argumento que colhe, diga-se que com alguma razão, junto das massas populares para quem, vistos de baixo, os que estão próximos da mesa do banquete lambendo as mãos aos convivas são os que se aboletam com as melhores migalhas. Este político, por exemplo, prefere o apoio discreto e “desinteressado”, que aliás generosamente retribui, de artistas de gosto popular como La Féria do que o de “elitistas” como Pedro Burmester. A peculiar visão política de Rio não lhe permite aliás distinguir nenhuma diferença substantiva entre Burmester e Abrunhosa. Estes políticos têm uma concepção economicista da cultura. Como alguém disse a propósito de Rio: “quando ouve falar em cultura puxa logo da calculadora.”
Já na auto-proclamada “esquerda”, a estratégia é completamente distinta mas igualmente oportunista. Este tipo de políticos, cujo paradigma é António Costa, gosta de se rodear de “artistas” de méritos reconhecidos, cujo apoio público ostenta à lapela principalmente durante as campanhas eleitorais, esperançado que caia sobre si algum do suposto “prestígio” daqueles vultos das artes ou do pensamento.
Esta estratégia funciona tanto melhor quanto a popularidade do artista apoiante for socialmente notória (veja-se o caso da cedência, pelo município, da Casa dos Bicos à Fundação Saramago e o da atribuição de um subsídio para um filme sobre o casamento do escritor e do subsequente apoio político do escritor comunista nas últimas eleições autárquicas). Ao contrário dos da “direita”, este tipo de políticos “quando ouve falar num apoio de um notável da Cultura, puxa logo do livro de cheques”.
Deduzo que seja nesta segunda classe que se inscreve o nóvel poder autárquico figueirinhas com uma das suas primeiras medidas estruturantes tão prestimosamente anunciadas pelo blogue do meu amigo Agostinho: por proposta do novo vereador da Cultura (uma espécie de António Ferro do nouveau régime), a Câmara Municipal deliberou atribuir uma palmada nas costas, perdão, um voto de louvor a um galardoado realizador de documentários.
Devo dizer que, ao contrário do meu amigo Agostinho, a minha posição relativa a estas duas “mundivisões” é equidistante: talvez devido à minha assumida misantropia, sempre me foi fácil manter uma distância sanitária entre mim e uma vasta gama de cretinos, à esquerda e à direita. É evidente que com custos óbvios. Mas ninguém tem nada a ver com isso.
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o desenho acima não é inédito. No jornal "A linha do Oeste" servia de cabeçalho a uma rubrica que destacava afirmações dos políticos na campanha eleitoral de 1997.
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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A via das máscaras




"À face da terra já não há nada para descobrir, é uma tristeza"
Claude Levi-Strauss
Seduzido pelo marxismo na sua juventude, Claude Levi-Strauss cedo abandonou as ideologias porque “habituado a olhar para a humanidade através de gerações”, achava tudo muito “relativo”.
Antropólogo seduzido pela Arte e atento escrutinador dos seus mistérios, foi um dos mais redoutables adversários do preconceito, do racismo, do etnocentrismo e da estupidez em geral.
Filósofo desarmadamente despretensioso deixou escrito, no seu “Tristes Trópicos”, que “o mundo começou sem os homens e vai acabar sem eles.”
Foi com ele que aprendi, em A via das Máscaras (um estudo sobre os mitos fundadores da cultura dos índios da costa norte do Pacífico, entre o Alasca e a Colômbia Britânica), que as máscaras, para além de ocultarem faces, revelam evidências muito menos relativas, ancestrais.
Se é verdade que a cultura francesa está em declínio, com a morte aos 101 anos, do último dos seus grandes intelectuais, "la pensée francaise" despede-se assim mesmo, à francesa: em grande, redimindo-se assim de todos os seus petits cons como Gobineau, Petain, Le pen, Sarkozy ou outros cuja pequenez não cabe neste postal.
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domingo, 13 de setembro de 2009

A arte imita a vida

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Mafalda, a contestatária, foi homenageada com uma estátua numa rua de Buenos Aires. Quino, o seu criador, como sempre, foi parco em palavras, mas disse tudo (ver aqui).
Não é a primeira vez que personagens de duas dimensões ganham mais uma para ocuparem lugares de destaque em ruas ou praças. Mas não em Portugal. E contudo, conheço pelo menos duas (e os seus criadores) a quem tal podia ser devido: o guarda Ricardo, de Sam e o Zé Povinho, de Rafael Bordalo Pinheiro.
Quanto a este último, tenho até uma proposta, muito simples. Nada dessas modernices que ninguém entende. Tem que ser algo que o povo alcance (não sei se me faço entender). Realista. Mas diferente. Sem pedestal; ou melhor, com o pedestal por cima do personagem.
Seria então assim: localizada numa grande praça, o Zé seria representado como aquilo que é, ou seja, uma besta de carga. Estaria de joelhos no chão, suportando às costas um enorme pedestal (pelo menos o dobro da dimensão do personagem) para onde subiria toda a gente, desde políticos em campanha a turistas em férias. Seria, como se diz agora, "interactiva"; só assim se cumpriria eterna e plenamente o verdadeiro espírito da máxima “a arte imita a vida”.
Um dia destes faço o croquis.
Tenho quase a certeza de que pelo menos Rafael Bordalo Pinheiro adoraria.
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Ao alto, Mafalda e o sr. Joaquin Salvador Lavado, "Quino".
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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Esperando o sucesso (apontamentos de viagem)





O Museu Soares dos Reis é um dos meus museus de arte preferidos. É natural que, estando no Porto e tendo tempo, tenha aproveitado para o revisitar e, de caminho, mostrar a minha filha um dos mais notáveis acervos da arte portuguesa do século dezanove (mas não só).
Foi neste museu, beneficiado aquando das obras do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura, que descobri fascinado há mais de vinte anos, uma preciosa colecção de enormes desenhos a carvão de Abel Salazar. É ali que estão, (entre outras, Silva Porto, por exemplo) a obra completa (pintura) de Henrique Pousão e do escultor António Soares dos Reis (de quem fotografei, obviamente sem flash e sob o olhar benevolente mas circunspecto da vigilante, um pormenor de o desterrado).
Noutro qualquer país o público formaria filas intermináveis à porta de um museu destes para ver artistas assim.
Pousão morreu muito jovem, tal como Soares dos Reis. Um, de doença contagiosa; o outro com dois tiros na cabeça: ambos desterrados na sua terra e incompreendidos no seu tempo.
E contudo eu não acho estranho que ainda assim continuem: “esperando o sucesso”, cem anos depois e apesar de os dois juntos, cada um na sua arte representarem o cume da arte portuguesa de novecentos.
Apesar de vivermos o ano Pousão, é uma lástima que a grande exposição comemorativa dos 150 anos do pintor (antológica e de homenagem) tenha encerrado em Junho(!).De maneiras que tive o museu só para mim. Obviamente escoltado por vigilantes diligentes, foi óptimo para a minha fobia de ajuntamentos. Mas quando saí para a rua, para o sol de Agosto, vinha tomado por uma estranha e indisfarçável melancolia.
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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Mãos à obra


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Eu já desconfiava (como podem ver aqui) mas, a partir de agora é oficial: o governo de Portugal acha que o Património Cultural é uma questão de construção civil.
Embora a ideia tenha tudo para ser dele, não me admira que Jorge Coelho, eminência parda do socialismo empresarial em que vivemos e Conselheiro de Estado, do alto da sua magnanimidade venha a propor a comenda das Obras Públicas para o pobre imbecil que se lembrou disto.
É que, segundo esta notícia, foi tudo ideia do ministro da Cultura. Nem mais.
Segundo a referida notícia, a primeira vítima será o Palácio de Queluz. Preparem-se pois para o arrojo das sacadas em alumínio ou aço inox, as grandes “surfaces” envidraçadas ou as palas em betão.
A coisa promete e é todo um programa: o cheque-obra.
Bem-vindos pois à era radiosa do empreiteirismo-iluminado.
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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A casa do esquecimento

imagem daqui

O arquitecto é um pedreiro que aprendeu latim Adolph Loos


Hoje será entregue na Câmara da Figueira da Foz um abaixo-assinado no sentido de sensibilizar as autoridades para a necessidade de “reconstrução” do Mosteiro de Seiça.
Maria Rosa Anttonen, que deu início à recolha de assinaturas, e é a antiga proprietária do monumento e autora do blogue Seiça, a região e o mosteiro, interroga-se: “Por que o Paço de Tavarede foi completamente recuperado e o Convento completamente abandonado?
Isto levanta uma questão pertinente e infere uma série de equívocos que persistem na consciência colectiva portuguesa (se é que isso existe) sobre o património e a necessidade, ou conveniência, da sua conservação.
Apesar disso, julgo que é unânime que a conservação do património é importante para a preservação da memória colectiva. É suposto que quando esta conservação acontece, se faça no sentido de restituir à peça restaurada a sua autenticidade original. Isto faz-se, no que aos edifícios diz respeito, com a ajuda de técnicos competentes (canteiros, escultores, entalhadores, douradores, azulejistas, vitralistas, etc.) e, sempre sempre, com o recurso aos materiais originais. É isto que se faz em França, Inglaterra, Itália, e Alemanha, países que gozam justamente do prestígio e do proveito de preservarem o seu património histórico e cultural; neste último país, por exemplo, a catedral de Dresden, destruída na II Guerra mundial, foi restaurada recentemente sem recurso a um único grama de cimento).
E não, não é isso que se faz em Portugal. E não foi isso que se fez na Figueira: nem no Paço de Tavarede nem, mais recentemente, no Jardim Municipal. O que se fez ali não foi restauro. A autenticidade do lugar não foi restituída. O que ali está é outra coisa; não me ocorre o quê neste momento.
Não me parece que os nossos arquitectos (pelo menos os responsáveis do património) sejam pedreiros (têm horror às pedras, que são sujas e pesadas), que aprenderam latim (têm horror ao estudo e ao conhecimento do passado).
Por isso eu até preferia que deixassem tudo como está.
Mal por mal, deixem os vestígios do passado entregues ao tempo e ao seu labor competente.
Mal por mal, já estamos todos “a caminho do esquecimento, essa doce praia”.
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sábado, 1 de agosto de 2009

A ASAE da língua


Grassa pela blogosfera uma punhetice, certamente fomentada por entediados mas muito sofisticados literatos lisboetas, que consiste na pretensão de “abolir o ponto de exclamação”. Esse mesmo.
Como estamos em plena silly season, a frivolidade onanística em questão ameaça tornar-se numa petição. Até já tem um “símbolo”, “uma “imagem”, uma “bandeira”, um banner, que certos blogues bon-chic bon-genre à míngua de causas e de prestígio se prestam a usar orgulhosamente na lapela, como os membros de um clube muito restrito e selectivo.
Nada tenho contra nem a favor do ponto de exclamação. Concordo em absoluto que o seu uso no meio jornalístico ganhou dimensões absurdamente pornográficas. Mas não deixo de me espantar que, embora sempre tenham existido pruridos de “elegância” no uso da língua, a sanha “purificadora” e militante já esteja organizada em brigadas identificadas de vigilantes dos maus costumes linguísticos, condicionando as boas almas que escrevem na blogosfera (a partir de agora interrogar-se-ão sempre que utilizarem uma exclamação).
Por exemplo eu, que não tenho grandes preocupações com o “requinte estilístico” destes pobres textículos (só servem mesmo para ilustrar os desenhos e dar-lhes, digamos, uma certa cor local) estou indeciso: com que caralho de ponto se enfatiza “sofisticadamente” uma perplexidade?
- Receio que seja aquele que certos críticos recomendam aos que não levam "a escrita a sério".
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segunda-feira, 1 de junho de 2009

a parada das sardinhas



A parolice não tem limites.
Na Figueira da Foz não há limites. A parolice pomposa só tem comparação com a chicoespertice. E é igualmente inimputável.
O Centro de Artes e Espectáculos (CAE) fez sete anos. A inefável empresa que gere esse (como eles dizem) “equipamento”, resolveu que as comemorações eram coisa para 3 dias. Porque, dizem, “o sete é um número mágico”(!).
Mas o que mais me intriga na “programação cultural” - para além das bandeirinhas e de uma grandiosa exposição (com entrada gratuita) que explica a prodigiosa política cultural da equipa que tem gerido o designado “equipamento” - são coisas como a “dança vertical dinâmica” e a “Sardinha Parade”. Da primeira até tenho medo de perguntar o que seja, mas deduzo que seja mais uma “actividade” para épater competentemente os pacóvios, tal como a segunda, da qual julgo ter lido que se trata de uma “actividade” em que 15 artistas plásticos irão pintar ao vivo outras tantas sardinhas gigantes(!), que durante o Verão serão colocadas em locais estratégicos da cidade, “até serem adquiridas por empresas ou entidades. A receita poderá ser entregue a instituições do concelho, explicou Ana Redondo.” (Devo dizer que não me canso de lastimar que alguns colegas meus continuem a aceitar participar neste tipo de anedotas circenses, ainda por cima, como sempre e lamentavelmente, à borla).
Claro que tão ambicioso programa “artístico” só pode ser acompanhado de um painel de “oradores ilustres” que tratarão de demonstrar quão rutilante terá sido a gestão económica e o brilho cultural do “equipamento” durante os seus sete anos de vida.
Não há sardinha parade sem um correspondente desfile de carapaus de corrida. Ah, e sem a habitual multidão de basbaques. Sim porque presumo que uma espampanante festarola auto-promocional como esta terá sempre, como eles dizem, um “público alvo”.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Charles Baudelaire e o spleen de Braga




Os recentes episódios caricatos que envolveram “a origem do mundo”, de Courbet e o “intendente” da polícia de Braga, (que prontamente reagiu a uma denúncia popular para preservar a ordem pública, a moral e os bons costumes) lembraram-me um episódio recente, também em Braga, onde um emigrante português terá chamado a polícia para expulsar de um parque público uma criança negra “porque os parques públicos portugueses não deviam ser para estrangeiros”.
Isto tudo mais a anedota do carnaval de Torres Vedras e outros episódios cada vez mais habituais, revela um triste caldo de cultura e corrobora uma tese que venho acalentando segundo a qual não há nada mais reaccionário do que “o povo”. Esta tese pode ser ilustrada à saciedade pelas suas antigas e recentes opções políticas e culturais.
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O Povo”, essa vaga entidade adulada pelos políticos, apenas preza a “segurança”, a “estabilidade” e o “emprego” ou os seus alter-egos eufemísticos: a ordem pública, a moral e os bons costumes. As coisas do espírito são-lhe completamente estranhas, assim como conceitos como liberdade, igualdade ou fraternidade, devaneios de artistas e desocupados, certamente.
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O “povo” acredita piamente que o mundo foi criado há precisamente seis mil anos em seis dias. Por isso ficou chocado com “A origem do mundo”. Esta gente, quando nasceu, não se lembrou de olhar para trás. Se o tivesse feito saberia ao que Courbet aludia quando baptizou o quadro, criado de encomenda para um diplomata otomano (ao contrário do que as doutas ignorâncias escrevem nos jornais, esta pintura nunca fez escândalo no seu tempo simplesmente porque nunca foi exibido em público, até há cerca de vinte anos, quando deu entrada no museu d’Orsay, vindo directamente do consultório do psicanalista Jacques Lacan onde estava escondido por detrás de um outro, pintado pelo surrealista André Masson, cunhado do bom doutor - a história toda aqui.)
Sempre que os seus “valores” estão em crise, os recursos do “povo” parecem ser invariavelmente a inveja e a sua irmã predilecta, a denúncia. Quase todos os crimes do século vinte (do holocausto ao gulag, da revolução cultural a Pol Pot) foram possíveis graças a estas virtudes populares: a inveja e a denúncia. As maiores atrocidades do século passado foram cometidas em épocas de “crise de valores” e sempre em nome do "povo", com a sua anuência, aprovação, participação activa ou omissão.
O libertário Gustave Courbet era amigo do anarquista Pierre-Joseph Proudhon, que achava que “ a propriedade é um roubo” (uma heresia que decerto horrorizaria o bom povo de Braga) e do dandy licencioso Charles Baudelaire, poeta que escreveu “As flores do mal”, “os paraísos artificiais” e imenso sobre arte; descobriu e traduziu para francês, a língua “culta” de então, Edgar Alan Poe e amou demais uma mulata, Jeanne Duval, de quem Edouard Manet (outro escandaloso) haveria de fazer um retrato magistral. Esta paixão foi um escândalo na sua época. Suponho que ainda hoje o bom povo de Braga, ou d’ailleurs, ache o amor inter-racial uma espécie de perversão zoófila, ou assim.
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Não me admiraria que, se estes cinco estarolas hipoteticamente passeassem hoje pela idolátrica o seu esplendor (no caso de Baudelaire e Poe, o seu spleen) fossem irremediávelmente linchados pelo povo ou, no mínimo, que este os denunciaria ao “intendente”.
Os tempos que aí vêm parecem-me aziagos para os espíritos livres.
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O sonho americano


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É verdade. A América continua ser a terra dos sonhos. Lá na América actores sem talento, idiotas chapados e até mesmo pretos podem ser presidentes (privilégio que por cá está consagrado apenas aos idiotas). Mas também se pode ter sérios problemas com o desenho e com o álcool e mesmo assim atingir o firmamento das artes (pensando bem, por cá também).
Hoje, o Google relembra o aniversário de Jackson Pollock e a perenidade do sonho americano (no seu sentido lato, globalizado).
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Este conceito, “american dream”, é o principal contributo da América para a filosofia ocidental. Trata-se de um conceito segundo o qual qualquer idiota pode ser qualquer coisa. Basta querer muito. Estar no lugar certo à hora certa. Fazer figas e pôr-se a jeito.
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Ir para fora cá dentro



Agora é possivel. Yes we can. Em megaaltaresolução.
Graças ao Google earth, agora é possível ir ao Prado sem sair de casa.
Através de uma parceria do Google com o Museu do Prado, “El proyecto convierte al Prado en el primer gran museo internacional que facilita el acceso a sus tesoros en megaaltarresolución a través de Internet”.
14 das principais obras presentes no popular museu de Madrid podem ser vistas com uma resolução 1400 vezes superior às convencionais fotografias de 10 megapíxels.
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Convém ter a última versão do Google Earth (disponível aqui) e, no menu “layers”, activar a opção “três dimensões”.

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sábado, 10 de janeiro de 2009

comunicado

Pronto! Tinha que acontecer.
Durante anos, as paredes e o interior das portas dos sanitários públicos deste país foram o suporte por excelência para a coragem cívica da maioria silenciosa.
Era aí, na pestilência enclausurada de um anonimato silencioso, que esta maioria "valerosa", ousava os mais críticos sarcasmos, as mais corajosas denúncias e as obscenidades mais explícitas.
De há uns anos para cá, a maioria silenciosa começou a utilizar a internet e o suporte para as suas corajosas mensagens ao país passou a ser a caixa de comentários dos blogues (o que talvez explique o asseio que agora ostentam os mictórios públicos).
Contudo, este blogue, que fará em breve dois anos, sabe deus como, sempre conseguiu passar incólume à sanha chocarreira do comentário anónimo. Talvez pela sua audiência residual.
Até ontem.
Claro que os apaguei. Embora seja um apreciador do vernáculo e da ousadia, desprezo a covardia. Terei todo o gosto em publicar insultos desde que devidamente assinados e assumidos (eu acho que o insulto é uma forma legítima de expressão).
Este blogue é um “diário de um artista atento ao rumor do mundo”.
Não é a casa da Joana. Nem um fórum de despeitados.
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